Evandro Enoshita
Agência BOM DIA

O caso da família de Diadema que, acreditando que seriam arrebatados por Jesus, deixaram tudo para trás e sumiram por 14 dias, até serem encontrados, na semana passada, no interior do estado, levanta a questão do fanatismo religioso na sociedade.
Na manhã do dia 14 de março, o vendedor José Carlos Dias, 47 anos, a mulher, a auxiliar de produção Antônia Aparecida Gomes, 49 anos, e os dois filhos do casal, Henrique e Thais, de 22 e 18 anos, respectivamente, saíram a pé de casa, no bairro Campanário.

Apenas com a roupa do corpo, sem dinheiro nem documentos – que haviam sido rasgados na noite anterior – a família partiu sem destino. Eles acreditavam que seriam arrebatados na tarde do mesmo dia. O arrebatamento não veio, e a família ficou vagando por duas semanas, até ser reconhecida por uma assistente social em Ourinhos, a 400 quilômetros da Capital, que ficou sabendo do desaparecimento pela imprensa.

Mas o que faz com que uma família aparentemente normal e estruturada, com emprego e casa própria, abandone tudo em nome da religião? Segundo a professora de psicologia da Universidade Metodista de São Paulo Angêlica Capelari, a explicação para o comportamento extremo é a necessidade do ser humano de se adequar a um grupo.

“A necessidade de ser bem visto pelo todo faz com que esse grupo seja o novo parâmetro de comportamento. Mesmo nas ocasiões em que a pessoa venha a se arrepender ou até questionar as decisões desse grupo, o medo de reações contrárias [do grupo] faz com que o indivíduo recue. Chega-se a um ponto em que a pessoa teme uma reação divina, caso descumpra às determinações do grupo”, ressaltou Angélica.

Diadema

Esse parece ter sido exatamente o caso da família de Diadema. Afilhada do casal, a dona de casa Patrícia Gomes de Carvalho, 30 anos, destaca que, há dez anos, o vendedor era espírita, mas deixou de frequentar as reuniões. Há dois anos, porém, ele teve o primeiro contato com pregadores de uma seita cristã, e começou a mudar de comportamento, chegando a converter toda a família. “Minha mãe sempre questionou as coisas que o meu pai dizia, mas não queria enfrentar a crença dele”, ressaltou.

Angélica não acredita que um evento traumático tenha levado a família a recorrer ao radicalismo. Ela crê, porém, que é importante que a família passe por um acompanhamento psicológico, para evitar o trauma causado pelo fato deles não terem sido arrebatados. “Existe a possibilidade de a família começar a procurar motivos para não terem sido arrebatados na data marcada, culpando inclusive a si mesmos e a parentes”, completou a psicóloga.

No momento, a família tenta colocar a vida novamente dentro dos eixos. “Eles estão muito envergonhados, não querem falar sobre o caso. A empresa em que a minha mãe trabalha ofereceu tratamento psicológico para a família. Mas eles ainda não sabem ainda quando que a rotina da família irá voltar ao normal”, afirmou  Patrícia.

Extremismo x Religiosidade

Líderes religiosos do ABCD comentam a questão do fanatismo religioso segundo suas crenças

Vice-presidente do Cdial (Centro de Divulgação do Islam para América Latina), Ziad Ahmad Saifi, destacou que o islamismo condena qualquer tipo de fanatismo religioso.

“A palavra fanatismo já resume tudo. Como em todas as religiões, tudo  que é em excesso é ruim e faz mal. O Alcorão [livro sagrado dos muçulmanos] define os momentos e horários em que é necessário praticar as orações para Deus. Isso é justamente para limitar a adoração excessiva”, destacou Saifi.

Diferente do que muita gente possa pensar, com os casos de homens-bomba e atentados suicidas no Oriente Médio, o vice-presidente da Centro de Divulgação do Islam ressalta que o livro sagrado dos muçulmanos não incentiva atos de extremistas.

“Os fanáticos não buscam além da sua perdição. Islam deriva da palavra árabe ‘salam’, que significa paz. Por isso, nenhum ato de fanatismo e extremismo é tolerado”, completou Saifi.

‘Existe o fanatismo bom e o ruim’, diz rabino

Líder da Associação Religiosa Israelita de Santo André, o rabino Yosef Tawil acredita que é possível dividir a devoção religiosa em dois campos distintos: o fanatismo bom e o fanatismo ruim. “Para viver em ordem, o homem precisa de alguém que o oriente a respeito das palavras de Deus. Frequentar a sinagoga e  orar podem ser definidos  como atos de fanatismo saudável”, definiu Tawil.

Já o fanatismo ruim, segundo o rabino, surge da ignorância das leis divinas. “O fanatismo ruim acontece quando a pessoa coloca as palavras de Deus de uma forma errada. Os livros sagrados têm informações que precisam ser interpretadas de uma maneira correta, e não levadas ao pé da letra”, destacou o rabino.

Ainda segundo o representante da comunidade judaica no ABCD, nas reuniões da comunidade da região existe uma preocupação no sentido de explicar essa diferença entre os dois tipos de devoção religiosa. “No judaísmo, sempre vamos para o lado da paz e temos uma preocupação de ensinar para as pessoas o lado bom das leis de Deus”, completou.

‘Não se pode ir além de Deus’, afirma padre

A opinião de que o fanatismo religioso não é  saudável também é compartilhada pelo padre José Pedro Teixeira de Jesus, das paróquias São José Operário e Nossa Senhora das Dores, ambas em Santo André. Para ele, os atos extremos pela religião são relacionados à falta de capacidade de discernir o certo do errado.

“Quero creer que quando as pessoas cometem atos de fanatismo estão achando que fazem o melhor possível para elas. Mas acho isso diícil. É complicado você respeitar algo que não é saudável”, ressaltou Jesus. Para o padre, o fanatismo surge do fato de muitas pessoas terem a intenção de interpretar as palavras de Deus em benefício de ideias próprias.

“Desde o início da caminhada da humanidade, muita gente tentou usar a palavra de Deus em vão. Isso é errado. Não se pode usar os conhecimentos dessa forma. A igreja sempre viu os atos de fanatismo de forma muito reticente. Orientar os fieis a respeito disso é uma de nossas principais preocupações”, completou o padre.

O arrebatamento

A teoria surgiu a partir de interpretações do Livro do Apocalipse, da Bíblia, criadas no século XIX, na Inglaterra.  Este momento e definido como o primeiro evento do fim do mundo, no qual  Jesus Cristo iria resgatar as pessoas escolhidas para povoar o reino dos céus, deixando na Terra apenas aqueles que não o aceitaram como o salvador.

Profecia na internet

No site de busca Google, o termo ‘arrebatamento’ aponta 429 mil resultados. Em uma das páginas, inclusive, há um manual para aqueles que não forem arrebatados.

(Rede Bom Dia)

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