Ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra comunicou oficialmente sua renúncia ao comando do partido com um discurso no Diretório Nacional do PT, na manhã desta sexta-feira. Muito aplaudido, Dutra lembrou que alguns companheiros gostariam que ele renovasse a licença, mas acreditava que “não seria justo” nem com ele, nem com o próprio partido. A saída de Dutra e a escolha do deputado estadual Rui Falcão (SP) para o lugar dele significa na realidade, segundo alta fonte no partido,  do início da maior ofensiva do PT já realizada contra os partidos da direita em São Paulo, último reduto do PSDB, DEM e PPS.

– Tomei uma decisão sobre a qual tenho total responsabilidade: sair agora da presidência do PT. O partido define seu novo presidente e eu me cuido – disse.

Dutra deixa a Presidência do PT para um tratamento médico que feve durar cerca de 180 dias. Com isso, o vice-presidente Rui Falcão assume o cargo até 2013, época de uma nova eleição no partido, com vistas às eleições presidenciais de 2014.

– Se vocês acompanharam, a minha primeira licença foi de 15 dias. Na véspera do 15º dia, já começaram a especular: ‘volta, não volta, vai ficar três meses fora’. Não é justo com o PT, porque gera instabilidade, porque o partido tem tarefas urgentes na conjuntura política (eleições 2012), e ruim para mim porque essa indefinição gera estresse – disse Dutra sobre as especulações sobre sua continuidade no comando do PT.

Na noite passada, em Brasília, líderes da ala majoritária do partido optaram pela permanência do deputado estadual Rui Falcão (SP) na Presidência do partido, em substituição a José Eduardo Dutra. O nome de Falcão seguiu para votação na reunião da legenda, em São Paulo, e deverá ser aprovado nas próximas horas pelo Diretório Nacional, composto por 81 membros mais os líderes do partido no Congresso. Apoiado pelo ex-ministro José Dirceu, Falcão deverá permanecer no cargo por dois anos. Sua escolha, caso se concretize, devolve o controle da sigla para São Paulo no momento em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta ao Estado, no momento em que os petistas lançam uma ofensiva contra o PSDB num dos últimos redutos da oposição.

Observadores políticos acreditam que o objetivo do ex-presidente Lula é fortalecer na legenda no Estado, em um momento de confusão generalizada nos partidos da direita, após o lançamento da dissidência do prefeito Gilberto Kassab na forma do novo partido, o PSD. Fontes no PT acrescentam que Falcão, que também ocupa a Primeira-secretaria da Assembleia paulista, deverá comandar o PT com um colegiado, integrado por nomes como o do secretário nacional de Organização da sigla, Paulo Frateschi, e José Dirceu, que defendeu junto aos seus pares a candidatura de Falcão desde março.

– A escolha do nome de Falcão foi acertada com a presidenta Dilma (Rousseff) e em nenhum momento houve a discordância entre ela a direção do partido. A versão de que o (ex-ministro José) Dirceu teria influenciado nessa escolha também é uma falácia, pois ele sequer participou das discussões finais sobre a escolha do Rui (Falcão) para o posto de (José Eduardo) Dutra – disse a fonte. Dirceu chegou ao país na noite passada de uma série de palestras agendada na Inglaterra.

Delúbio de volta

Junto com a renovação do Diretório Nacional, a cúpula do PT também estuda a possibilidade de refiliação do ex-secretário de Finanças, Delúbio Soares, expulso do cargo durante o escândalo do mensalão, no final do primeiro mandato de Lula. Integrantes da corrente majoritária, Construindo um Novo Brasil, discutem a possibilidade de refiliação de Delúbio Soares, que foi convidado a participar da reunião quando seu nome estiver em pauta.

Delúbio conta com o apoio explícito de parlamentares e ex-correligionários, entre eles o líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza, que participou de jantares na residência da senadora Marta Suplicy (PT-SP) para tratar do assunto. Acompanhado da esposa, Mônica Valente, na véspera, Delúbio chegou a se emocionar durante a defesa que fez de sua volta à legenda, durante reunião na sede do partido. Apos cinco anos e meio depois da expulsão, Delúbio recebeu o apoio da corrente majoritária no PT.

– A minha identidade política é a mesma identidade do PT. Preciso da minha identidade política de volta – disse Delúbio, com a voz embargada.

O discurso emocionou os presentes e o deputado Sibá Machado (PT-AC), ao lado do dirigente Francisco Rocha, o Rochinha, seguraram as lágrimas ao ouvir o pronunciamento de Delúbio e, depois, ao defender a volta dele para o seio da legenda.

– Ele segurou o choro e ficou muito emocionado. Mas agora eu  sinto que o Delúbio está feliz e aliviado – disse o secretário de Comunicação André Vargas (PT-PR).

Processo

Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema. O caso veio a público quando foi denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson. Segundo Jefferson, atual presidente nacional do PTB, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Em janeiro de 2008, o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com o acordo, Pereira teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos.

No relatório, Barbosa apontou o ex-ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu; o ex-presidente do PT, deputado José Genoino (SP); o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares; e o ex-secretário-geral Silvio Pereira, como núcleo central do esquema. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genuíno e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

O voto do relator apontou ainda que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto por Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural Kátia Rabello e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

A denúncia inclui ainda parlamentares do PT, do PP, do PR (ex-PL), do PTB e do PMDB. Entre os acusados está o ex-deputado federal Roberto Jefferson. O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha responde processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Em setembro do ano passado, saiu a primeira sentença do caso, quando a Justiça Federal condenou o advogado Rogério Lanza Tolentino, apontado como sócio do publicitário Marcos Valério, a sete anos e quatro meses de prisão, mais pagamento de 3.780 salários mínimos, pelo crime de lavagem de dinheiro.

(Correio do Brasil)

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