Uma oportuna e providencial atitude de um repórter da ‘TV Globo’ mostrou, ontem, na estação Botafogo do Metrô do Rio, o que todo mundo já sabia que ocorre em qualquer canto do país: o desequilíbrio e o despreparo de agentes de segurança e policiais em lamentáveis intervenções, onde a truculência e o abuso de poder ficam claramente caracterizados. É inadmissível e, sobretudo, desproporcional a agressão sofrida por um passageiro -era negro- envolvendo agentes de segurança do metrô. Um outro passageiro, indignado com a atitude agressiva dos ditos agentes contra o passageiro, também acabou detido e registrou queixa de agressão na delegacia policial. Um agente de segurança também se disse vítima de lesão corporal.

Não é a primeira vez que fatos semelhantes ocorrem no Metrô do Rio. O fato -quando é filmado todos tomam providências imediatas- está sendo apurado agora na esferas administrativa e policial. Parece mesmo que os resquícios da ditadura permanecem ainda arraigados à cultura policial brasileira. Esquecem-se os senhores agentes da lei que há limites de atuação no exercício do poder de polícia, mormente num estado democrático de direito. Fizesse o que tivesse feito o passageiro em questão, o uso da força teria que ter sido comedido, proporcional e seletivo. Não excessivo e arbitrário. Ningúém está acima do bem e do mal por encontrar-se investido do poder de polícia, fazendo uso de um vistoso uniforme e de um cassetete e/ou de uma arma e uma algema.

Caso o lamentável incidente não tivesse sido filmado provavelmente prevaleceria o dito pelo não dito. Dias atrás, as câmeras também mostraram a ação absurda e desequilibrada de policiais militares, em Manaus, numa covarde agressão a um menor indefeso e encurralado numa parede, ao ser abordado pelos truculentos agentes da lei. Covardemente foi agredido a tapas e atingido por disparo de arma de fogo desferido por um dos policiais. Também dias atrás em São Paulo um rapaz, que participava de uma festividade entre jovens, foi espancado até morte por seguranças do evento e seu corpo deixado junto a um barranco próximo ao local. Absurdo, truculência e covardia com todas as letras.

O Metrô do Rio, e não podia ser diferente, afasta agora os seguranças envolvidos no episódio. O presidente da Comissão de Transportes da Assembléia Legislativa do Rio (ALERJ), deputado Marcelo Simão (PSB) cobra, com toda razão, explicações à direção do órgão sobre o preparo de seus agentes de segurança.

A ditadura acabou. Policial não se faz respeitar pelo medo e pela truculência, mas sobretudo pelo exemplo de suas atitudes, pelo equilíbrio de suas intervenções. Quem detém o poder de polícia o detém para servir e proteger, não para ameaçar e agredir. O uso da força policial tem que ser o necessário para repelir uma injusta agressão e conter, quando for o caso, a resistência à prisão. Nada além disso.

A polícia e a justiça agora que façam o seu dever de casa. Apure-se e puna-se, com todo rigor, os que se exorbitaram de suas funções de segurança. O Brasil é um estado democrático de direito onde os direitos civis precisam ser devidamente respeitados pelos que detém o poder discricionário de polícia. Policiais e agentes de segurança não são sinônimos de gorilas. A ditadura acabou. Melhor seria se o Metrô do Rio não aparecesse na mídia por lamentáveis incidentes como este mas pela prestação eficaz de seus, até agora, precários serviços.

(Milton Correa – O Globo Online)
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