Daniela Mercury é axé, pop, eletrônico, romântico. Baiana de Salvador, ela se alimenta da cultura brasileira e a transforma em Canibália: um disco conceitual, que logo vai virar um DVD, e um show que começa nas raízes africanas da música e vem até a contemporaneidade passando, inclusive, pelo rock.

O espetáculo, apresentado em Copacabana no último réveillon, é inédito por aqui, e Daniela vem mostrar essa mistura de ritmos e essa homenagem ao Brasil hoje, no dia do aniversário de Fortaleza. Em entrevista por telefone, a cantora conta mais sobre o show e o retorno ao Ceará.

O POVO – Quais as expectativas para voltar ao Ceará?

Daniela Mercury – Estou com uma expectativa maravilhosa. O réveillon que eu fiz foi um dos shows mais espetaculares e emocionantes que fiz na minha vida. A relação que eu tenho com Fortaleza é de muitos anos. Vocês conhecem minhas canções, a gente tem essa identidade como nordestino. É sempre muita emoção. E é isso que dá sabor ao show, que dá luz e sentido a tudo.

OP – Você traz a estrutura do show apresentado no réveillon de Copacabana, que virou DVD?

Daniela – Estou levando cinco bailarinos comigo, um novo cenário de Gringo (Cárdia, artista plástico). É o show que eu fiz no DVD de Copacabana. O Canibália é muito emocionante, é bonito de se ver. Eu já tinha feito isto no Feijão com Arroz, trabalhado com telas de Di Cavalcante. Agora, neste show, tenho Carybé, a tela Mulata Grande, e um mural de azulejos de Portinari, na parte latina.

OP – Até que ponto você se envolve na produção?

Daniela – Faço a direção do show. Todo o conceito, figurinos dos bailarinos, é tudo meu. Eu discuto tudo. Eu que trouxe a ideia do Canibália, que é um manifesto de homenagem a todos os gêneros musicais e todos os criadores e criaturas da arte. Sou “canibalista”, quero entender de tudo. Adoro filosofia, comportamento, todas as artes. Trago a minha vida, alma, como mulher, mãe, bailarina, desde pequena no palco, fiz teatro de rua também. Trago tudo para o palco no intuito de emocionar. É engraçado porque, quando eu surgi com O Canto da Cidade, era moda falar do Brasil, por causa do impeachment de Collor. Era bom valorizar o que era brasileiro. Está com 25 anos de democracia no País, e a meninada parece que se acomodou. A gente está precisando de muitas coisas pra acreditar.

 

OP – Por que fazer um disco conceitual agora?

Daniela – A gente tem que cultivar uma massa crítica. O artista tem que trazer a história da música brasileira para as pessoas. Sinto uma dispersão muito grande, um vazio crítico muito grande, no sentido também de acompanhamento das inovações, das intervenções de todas as artes no Brasil. Existe pouca compreensão do que se faz efetivamente. Depois de anos, as pessoas chegam à conclusão de que a arte brasileira é mestiça, mas ela sempre foi. Por isso não cabem os bairrismos. Sertanejo agora pega do rock, já pegou do forró, da música italiana. Boleros brasileiros eram mexicanos. Essa coisa de pureza e genuíno não existe. Ao mesmo tempo, é necessário identificar isso e entender como cada um constrói suas fusões e o que isso agrega para música brasileira e para as artes. Minha ideia é de aproximar. Canibália é um manifesto de união.

OP – Você sempre foi assim, mutante?

Daniela – Eu sou, e minha geração é. Bebe de todas as fontes, mas nem todo mundo é tão aberto, tão inquieto. É preciso ter coragem para fazer um trabalho conceitual. Eu sou uma artista que fiquei conhecida no Brasil já com essa divisão. Vinda da MPB, fazendo música alegre, forte, que movimenta multidões, por causa da experiência do trio elétrico na Bahia, mas querendo sempre inovar. Tenho isso dentro de mim, trago o manifesto antropofágico. Swing da Cor já trazia isso, uma leitura tropicalista.

OP – Tudo isso é Canibália?

Daniela – A ideia é contemplar todos os ritmos brasileiros desde o início. No final do show, eu trago o samba-reggae. É capaz também de eu botar um forró, para prestigiar Fortaleza neste aniversário. E é a terra de Belchior, então vou cantar Como Nossos Pais, para homenageá-lo também.

OP – O que você quer dizer para o Brasil com esse disco e esse show?

Daniela – Para ele olhar pra si mesmo, se gostar mais e entender o que a gente pode melhorar no nosso convívio. O sonho era dizer: “Não se sinta mal por ser latino-americano, tenha orgulho de ser o que é”. Todo mundo é diferente no mundo, a gente é um povo maravilhoso, tem que vencer as próprias mazelas e tem que se identificar nessa sociedade que não traz o sonho de igualdade que a gente trazia no início. Então vamos seguir no caminho.

OP – Como o show se divide?

Daniela – Começa com candomblé, porque é a raiz de todos os ritmos, da música negra no mundo. Trago a essência dos tambores, dos atabaques e começo o show dançando com um solo. Aí o show vai esquentando, esquentando, esquentando (risos). Cada momento tem músicas dançantes, mas com ritmos diferentes. Começa com candomblé. Depois faço Samba da Minha Terra, Samba da Bênção, depois Preta, que gravei com seu Jorge e faço com Sorriso Negro, que dona Ivone Lara cantava. Depois venho com O Mais Belo dos Belos, Ilê Pérola Negra. E uma homenagem à Bahia, O Que é Que a Baiana Tem, com Carmen Miranda. Acabei de fazer no DVD ela cantando comigo.

OP – A terceira parte do show é uma homenagem à música latina. Que sucessos estão no repertório?

Daniela – Busco um Brasil latino-americano, samba com reggae. Canto Sol do Sul, Música de Rua, Minas com Bahia, Rapunzel, Iluminado, música do Vander Lee que acabei de gravar.

OP – Você compôs uma música em parceria com Margareth Menezes, Oyá Por Nós. A religião também entra no show?

Daniela – Ela fala do sincretismo, entre Iansã e Ave Maria. É um candomblé com eletrônico. Depois faço Swing da Cor. Então o show tem candomblé, samba, samba-afro, MPB, coisas latinas e rock. Nesse meio, também faço Tempo Perdido(da Legião Urbana).

OP – Neste aniversário de 285 anos, o que você deseja a Fortaleza?

Daniela – Que o aniversário de Fortaleza reúna tudo que o nosso dia a dia separa. Reúna a cidade, e que eu possa divertir as pessoas, emocionar e trazer o que Fortaleza me deu nessa vida. Acho Fortaleza uma das cidades mais lindas do mundo, o Estado todo é espetacular. Que a gente tome conta da natureza e que tomem conta da gente. É isso que eu tenho sonhado, em ser essa luz para as pessoas. Mas com humildade, e sem trazer verdades absolutas. Eu sou uma apaixonada. A gente precisa viver de sonho. Sou nascida do sonho, vivo pelo sonho. Nada é mais importante que isso. Um sonho maior de Brasil, de planeta, de amor. Feliz aniversário, Fortaleza!

 

SERVIÇO
Canibália – Show de Daniela Mercury no aniversário de Fortaleza. Hoje, no Aterrinho da Praia de Iracema, às 22 horas, com abertura às 20 horas, com show coletivo de intérpretes da música cearense. Grátis.
Outras info.: 3105 1386.

(Alinne Rodrigues – O Povo Online)

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