Para Claudio Porto, fundador da consultoria de negócios Macroplan, o Brasil vive em um momento decisivo para se tornar uma economia desenvolvida e de grande relevância mundial. Mas, se deixar de resolver questões cruciais, pode jogar fora uma oportunidade histórica. Ele é um dos organizadores do livro 2022: Propostas para um Brasil melhor no ano do bicentenário — que será lançado no dia 31 de março no Rio de Janeiro e dia 4 de abril em São Paulo. Claudio Porto falou a EXAME sobre os principais desafios na agenda de desenvolvimento do Brasil na próxima década. De acordo com o economista, o país precisa definir se irá se limitar a mero fornecedor de commodities e alimentos ou se vai se firmar como um pólo industrial competitivo e inovador.

Qual a proposta de seu novo livro?
O Brasil está em um ponto de inflexão. Quisemos mostrar que estamos diante de uma janela de oportunidade histórica para alcançar padrões de países de primeiro mundo em médio prazo, tanto devido a nossa inserção na onda dos emergentes, como pela nossa condição demográfica. O Brasil pode ser primeiro mundo em 2022. Mas esse bom futuro não está garantido. Há muito por fazer.

Quais são os principais desafios a enfrentar na próxima década?
Há dois principais. O primeiro será acelerar a escolaridade e a qualificação profissional da população. O desafio não é mais fazer as pessoas terem acesso à escola, mas como fazer isso de maneira rápida e progressiva. A segunda questão mais urgente é em relação aos gargalos de infraestrutura do país, que podem se tornar barreiras ao crescimento sustentável. Isso sem mencionar as questões institucionais.

Quais são as questões institucionais?
É urgente melhorar o desempenho do setor público, que gasta muito e gasta mal. Temos um Estado muito engessado. Se nada for feito, será cada vez mais difícil ter políticas sustentáveis diante das mudanças demográficas. Ou adaptamos as políticas ou vamos gastar muito onde não precisa e vai começar a faltar dinheiro onde precisa.

Como assim?
A política previdenciária, assim como algumas políticas educacionais precisam se tornar mais flexíveis, pois as mudanças de necessidade vão ocorrer rapidamente. Um exemplo de rigidez dessas políticas é que os municípios e estados são obrigados por lei a destinar uma determinada parcela do orçamento a cada uma dessas áreas. A intenção é boa, mas pode ocorrer de um município ter sua área de educação mais bem resolvida que a de saúde, por exemplo. O ideal seria que as administrações pudessem utilizar os recursos com mais flexibilidade, claro que contando com mecanismos eficientes de fiscalização e controle também.

Em um dos artigos, o senhor discute o papel do Estado em diferentes cenários para 2022. Qual deve ser o peso do Estado no cenário mais provável?
Em qualquer cenário, o Estado continuará a ter um peso econômico relevante. Hoje sua presença é muito forte, com fortalecimento da Petrobras, com a grande oferta de crédito pelo BNDES e pelos bancos públicos e pelo seu crescente papel social. Quase 20% das famílias do Brasil são assistidas pelo programa Bolsa Família. Não dá para fazer um enxugamento de uma vez, pois isso teria um efeito desestabilizador muito grande na economia.

E como é o cenário mais provável na sua percepção?
Acredito que deve ocorrer uma junção de dois cenários que descrevemos: o “capitalismo chinês à brasileira”, com o Estado ainda muito presente em todos esses setores, com o “choque ortodoxo de capitalismo”, que deve ser a imposição de limites financeiros, cambiais e fiscais a essa força do Estado. Vai ser necessário abrir espaço para a iniciativa privada e isso deve começar na área de infraestrutura.

Como o senhor vê o papel do Brasil no mundo em 2022?
O que é certo ou quase certo é que seguiremos como grandes fornecedores de alimentos, água e energia. A dúvida é se o país vai se limitar a isso ou vai conseguir consolidar uma indústria de transformação globalmente competitiva. Para isso, é necessário agir hoje e atacar as questões que afetam a competitividade dos nossos produtos, como tributos e custos de logística elevados, muita burocracia e baixa capacidade de inovação.

Dentro do período proposto, até 2022, temos dois grandes importantes eventos, que são a Copa do Mundo e a Olimpíada. Como eles devem impactar nos cenários?
Desde já, esses dois eventos têm o efeito importante de aumentar a visibilidade internacional do Brasil. Estamos na vitrine. E, como não sofremos muito com a crise, pela primeira vez desde o Plano Real, estamos bem na foto. Esses eventos são uma oportunidade para acelerar a solução de gargalos de infraestrutura. É quase uma fatalidade: ou a gente resolve bem ou paga o ônus de estar na vitrine. A perspectiva é de que vai haver solução para os problemas principais, mas provavelmente a um custo muito maior do que se fosse de um modo planejado e com metas. Infelizmente, deve predominar a tendência à improvisação.

As perspectivas em relação ao pré-sal seguem uma lógica semelhante?
Sim. Nesse caso, temos uma oportunidade associada a um grande risco. Se bem manejado, com uma política industrial ativa e com perspectiva global, o pré-sal pode representar a oportunidade de o Brasil se tornar um pólo de produtos, tecnologias e serviços para a indústria de petróleo e gás competitivo mundialmente. Dado o volume de investimentos necessários, se tivermos a inteligência e a competência de desenvolver um parque produtivo de equipamentos e serviços inovadores, o pré-sal pode ser uma das portas de aceleração do nosso processo de inovação, que é muito atrasado em relação a outros países no mundo. Ele vai forçar isso porque as tecnologias para fazer uma exploração segura e sustentável desses recursos ainda não existem.

(Por Luciene Antunes – Portal Exame)