A raiz do preconceito é sempre o ódio à diferença. O que significa sempre a presunção de que o certo é você. De que você é o centro do mundo e de que todo mundo tem que girar ao seu redor. De que você é a medida perfeita, o modelo de eficiência, a solução sublime, a suprema criatura, o parâmetro inexcedível diante do qual os outros são definidos – se são bons ou maus, grandes ou pequenos, bonitos ou feios.

Preconceito tem a ver sempre com o medo em relação a quem é diferente. Porque quem faz de modo distinto – quem não é igual a nós, quem envereda pelo caminho de outro jeito – sempre nos expõe. Sempre nos questiona. Tomamos isso como provocação – como pode esse cara não ser meu espelho, não pensar como eu, ter na verdade ideias e atitudes totalmente diferentes da minha? (E se as ideias e atitudes dele forem melhores, mais charmosas, mais divertidas e inteligentes? Como eu fico?) Quem é esse cara que nos coloca em risco ao nos oferecer contraste, ao realizar outras escolhas, ao tomar outro caminho? É preciso matar esse sujeito logo, na raiz. É preciso cortar-lhe as asas, castrá-lo.

Se todos nos forem semelhantes, não há o risco de estarmos errados. Ao menos não individualmente. Então o preconceito é, antes que tudo, uma força de coesão. Ele busca, ao atacar as diferenças, deixar todo mundo preso na faixa do meio, na temperatura média, na “normalidade”, na mediocridade, na viscosidade da grande geleia geral, no senso comum, do lado da maioria burra, sem jamais ousar chamar a atenção, nem acima nem abaixo, nem mais à esquerda nem mais à direita, sem destoar um tiquinho, sem permitir uma grama sequer de originalidade, de individualidade, de, enfim, diferença.

Quanto mais sentimento de aldeia houver, quanto mais estreito for o horizonte, quanto mais agirmos como clã, maior será o preconceito, mais atacados serão os diferentes, mais o sentimento de “média” será valorizado. Ao contrário, quando maior for o cosmopolitismo, maior será a tolerância com a diferença, mais interessantes e atraentes soarão os outros jeitos de fazer, mais o novo será valorizado, mais as liberdades e dessemelhanças individuais serão festejadas e acolhidos.

É assim: se a simples existência do outro, florescendo fora do seu raio de controle, faz com que você se sinta agredido ou constrangido, você busca aniquilá-lo. E mesmo que engula a insuportável diferença que o outro lhe impõe, você odeia aquela fonte de sofrimento com todas as suas forças. Se você é seguro de si, é adepto da teoria do viva e deixe viver, se não é dado ao controle alheio nem precisa que o pelotão todo marche no seu ritmo, para onde você deseja ir, para se sentir bem o suficiente para sair da cadeira, você simplesmente tolera – e talvez até se divirta com – a diferença.

Antes de terminar: a discriminação é também um exercício de poder, de engrandecimento hostil de si mesmo diante do outro, que está sempre numa posição supostamente inferior. Quanto mais clara ficar posição mais frágil do outro, mais o seu privilégio brilhará. E de que vale um privilégio que você não pode esfregar na cara dos outros? Portanto, a discriminação carrega um bocado de covardia também. Você acredita que tem uma vantagem e a usa com crueldade, perversamente. Você só dorme feliz à noite se sentir que humilhou alguém durante o dia. Mesmo que a vantagem só exista na sua cabeça e mesmo que você não reúna condições de humilhar quem quer que seja. Não importa. Importa a intenção. E são as intenções, muito mais do que os resultados concretos, que definem os canalhas.

(Por Adriano Silva – Portal Exame)

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