SÃO PAULO – A proporção de reajustes salariais acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) atingiu em 2010 o maior patamar desde 1996, quando o levantamento começou a ser realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

No ano passado, 88,7% dos 700 acordos salariais analisados pela entidade resultaram em aumentos reais de remuneração. Destes, 15,1% contabilizaram ganhos reais superiores a 3%, o triplo do verificado nos dois anos anteriores.

Para o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira, o resultado reflete principalmente a vigorosa expansão da economia brasileira em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 7,5%, o melhor resultado desde 1986.

“Tivemos no ano passado uma conjuntura econômica bastante propícia a negociações”, avalia Oliveira, destacando pontos como as melhorias nas condições de emprego e renda, os aumentos na produtividade das empresas e o controle inflacionário.

Tal cenário também possibilitou a redução no percentual de acordos com reajuste abaixo da inflação. Em 2010, foram 4,3%, ante 8,6% em 2009 e 11% em 2008. O mesmo movimento se deu entre os acordos que apenas repuseram as perdas inflacionárias, com sua participação caindo de 11,9% em 2009 para 7% no ano passado.

Todos os setores da iniciativa privada tiveram a fatia de acordos salariais com ganhos acima da inflação elevada na comparação com 2009. O comércio foi o setor que mais promoveu aumentos reais (95,7% dos acordos firmados), seguido pela indústria (90,5%) e pelo setor de serviços (82,8%).

Embora o ambiente econômico brasileiro ainda seja considerado positivo pelo Dieese, a expectativa de desaceleração do PIB e de aumento da inflação nos próximos meses não deve permitir que os resultados obtidos nas negociações salariais em 2010 se repitam neste ano. “2011 deverá ser um ano espremido entre 2010, que foi muito bom, e 2012, quando a economia deverá retomar o fôlego”, afirma Oliveira, acrescentando que considera pouco provável que as centrais sindicais consigam conquistar ganhos reais na magnitude vista no ano passado.

A supervisora técnica do Dieese, Eliana Elias, ainda chama a atenção para o fato de que reajuste real não significa necessariamente aumento no bolso do trabalhador. Outros fatores, como a rotatividade, influenciam a remuneração dos profissionais. “Isso pode ser visto quando uma empresa demite um profissional e coloca outro em seu lugar pagando um salário muito menor”, exemplifica.

O desenvolvimento do mercado de trabalho no Brasil, de acordo com o Dieese, ainda depende de mudanças em diversas esferas, envolvendo desde a política de salário mínimo, até questões ligadas à rotatividade nas empresas e à definição de pisos salariais.

(Francine De Lorenzo | Valor)

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