A rigor, a prática nada tem de nova. Remonta, pelo menos, ao Império Romano, embora o formato, evidentemente, tenha mudado ao longo de mais de dois milênios. Nos últimos quatro anos, todavia, o Ceará assistiu à proliferação sem precedentes dos shows financiados pelo poder público como instrumento político.

Ano a ano, eles crescem em quantidade de apresentações e de dinheiro envolvido. Em regra, são sucesso de público. Entre os críticos, entretanto, são invariavelmente controversos.

Um debate que envolve ética, transparência, definição de prioridades, mas, sobretudo, o papel do lazer e do entretenimento como políticas públicas.

No Estado, e em Fortaleza com particular ênfase, os shows ganharam espaço destacado nas ações de governo a partir da segunda metade do primeiro mandato da prefeita Luizianne Lins (PT) e desde o início do primeiro governo Cid Gomes (PSB), por volta de 2007.

O fenômeno não se deu por acaso. Contribuíram dois principais fatores: em 2005, estourou o escândalo conhecido como máfia dos sanguessugas. Era um esquema de fraudes em licitações em prefeituras, envolvendo desvios de emendas parlamentares no Orçamento federal destinadas à compra de ambulâncias.

A partir desse escândalo, o dinheiro que ia para comprar ambulâncias foi redirecionado para outras áreas. Os shows foram um dos filões mais favorecidos.

O crescimento é contínuo. De acordo com o Portal da Transparência, o Ministério do Turismo destinou mais de

R$ 27 milhões a 68 prefeituras cearenses para gastos com eventos festivos em 2009. Em 2010, foram R$ 44,4 milhões só em emendas ao Orçamento apresentadas pela bancada federal para “promoção de eventos para divulgação do turismo interno” no Estado.

 

Os grandes shows públicos foram também impulsionados pela proibição dos showmícios, a partir de 2006.

Sem disposição para abandonar o que sempre se mostrou eficiente instrumento de propaganda, os políticos deslocaram eventos dessa natureza da campanha para as administrações.

“Até a proibição (dos showmícios), as campanhas eram verdadeiros carnavais. Agora, isso é feito mesmo sem eleições”, destaca o professor e pesquisador do laboratório de Análises Políticas da Universidade de Fortaleza (Unifor), Clesio Arruda.

Polêmica

A promoção de espetáculos com dinheiro público é sempre polêmica. A discussão sempre resvala para o questionamento acerca do que deve ser prioridade.

Um dos principais opositores do Governo do Estado, o deputado

estadual Heitor Férrer (PDT) adota posição radical sobre o assunto. “O show só seria saudável se não tivesse gente nas filas dos hospitais”.

O parlamentar aponta ainda que tais eventos se convertem, na verdade, em “palanques eleitorais”. “Só serve para isso mesmo. O que isso acrescenta na vida do cearense no dia seguinte?”, questiona.

Visão que se choca com o pensamento do governador Cid Gomes (PSB) que, citando a música Comida, dos Titãs, argumenta: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”.

Na próximas páginas, a repórter Ranne Almeida mostra as implicações políticas, culturais, e econômicas envolvidas na política de promoção de shows.

ENTENDA A NOTÍCIA

Os eventos pode ser justificados por vários aspectos. Há o inegável componente político, mas também há retorno de investimento pela dinamização da economia. Sem falar no aspecto cultural, talvez o mais relevante de todos.

“Pão e circo”

Caio Otávio Augusto, primeiro imperador de Roma, foi um dos maiores responsáveis por difundir a política que ficou conhecida como “pão e circo” (panis et circensis). Consistia na garantia de comida e entretenimento como pilares de uma política para conter as insatisfações e manter o povo feliz. Além do fornecimento de trigo, Otávio promoveu batalhas de gladiadores e espetáculos teatrais como alguns dos pilares de seu modelo administrativo.

(O Povo Online)

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