Na Fortaleza de 13 anos atrás, não era comum receber notícia de jovem assassinado. Em 1998, foram 162 casos. A cidade tinha outra rotina. Onze anos depois disto, a realidade assusta com 403 mortes registradas. Os homicídios na faixa etária entre 15 e 24 anos cresceram, em média, 114% na capital cearense. 

Trata-se da sexta maior estatística do Nordeste e a nona maior do Brasil, segundo relatório divulgado ontem pelo Ministério da Justiça. O “Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil” foi feito pelo Instituto Sangari e engloba o último ano do segundo governo de Tasso Jereissati (PSDB), três anos e quatro meses da terceira gestão do tucano, os oito meses da administração de Beni Veras (PSDB), toda a Era Lúcio Alcântara (PR) e os dois primeiros anos de Cid Gomes (PSB).

Em 1998, eram 38 óbitos em cada grupo de 100 mil jovens residentes em Fortaleza. Em 2008, o número saltou para 81,6. Aumento consonante com a tendência do Estado e da Região. No Ceará, os homicídios cresceram 102%. Antes, eram 22,5 assassinatos por grupo; em 2008, chegaram a 45,5.

No Nordeste, os homicídios de jovens cresceram 94% em 11 anos. Em 1998, eram 66,4 mortes por grupo de 100 mil. Em 2008, foram 128,9. O máximo aceitável é dez ocorrências por grupo.

Sem restringir idade, o Ceará teve aumento de 79,1% nos crimes. Em 1998, eram 13,4 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que nos dava a 17ª posição no ranking nacional. Em 2008, com 24 casos para cada grupo, ocupamos a 18ª posição.

Ações e teses

Para quem está no governo, o momento é de ajuste de estratégia para conter a onda de violência. O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Werisleik Matias, prevê redução dos índices a partir da próxima edição do Mapa. 

Ele assumiu o posto mês passado. Até então, era comandante do Ronda do Quarteirão. “De 2008 pra cá, estamos numa descendência das mortes de jovens. Vamos trabalhar na repressão, em ações sociais e educacionais”, disse ao O POVO.

Dentro de movimentos sociais, a avaliação é nada animadora. Fala-se em banalização da violência e naturalização com estatísticas tão altas e ocasionadas, principalmente, pela falta de acesso a direitos básicos como educação, saúde, lazer e emprego.

O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), por exemplo, diz que a execução de políticas repressivas não vai solucionar o problema. “Muitas vezes, a sociedade legitima a violência institucional e o jovem, sobretudo o oriundo de classes populares, se torna invisível. Ele só é notado quando aparece como estatística de homicídio ou autor da violência”, critica a assessora jurídica da instituição, Nadja Furtado.

Já para o sociólogo Élcio Batista, o aumento no índice de homicídios é reflexo do avanço do crack, transferência de atividades criminosas do Sul e Sudeste para o Nordeste e fragilidade dos sistemas de segurança da Região.

Em Fortaleza, a questão é específica: a atuação de grupos de extermínio, a disputa por pontos de venda de drogas e o fácil acesso a armas de fogo. “Jovens desempregados e fora da escola também explicam esse crescimento. Se não for feito nada agora, a tendência é o crescimento”, projeta Élcio, que é membro do Laboratório de Estudos da Violência da UFC. (Colaborou Ranne Almeida) 

ENTENDA A NOTÍCIA

É preciso a implementação de políticas públicas de inclusão e emergenciais. Do contrário, cada vez mais jovens terão trajetórias encurtadas. Periferia precisa de atenção especial, pois homens negros estão mais vulneráveis. 

SAIBA MAIS  

No último dia 21, O POVO mostrou que, por dia, quase três adolescentes e jovens foram assassinados no Ceará em 2010. Em todo o ano, foram 1.013 mortes, média de 2,7/dia. Os crimes avançam entre garotos de 12 a 17 anos. 

O Instituto Sangari existe há sete anos. No seu site oficial, diz que promove a difusão científico-cultural por meio de exposições, publicações e projetos de popularização da ciência, realizado com parceiros do Brasil e do exterior. Já realizou ações que envolveram cerca de um milhão de crianças e jovens.  

(Bruno de Castro – O Povo Online)

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