Por Cristine Pires

A área de franchising deverá fechar 2011 com um crescimento de 15%. A estimativa é da Associação Brasileira de Franchising (ABF), que tem comemorado uma expansão forte do setor nos últimos seis anos do setor no Brasil. “São crescimentos de dois dígitos por ano”, aponta o presidente da ABF, Ricardo Bomeny, um entusiasta quanto à potencialidade do segmento, que faz do Brasil o quarto mercado mundial de franchising. A expectativa é que o ano traga novas oportunidades, estimuladas pela nova classe média. Negócios têm surgido para conquistar os consumidores que entram no mercado, caso das microfranquias, cujos investimentos vão de R$ 15 mil a R$ 50 mil e acabam criando também uma nova categoria de empreendedores.

JC Empresas & Negócios – O que faz do Brasil hoje o quarto mercado mundial de franchising?

Ricardo Bomeny – O País tem se desenvolvido bastante nesse setor, vemos uma expansão muito forte, principalmente nos últimos cinco, seis anos. São crescimentos de dois dígitos por ano e em 2011 não será diferente, prevemos 15% de incremento. Aconteceram também algumas coisas que ajudaram esse setor, como a própria maturação das redes existentes e a entrada de empresas internacionais que ajudaram a dinamizar e organizar esse setor, mas, sobretudo, a questão do regime tributário simples ajudou muito o pequeno empresário a empreender com uma marca que já tinha sucesso no mercado. Um outro efeito tão importante quanto esse, mas mais recente, é a questão do crédito, financiamento para franchising, que começou também há alguns anos. Há 10 anos não existia crédito no País; o que havia era muito caro e concedido apenas para as empresas grandes. Esse cenário mudou um pouco.

Empresas & Negócios – Há parcerias específicas para isso?

Bomeny – Começamos com parcerias com bancos federais, como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, entre outros. Depois veio o cartão Bndes, que ajudou muito, ficando mais simples de se conseguir um financiamento e funcionando realmente como um cartão de crédito. Então passamos a fazer parcerias com bancos privados. O Bradesco foi o primeiro. Agora temos o HSBC e vários outros. Então, tudo isso ajudou o franchising. Primeiro esses créditos foram avaliados nos franqueadores para estabelecer uma espécie de acordo “guarda-chuva”, ou seja, o franqueador junto ao banco determina as condições que depois são repassadas ao franqueado. O regime de tributação e o crédito estão ajudando muito a desenvolver o setor. Fora isso, a própria organização do setor apoiado pela ABF, que proporciona cada vez mais capacitação para o setor, cursos, eventos, feiras, convenções empresariais, tem ajudado a ter uma inclusão maior de interessados e empresários já existentes no Brasil para entrar nesse setor.

Empresas & Negócios – Dos 90 mil pontos de venda franquiados que existem no País, menos de 4 mil estão no Rio Grande do Sul. Por que o Estado ainda não está engajado?

Bomeny – Em primeiro lugar, enxergamos isso como uma grande oportunidade. A economia gaúcha é fortíssima, tem um PIB bastante representativo. O Rio Grande do Sul é um estado um pouco mais fechado, a gente percebe isso pela própria característica do empresariado local, mas isso está se revertendo. Tínhamos poucas unidades franqueadoras, poucos associados, talvez precisasse fazer um trabalho para despertar e estimular um pouco no empresariado local.

Empresas & Negócios – Quando o senhor fala em estado mais fechado, o senhor se refere à questão do bairrismo e episódios como a saída das Casas Bahia do Rio Grande do Sul?

Bomeny – Tem um pouco a ver com isso também, mas eu diria que tem mais a ver com essa questão de despertar o interesse do empresário local para o franchising, e isso conseguimos fazer principalmente no último ano através de uma iniciativa que a ABF teve de nomear um diretor regional para o Rio Grande do Sul. Agora temos o Gustavo Schifino (diretor das lojas Trópico Surf e diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas) como diretor regional da ABF no Rio Grande do Sul e, a partir dessas iniciativas, começamos a congregar o empresariado para olhar mais para o franchising.

Empresas & Negócios – As classes C e D estimularam o surgimento de novos tipos de negócio no franchising?

Bomeny – A classe que mais cresceu foi a D, embora a C também tenha tido um incremento importante. Para o franchising, existem alguns efeitos. O primeiro é que, com este aumento de consumo, as redes também começaram a pensar em se desenvolver mais rápido. Algumas outras redes começaram a perceber que elas poderiam ter produtos ou marcas dirigidas para uma nova categoria de consumo que estava começando a existir, de uma classe que não consumia antes. Então, falamos aqui de crescimento orgânico mais acelerado e de surgimento de novas marcas. Existe também um efeito que é o surgimento das microfranquias, que têm investimentos de até R$ 50 mil. Muitas delas exigem um capital baixo, de apenas R$ 15 mil, o que possibilita uma grande inclusão de pessoas que talvez não tivessem a oportunidade de ter acesso a crédito para fazer um investimento maior e estão vindo para esse novo segmento.

Empresas & Negócios – Sobre a questão do franchising no mercado de capitais, já existem várias empresas franqueadoras na bolsa. Esse processo tem sido importante para o setor?

Bomeny – Esse é um efeito que tem acontecido. A bolsa brasileira se modificou muito nos últimos anos. Anteriormente existia uma enorme dificuldade de entrar pelo porte, pelo tamanho da empresa. Isso se abriu e vai se abrir cada vez mais, ou seja, a tendência no futuro é que as empresas de menor porte possam usar o mercado de capitais para se financiar e para se expandir. Mas a gente teve um tropeço aí em 2008, porque tinham muitas empresas na fila para fazer o IPO para poder abrir o capital e retrocederam um pouquinho em função da crise econômica mundial. Agora estamos sentindo um movimento de retorno que está conjugado também com todo o momento que vivemos aqui no Brasil nos últimos anos, de fusões e aquisições. Ou seja, você teve uma consolidação em diversos setores, a gente viu isso acontecer no setor de shopping centers, no de construção civil com as empresas se juntando e abrindo capital, e no franchising também vê, já que de alguns anos para cá houve um movimento de fusão e aquisição com o objetivo, em alguns casos, de abrir capital na bolsa, que é uma das formas de financiar ou criar liquidez na empresa, mas não é a única.

Empresas & Negócios – Isso tem sido mais importante no setor de franchising?

Bomeny – Não diria que existem um ou dois setores específicos fazendo isso. Acredito que, para tomar uma decisão como essa, precisa haver primeiro uma consolidação. É preciso ter um pouco mais de porte para valer a pena fazer abertura de capital e depois tem que estar sujeito a toda uma regra bastante rigorosa do mercado de capitais. E, para isso, você tem que ter uma estrutura de apoio preparada também para lidar com essa governança.

(Jornal do Comércio – RS)