Brasília – A Costa do Marfim entrou em 2011 sob a ameaça de uma intervenção militar dos países da CEDEAO, que reivindicam o «uso legítimo da força» para obrigar o Presidente cessante, Laurent Gbagbo, a ceder o lugar ao Presidente eleito Alassane Ouattara, reconhecido por todas as instâncias da comunidade internacional.

Se há uma coisa clara no meio da confusão instalada é que a esmagadora maioria dos habitantes da Costa do Marfim quer evitar a todo o custo o regresso da guerra civil.

Mostraram isso indo votar em massa nas duas voltas da eleição, a 31 de Outubro e 28 de Novembro. Continuam a dizê-lo, todos os dias, fazendo ouvidos moucos tanto aos apelos de Ouattara à «desobediência civil» como aos convites dos «patriotas» para combater as «tropas estrangeiras», instrumento da «conspiração internacional neo-colonialista».

Mais de 20 mil marfinenses abandonaram o país para se refugiar na vizinha Libéria e os outros procuram viver com a normalidade possível estes dias conturbados, em que é difícil encontrar alimentos. Mesmo os assassínios e actos de tortura perpetrados pela calada da noite pelos «esquadrões da morte» parecem abrandar: enquanto entre 21 e 26 de Dezembro as Nações Unidas contabilizaram 173 mortos, na maioria apoiantes de Ouattara, a última semana do ano só acrescentou meia dúzia de vítimas ao balanço.

A acalmia pode ser enganadora e muitos, entre a sociedade civil e os observadores estrangeiros, estimam que o perigo de um banho de sangue, ou mesmo de um genocídio, não deve ser minimizado. Mas o certo é que os dois protagonistas, Gbagbo e Ouattara, parecem dispostos a aguardar que a situação se resolva sem confronto, talvez porque têm consciência de que a opinião pública não perdoará ao responsável por atear o fogo ao barril de pólvora.

Gbagbo joga a carta do cansaço e do apodrecimento da situação, limitando-se a controlar ferreamente os meios de comunicação para impor como verdade absoluta a sua versão dos factos, inquestionável sob pena de alta traição.

Ouattara conta com o apoio (quase) unânime dos seus pares africanos e das organizações regionais e sub-regionais para impedir o seu rival de fazer funcionar a máquina do Estado, a começar pelo pagamento dos funcionários e militares, dado que só a sua assinatura é agora válida para mexer nas contas da Costa do Marfim junto do Banco Central da União Monetária da África Ocidental (com sede em Dacar).

A jornalista Nicole Guardiola assina o artigo sobre a situação na Costa do Marfim. Para ler na íntegra na edição de Janeiro da revista África21.

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