O então secretário da Segurança Pública do Ceará, Roberto Monteiro, não escondeu o constrangimento depois de ter sido provocado pelo O POVO, no último dia 23, a dar explicações sobre um episódio de desmando e omissão na Secretaria. Um ano após ter enviado ofício cobrando providências ao coronel William Alves Rocha, na época comandante da PM e seu subordinado, nenhum trabalho de inteligência havia sido deflagrado entre as polícias Militar e Civil para combater a máfia da pirataria de CDs/DVDs e a ação miliciana de um tenente no Centro de Fortaleza.

 O tenente da PM, segundo escrevera o próprio Roberto Monteiro, “se dedica ao lucrativo afazer de extorquir e vender proteção a comerciantes e vendedores de CDs e DVDs piratas”. Na informação enviada ao comandante da PM, através do ofício 179/2010 do dia 25/1/2010, o secretário aponta nome e apelido do oficial que vem atuando ilegalmente desde 2007.

O agravante: revoltados com a intensificação da fiscalização da Prefeitura de Fortaleza, os que se beneficiam com a venda de CDs e DVDs falsificados estariam ameaçando de morte a secretária Executiva da Regional do Centro de Fortaleza – Luíza Perdigão.

Em uma das ações da milícia do tenente, descrita pessoalmente por Luíza Perdigão ao secretário e detalhada em um ofício classificado como “urgente”, a secretária denuncia que o oficial da PM havia enxotado uma equipe de guardas municipais que fazia a vigilância de uma fábrica clandestina de CDs e DVDs. Horas antes, o local havia sido lacrado por fiscais da Prefeitura para ser periciado no dia seguinte.

A interdição da indústria ilegal, instalada no local conhecido por Buraco da Jia, em um prédio vizinho ao Paço Municipal, havia acontecido no fim da tarde do dia 16 de setembro do ano passado. Mas, na madrugada, por volta de 1h30min, como descreve o ofício 326/2010 da Secretaria do Centro, irrompeu no local o tenente da PM e “cerca de 15 homens fortemente armados com armas de grosso calibre e chegando a deflagrar tiros para o alto”. Todo o bando sem capuz ou qualquer disfarce.

Avisado da presença “ameaçadora” da milícia na fábrica clandestina, o subcomandante da Guarda Municipal ligou para a Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops) pedindo reforço da Polícia Militar. Ignorados pelo comando da Ciops e temendo morrer, segundo Luíza Perdigão, os guardas foram obrigados a sair.

Com a expulsão dos funcionários da Prefeitura e a “omissão da polícia”, segundo relata o documento assinado por Luiza Perdigão, “os comparsas do policial militar” invadiram a fábrica clandestina. De lá, resgataram milhares de CDs e DVDs piratas e levaram as máquinas usadas para a produção ilícita. “Já denunciei este e outros fatos à secretaria (SSPDS), a delegados, coronéis e não vejo resultados”, desabafa Perdigão.

O POVO opta por não divulgar o nome do tenente que “vende proteção” à máfia da pirataria de CDs e DVDs, por não haver inquérito policial que o tenha indiciado pela prática. O nome e o apelido do oficial da PM são do conhecimento do comando da PM, Superintendência da Polícia Civil e Corregedoria dos Órgãos da Segurança. Documentos enviados por Luíza Perdigão denunciam ainda um sargento.
ENTENDA A NOTÍCIA
Ficou para o coronel José Bezerra, novo secretário da Segurança do Ceará, orientar ao comandante da PM e ao superintendente da Polícia Civil como executar de maneira integrada um trabalho de inteligência para prender fabricantes de CDs e DVDs piratas e policiais que vendem proteção a eles.

O TENENTE NO CENTRO DE FORTALEZA

Segundo a secretária da Regional do Centro, Luiza Perdigão, o tenente tentou ser recebido por ela em pelo menos duas ocasiões. Ele queria convencê-la a liberar um carregamento de CDs e DVDs piratas apreendidos por fiscais da Prefeitura.

Não atendido, o tenente deixou na Secretaria um cartão de apresentação onde se lê: o nome “Polícia Militar do Ceará” com o brasão da PM; a patente dele (“Tenente PM”); apelido e nome. Mais curioso: além de informar que é tenente , também informa que é “Bacharel em Segurança Pública”.

Na área em que a milícia do tenente “vende proteção” aos comerciantes de CDs e DVDs piratas, há seis equipamentos da Secretaria da Segurança Pública do Ceará. No Centro de Fortaleza estão localizados o 34º DP (Princesa Isabel), a Delegacia de Defraudações e a Superintendência da Polícia Civil, as duas últimas localizadas na rua do Rosário.

Na mesma zona: os quartéis do 5º Batalhão da PM e o Batalhão de Polícia de Choque, ambos na rua Antonio Pompeu.

O POVO enviou ofício, na segunda-feira (10), pedindo esclarecimentos sobre o caso do tenente à Corregedoria da Segurança Pública. Das denúncias que enviou pra lá, Roberto Monteiro não recebeu respostas conclusivas sobre a apuração até 23/12/2010.

(O Povo Online)