Estados Unidos - Um grupo de recém-nascidos em 1º de setembro de 2010 descansa no Hospital Winnie Palmer, em Orlando, a segunda maternidade mais movimentada do país.

Certo dia no outono de 1677 na cidade holandesa de Delft, Antoni van Leeuwenhoek, um mercador de tecidos que se supõe ter servido de modelo para dois quadros de Johannes Vermeer – O Astrônomo e O Geógrafo -, saiu da cama, interrompendo de repente o que estava fazendo com sua mulher, e correu para a mesa de trabalho. Os tecidos permitiam a Leeuwenhoek ganhar a vida, mas o que o fascinava mesmo era a microscopia.

Leeuwenhoek possuía uma lupa minúscula e poderosa, feita por ele mesmo. Na Real Sociedade de Londres, sábios ainda estavam tentando comprovar a alegação anterior de Leeuwenhoek, segundo o qual havia milhões de “animálculos” invisíveis em uma única gota d’água de um lago e até mesmo no vinho francês. Agora ele tinha algo mais constrangedor a relatar: o sêmen humano também estava repleto daqueles animálculos. “Às vezes mais de um milhar”, escreveu, “em uma quantidade pequena de material como um grão de areia.” O holandês observou seus próprios animálculos nadando de um lado para outro, impulsionados por sua longa cauda.

Depois disso, Leeuwenhoek ficou obcecado. Embora a lupa lhe proporcionasse acesso privilegiado a um universo infinitesimal jamais visto, ele dedicou um tempo descomunal a examinar os animálculos hoje conhecidos como espermatozoides. E, curiosamente, foi o líquido seminal que extraiu de um bacalhau que o inspirou, quase por acaso, a tentar calcular a quantidade máxima de pessoas que poderiam viver na Terra.

Ninguém na época tinha a menor ideia, pois os censos eram raros. Leeuwenhoek, então, partiu da estimativa de que cerca de 1 milhão de pessoas viviam na Holanda. Recorrendo a mapas e noções de geometria esférica, ele calculou que a área terrestre habitada do planeta era 13 385 vezes maior que a da Holanda. Era difícil imaginar o planeta todo mais densamente povoado que o próprio país, que na época já parecia bastante apinhado. Portanto, sua conclusão triunfante foi a de que a Terra não poderia abrigar mais que 13 385 bilhões de pessoas – número até que pequeno se comparado às 150 bilhões de células espermáticas presentes em um único bacalhau! Esses cálculos singelos e otimistas, segundo o biólogo Joel Cohen, no livro How Many People Can the Earth Support? (“Quantas pessoas a Terra pode sustentar?”, não lançado no Brasil), foram a primeira tentativa de se dar uma resposta quantitativa a uma questão que se tornou hoje bem mais urgente do que era no século 17. No entanto, a maioria das respostas atuais está longe de ser otimista.

De acordo com as estimativas mais recentes dos historiadores, na época de Leeuwenhoek havia apenas cerca de meio bilhão de seres humanos no mundo. Após crescer bem devagar durante milênios, esse número estava começando a ganhar impulso. Um século e meio depois, quando outro cientista comunicou a descoberta dos óvulos humanos, a população mundial tinha dobrado e ultrapassado a marca de 1 bilhão. Um século depois disso, por volta de 1930, ela havia dobrado mais uma vez, agora para 2 bilhões. Desde então a aceleração do crescimento demográfico foi assombrosa. Antes do século 20, nenhum ser humano tinha vivido o suficiente para testemunhar uma duplicação da população mundial, mas hoje há pessoas que a viram triplicar. Em algum momento no fim de 2011, segundo a Divisão de População das Nações Unidas, seremos 7 bilhões de pessoas.

Embora seu ritmo esteja diminuindo, essa explosão demográfica está longe de terminar. As pessoas passaram a viver mais tempo e há tantas mulheres ao redor do mundo em idade de procriar – 1,8 bilhão – que a população global ainda vai continuar crescendo pelo menos durante algumas décadas, mesmo que cada mulher tenha menos filhos que na geração anterior. Até 2050, o total de seres humanos no planeta pode chegar a 10,5 bilhões ou então se estabilizar por volta dos 8 bilhões – a diferença é de cerca de um filho para cada mulher. Os demógrafos da ONU consideram mais provável a estimativa média: eles estão projetando uma população mundial de 9 bilhões antes de 2050 – em 2045. O resultado final dependerá das escolhas feitas pelo casal quando realizar o mais íntimo dos atos humanos – aquele que, em prol da ciência, Leeuwenhoek interrompeu com tanto descaso.

Com a população mundial a aumentar ao ritmo de cerca de 80 milhões de pessoas por ano, é difícil não ficar alarmado. Em toda a Terra, os lençóis freáticos estão cedendo, os solos ficando cada vez mais erodidos, as geleiras derretendo e os estoques de pescado prestes a ser esgotados. Quase 1 bilhão de pessoas passam fome todo o dia. Daqui a algumas décadas, haverá mais 2 bilhões de bocas a ser alimentadas, a maioria em países pobres. E bilhões de outras pessoas lutarão para sair da miséria. Se seguirem pelo caminho percorrido pelas nações desenvolvidas – desmatando florestas, queimando carvão e petróleo, usando fertilizantes e pesticidas com abundância -, vai ser enorme o impacto sobre os recursos naturais do planeta. Como podemos conciliar tudo isso?

Talvez seja reconfortante saber que há muito o crescimento demográfico é motivo de preocupação. Desde o início, diz o francês Hervé Le Bras, a demografia esteve impregnada de discussões apocalípticas. Alguns dos textos fundamentais da disciplina foram escritos por sir William Petty, um dos fundadores da Real Sociedade de Londres. Segundo Petty, a população mundial duplicaria seis vezes até o Juízo Final, que se esperava ocorreria daqui a 2 mil anos. Naquela altura, a população superaria os 20 bilhões – ultrapassando a capacidade de produção de alimentos do planeta. “E então, de acordo com a previsão das Escrituras, devem ocorrer guerras e grandes matanças”, escreveu ele.

Com o recuo das previsões religiosas do fim do mundo, argumenta Le Bras, o próprio crescimento demográfico proporcionou outro mecanismo apocalíptico. “Ele cristalizou o temor ancestral, e talvez a esperança ancestral, do fim dos tempos”, escreveu ele. Em 1798, o clérigo e economista inglês Thomas Malthus expôs seu princípio geral da população, afirmando que ela necessariamente aumenta com maior rapidez que a produção de alimentos até um ponto em que ocorrem guerras, doenças e fome, reduzindo assim a quantidade de gente. Na realidade, os últimos flagelos de escala grande o suficiente para reduzir a população global já haviam ocorrido bem antes de Malthus publicar seu ensaio. A população mundial não havia caído, segundo os historiadores, desde a peste negra do século 14.

Nos dois séculos posteriores à afirmação de Malthus de que a população não poderia continuar crescendo, foi exatamente isso o que ocorreu. O processo começou nos países hoje chamados de desenvolvidos. A difusão de plantas do Novo Mundo como milho e batata, assim como a descoberta dos fertilizantes químicos, baniu a fome da Europa. A partir do século 19, os esgotos passaram a canalizar os dejetos humanos para longe da água potável, que em seguida foi filtrada e clorada, e isso provocou uma redução dramática na disseminação de cólera e tifo.

Em 1798, no mesmo ano em que Malthus publicou seu ensaio pessimista, o inglês Edward Jenner anunciou a descoberta de uma vacina contra a varíola – a primeira de uma série de vacinas e antibióticos que, em conjunto com melhorias na nutrição e no saneamento, acabariam dobrando a expectativa de vida nos países que se industrializavam, de 35 para os 77 anos atuais. “O desenvolvimento da ciência médica foi a gota que entornou o caldo”, escreveu em 1968 o biólogo e especialista em demografia Paul R. Ehrlich.

O livro que Ehrlich publicou, The Population Bomb (“A bomba demográfica”, não disponível em português), fez dele o mais famoso dos malthusianos modernos. Nos anos 1970, ele previu que “centenas de milhões de pessoas morrerão de fome”, e que era tarde demais para se fazer algo. “O câncer do crescimento demográfico […] precisa ser extirpado”, escreveu, “e de maneira compulsória, caso fracassem os métodos voluntários.” O próprio futuro dos Estados Unidos estava em perigo. Apesar desse tom, ou talvez por causa dele, o livro virou um best-seller, tal como ocorrera com o ensaio de Malthus. Mas também dessa vez a bomba não explodiu. Na época já estava em curso a chamada revolução verde, uma combinação de sementes melhoradas, irrigação, pesticidas e fertilizantes que permitiu duplicar a produção mundial de cereais. Hoje ainda há muita gente desnutrida, mas é rara a fome em escala maciça.

Todavia, Ehrlich tinha razão ao dizer que os avanços na medicina acabariam por levar a um surto demográfico. Depois da Segunda Guerra Mundial, os países em desenvolvimento receberam súbita transfusão de cuidados preventivos, graças a iniciativas de instituições como a Organização Mundial de Saúde e a Unicef. A penicilina, a vacina contra a varíola e o DDT (que, embora controverso mais tarde, evitou que milhões de pessoas morressem de malária) surgiram ao mesmo tempo. Na Índia, a expectativa de vida saltou de 38 anos em 1952 para 64 atualmente; na China, de 41 para 73 anos. Milhões de pessoas nos países em desenvolvimento que não teriam passado da infância sobreviveram e puderam ter filhos. Este é o motivo pelo qual houve um surto demográfico em todo o planeta: porque se evitou a morte de uma enorme quantidade de pessoas. E também porque, por um tempo, as mulheres continuaram a ter muitos filhos. Na Europa do século 18 e na Ásia do início do século 20, quando tinha em média seis filhos, uma mulher estava fazendo o que era natural, pois a maioria dos filhos jamais chegava à idade adulta. Com a redução da mortalidade infantil, os casais passaram a ter menos filhos – mas essa transição em geral leva pelo menos uma geração. Atualmente, nos países desenvolvidos, a média de 2,1 filhos por mulher manteria a população constante; no mundo em desenvolvimento, esse nível de fertilidade de “reposição” é um pouco mais alto. A explosão demográfica ocorre nesse intervalo necessário para que a taxa de natalidade alcance novo equilíbrio com a taxa de mortalidade.


O fenômeno é chamado pelos demógrafos de “transição demográfica”. Chega um momento em que todos os países passam por isso. É um dos sinais do progresso: em um país que completou a transição, as pessoas retomam da natureza pelo menos algum controle sobre a morte e o nascimento. A explosão da população é um efeito colateral inevitável. No entanto, a taxa de crescimento estava no ápice bem na época em que Ehrlich soou o alarme. No início dos anos 1970, as taxas de fecundidade em todo o mundo haviam começado a despencar – com maior rapidez que o previsto. Desde então, a taxa de crescimento da população já caiu mais de 40%.

Esse declínio da fertilidade que hoje vigora em todo o planeta teve início em épocas distintas conforme o país. A França foi uma das primeiras. Até o começo do século 18, as mulheres nobres na corte francesa desfrutavam dos prazeres carnais e nunca tinham mais de dois filhos. Para isso, recorriam ao mesmo método anticoncepcional usado por Leeuwenhoek para realizar seus estudos: a interrupção do coito. A inovacão crucial era de natureza conceitual, e não anticoncepcional, como diz Gilles Pison, do Instituto Nacional de Estudos Demográficos em Paris. Até a época do Iluminismo, “a quantidade de crianças que se tinha era algo que estava nas mãos de Deus. As pessoas não se davam conta de que poderiam tomar as rédeas”.

Outras nações ocidentais acabaram seguindo o caminho da França. Por volta da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a fertilidade havia declinado quase ao nível de reposição em partes da Europa e nos Estados Unidos. Em seguida ao conflito, passado o inesperado pico conhecido como “baby boom” (1946-1958), a queda foi retomada, surpreendendo de novo os demógrafos. Eles tinham como pressuposto que algum instinto faria com que as mulheres continuassem a ter filhos em número suficiente para assegurar a sobrevivência da espécie. Em vez disso, em um país desenvolvido após outro, a taxa de fecundidade caiu abaixo do nível de reposição. No fim dos anos 1990, na Europa, chegou a apenas 1,4 filho por mulher.

O fim do baby boom costuma ter dois efeitos importantes na economia de um país. O primeiro é o “dividendo demográfico” – algumas poucas décadas afortunadas durante as quais os membros dessa geração inflam a força de trabalho, ao mesmo tempo que se mantém baixa a quantidade de dependentes jovens e idosos; em consequência, sobra mais dinheiro para outros gastos. Mas em seguida vem o segundo efeito, quando todos esses trabalhadores envelhecem e começam a se aposentar. O que antes parecia uma situação demográfica perene agora virou uma festa prestes a acabar. Um problema se apresenta hoje a todo o mundo desenvolvido: o de achar meios para sustentar uma população cada vez mais idosa. “Em 2050 vai haver trabalhadores em quantidade suficiente para assegurar o pagamento das pensões?”, indaga Frans Willekens, do Instituto Demográfico Interdisciplinar dos Países Baixos. “A resposta é simples: não.”

Nos países industrializados foram necessárias gerações para que a fertilidade caísse ao nível de reposição ou mesmo ficasse abaixo dele. Agora que essa transição está ocorrendo no resto do mundo, os demógrafos assombram-se com a rapidez do processo. Embora sua população continue a crescer, a China, que abriga um quinto de todos os seres humanos, apresenta uma taxa abaixo do nível de reposição, e isso vem se registrando há quase duas décadas, graças em parte à política compulsória de um filho por casal, implementada em 1979. As mulheres chinesas, que costumavam ter em média seis filhos até uma data tão recente quanto 1965, agora têm em torno de 1,5. No Irã, com apoio do regime islâmico, a fertilidade despencou mais de 70% desde a década de 1980. No Brasil democrático e católico, as mulheres reduziram a taxa de fecundidade pela metade nesse mesmo quarto de século. “Ainda não sabemos por que a fertilidade caiu tão rapidamente em tantas sociedades, com as mais diversas culturas e religiões. É algo que nos deixa perplexos”, diz Hania Zlotnik, diretora da Divisão de População das Nações Unidas.

“Neste momento, por mais que quisesse dizer que ainda há um problema de taxas altas de fecundidade, o fato é que isso afeta apenas 16% da população mundial, sobretudo na África”, diz Hania. Ao sul do Saara, a fertilidade média ainda é de cinco filhos por mulher; no Níger, chega a sete. Por outro lado, 17 dos países nessa região ainda convivem com uma esperança de vida de 50 anos ou menos – ou seja, estão apenas começando a transição demográfica. Na maior parte do mundo, porém, o tamanho das famílias diminuiu de maneira dramática. A ONU estima que o planeta alcançará a taxa de fecundidade mínima de reposição até 2030. “A população como um todo está no rumo de uma não explosão – e essa é uma notícia boa”, diz Hania.

A notícia ruim é que faltam duas décadas até 2030, quando a maior geração de adolescentes da história estará entrando no período de procriação. Mesmo se cada uma dessas mulheres tiver apenas dois filhos, a população continuará aumentando, impelida por sua inércia, durante ainda outro quarto de século. Quase uma em cada seis dessas pessoas estará vivendo na Índia.


Fazia tempo que eu entendia, em termos intelectuais, a explosão demográfica. Porém, em termos emocionais, isso ficou claro para mim numa noite quente em Délhi alguns anos atrás… A temperatura estava em torno de 40 graus, e o ar era uma névoa de poeira e fumaça. As ruas fervilhavam de gente. Pessoas comendo, pessoas se lavando, pessoas dormindo. Pessoas fazendo visitas, discutindo e gritando. Pessoas enfiando as mãos pela janela do táxi pedindo esmola. Pessoas defecando e urinando. Pessoas penduradas nos ônibus. Pessoas conduzindo animais. Pessoas, pessoas, pessoas, pessoas. – Paul Ehrlich

Em 1966, quando Ehrlich fez esse percurso de táxi, havia em torno de meio bilhão de indianos. Hoje a Índia conta com 1,2 bilhão de habitantes. A população de Délhi aumentou de maneira ainda mais acelerada, para cerca de 22 milhões, à medida que muitos abandonaram seus povoados e vilarejos para viver nas imensas favelas da cidade. No início de junho do ano passado, em meio ao calor absurdo de Délhi, a monção de verão ainda não chegara para limpar o pó dos canteiros de obras que se somava à poeira trazida dos desertos do Rajastão. Nas novas vias expressas da cidade sem planejamento, carros de boi seguiam na contramão. Famílias de quatro pessoas circulavam em motos, os lenços das mulheres esvoaçando, bebês pendurados em seus braços. No tráfego, inválidos e crianças emaciadas pediam esmolas aos gritos. A Délhi atual é diferente daquela visitada por Ehrlich, mas também é parecida.

No Hospital Lok Nayak, na parte antiga de Délhi, uma maré humana passa pelo portão de entrada todas as manhãs. “Quem, ao ver isso, não ficaria preocupado com a população da Índia?”, pergunta em uma tarde o cirurgião Chandan Bortamuly enquanto abre caminho para a sua clínica de vasectomia. Bortalumy entra na pequena sala de operações, onde dois homens estão deitados nas mesas, seus testículos expostos através de buracos nos lençóis verdes. Um ventilador no teto faz circular o ar frio lançado por duas unidades de ar-condicionado no quarto.

Bortamuly está na linha de frente de uma batalha que vem sendo travada na Índia há quase seis décadas. Em 1952, apenas cinco anos depois de ter se tornado independente da Grã-Bretanha, a Índia foi o primeiro país a adotar uma política de controle da população. Desde então, o governo estabeleceu repetidas vezes metas ambiciosas – e repetidas vezes fracassou na hora de alcançá-las. Em 2000, uma iniciativa nacional previa que o país alcançaria a taxa de reposição de 2,1 em 2010. No entanto, será preciso esperar pelo menos mais uma década para isso acontecer. De acordo com a projeção média da ONU, a população da Índia vai aumentar para mais de 1,6 bilhão até 2050. “É inevitável que a demografia indiana supere a da China até 2030”, diz A.R. Nanda, ex-responsável pela organização não governamental Fundação População da Índia. “Só uma imensa catástrofe, nuclear ou de outro tipo, poderia mudar isso.”

A esterilização é a principal forma de controle de natalidade na Índia, e a maioria das operações é realizada em mulheres. O governo vem se empenhando para mudar isso; uma vasectomia sem bisturi é bem mais barata e fácil de ser realizada no homem que uma ligadura de trompas na mulher. “Eles dizem que a picada da agulha é como a de uma formiga”, diz Bortamuly quando um paciente se retrai ao receber o anestésico local. “Depois disso, é um procedimento indolor e sem sangramento.” Com a ponta do fórceps, Bortalumy abre um pequeno orifício na pele do escroto e puxa para fora uma alça do canal que conduz o esperma do testículo direito do paciente. Em seguida, ele amarra as pontas da alça com um fio preto fino, corta as pontas e as empurra de volta para debaixo da pele. Em menos de sete minutos – o tempo foi cronometrado por uma enfermeira – o paciente vai embora. Ele terá direito a receber do governo uma taxa de incentivo no valor de 1 100 rúpias (uns 25 dólares), o equivalente ao salário semanal de um trabalhador.

Na década de 1970, auge da preocupação com a bomba demográfica, o governo indiano fez outra tentativa de promover a vasectomia. A primeira-ministra Indira Gandhi e seu filho Sanjay usaram os poderes associados ao estado de emergência para obter um aumento nas esterilizações. De 1976 a 1977, a quantidade de operações triplicou, chegando a mais de 8 milhões, das quais mais de 6 milhões eram vasectomias. Os funcionários encarregados do planejamento familiar eram pressionados a cumprir cotas; ser esterilizada passou a ser um requisito para a pessoa ter acesso a novas moradias ou outros benefícios governamentais. Em outros casos, a polícia simplesmente arrebanhava os mais pobres e os conduzia a centros improvisados de esterilização.

Esses excessos prejudicaram toda a ideia de planejamento familiar. “Governos sucessivos se recusaram a tratar dessa questão”, comenta Shailaja Chandra, ex-diretora do Fundo Nacional de Estabilização da População (NPSF, na sigla em inglês). Mesmo assim, a fertilidade na Índia acabou declinando, embora não com a mesma rapidez da China, onde ela estava despencando mesmo antes da implantação da rigorosa política de filho único. A atual média nacional na Índia é de 2,6 filhos por mulher, menos da metade na época em que Ehrlich visitou o país. A região sul do país e alguns estados setentrionais já alcançaram ou estão abaixo da taxa de reposição.

Em Kerala, no sudoeste, os investimentos em saúde e educação fizeram com que a taxa de fecundidade caísse para 1,7. O crucial, segundo os demógrafos locais, é a taxa de alfabetização das mulheres, por volta de 90% – sem dúvida, a mais alta da Índia. As jovens que frequentam a escola começam a ter filhos mais tarde que as outras. Também são mais receptivas a métodos contraceptivos e mais informadas de suas opções.

Até agora, essa abordagem, apresentada como modelo para o resto do mundo, não se difundiu nos estados pobres do norte da Índia – o chamado cinturão hindu, que corta o país de um lado a outro logo ao sul de Délhi. Quase metade do crescimento demográfico do país está concentrado nos estados do Rajastão, Madhya Pradesh, Bihar e Uttar Pradesh, em que as taxas de fecundidade ainda variam de três a quatro filhos por mulher. A maioria delas nesse cinturão é analfabeta, e muitas se casam bem antes da idade legal de 18 anos. A maternidade confere prestígio social – e em geral as mulheres não descansam enquanto não têm pelo menos um filho.

Como alternativa ao modelo de Kerala, há quem mencione o estado meridional de Andhra Pradesh, onde “centros” de esterilização foram instalados na década de 1970 e cujos níveis de esterilização permaneceram elevados, pois tais clínicas improvisadas foram sendo substituídas por hospitais. Em uma única década desde o início do anos 1990, houve uma queda na taxa de fecundidade de três para menos de dois filhos por mulher. Ao contrário de Kerala, metade das mulheres em Andhra Pradesh é analfabeta.

Para Amarjit Singh, o atual diretor executivo do NPSF, se os quatro maiores estados do cinturão hindu tivessem adotado o modelo de Andhra Pradesh, eles teriam evitado 40 milhões de nascimentos – e também muito sofrimento. “Desses 40 milhões de crianças, 2,5 milhões morreram na infância”, diz Singh. Ele está convencido de que, se toda a Índia adotasse programas de esterilização de qualidade, o país chegaria a 2050 com 1,4 bilhão de habitantes, em vez de 1,6 bilhão.

Por ouro lado, os críticos do modelo de Andhra Pradesh, como A.R. Nanda, acreditam que os indianos precisam mesmo é de um sistema de saúde melhor, sobretudo nas áreas rurais. Eles se opõem às metas quantitativas que forçam os órgãos públicos a esterilizar as pessoas ou aos incentivos em dinheiro que distorcem o modo como os casais escolhem o tamanho da família.

Hoje, nas cidades indianas, muitos casais estão fazendo a mesma escolha que seus equivalentes na Europa ou nos Estados Unidos. Sonalde Desai, do Conselho Nacional de Pesquisa Econômica Aplicada de Nova Délhi, me apresenta a cinco mulheres trabalhadoras que destinam a maior parte de seus salários ao pagamento de mensalidades de escolas particulares. Todas têm um ou dois filhos e não pensam em ter outros. Em um levantamento abrangendo 41 554 lares, a equipe de Sonalde identificou uma crescente vanguarda de famílias urbanas com um único filho. “Ficamos bastante surpresos com a importância que os pais dão aos filhos”, diz ela. “É por isso que a fecundidade está em declínio.”

Já nas zonas rurais não é bem assim. Acompanho a equipe de Sonalde a Palanpur, um vilarejo em Uttar Pradesh – um estado no cinturão hindu cuja população é equivalente à do Brasil. No povoado, observamos uma torre de telefonia celular mas também riachos de esgoto correndo pelas vielas entre casebres. À sombra de uma mangueira, o guardião do pomar diz que não vê motivo para mandar suas três filhas para a escola. Pergunto a uma dúzia de lavradores o que seria mais importante para que melhorassem de vida. “Um pouco de dinheiro”, brinca um deles.

“O objetivo da Índia não deveria ser a redução da fertilidade”, comenta dias depois Almas Ali, da Fundação População. “Deveria tornar a existência nos vilarejos viável. Sempre que se fala de população na Índia, o que vêm à mente são os números assustadores. O foco nas pessoas acabou relegado a segundo plano.”

Enquanto caía a noite, levamos quatro horas de carro para voltar de Palanpur a Délhi. Enfrentamos congestionamentos nas cidadezinhas maiores, cada qual fervilhando de atividade, por vezes quase engolfando nosso carro. Quando, depois de um viaduto, entramos em Moradabad, vejo um homem empurrando sua carroça, uma carga tão grande que ele mal enxerga adiante. Lembrei-me então do estalo de Ehrlich sentado no táxi décadas atrás. Pessoas, pessoas, pessoas – sem dúvida. Mas também um sentimento arrebatador de energia, de luta, de aspiração.

A reunião anual da Associação da População da América (PAA, na sigla em inglês) é um dos principais pontos de encontro dos demógrafos do mundo. Em abril de 2010, a explosão populacional no planeta não fazia parte da pauta. Os demógrafos estão convencidos de que, até meados deste século, estaremos chegando ao fim de uma era única na história – a do crescimento demográfico – e iniciando outra fase, na qual a população vai se manter estável ou diminuir.

Mas não haverá ainda excesso de gente? No encontro da PAA realizado em Dallas, fiquei sabendo que a atual população do planeta caberia inteira no Texas, caso o estado fosse ocupado de maneira tão densa quanto a cidade de Nova York. A comparação me levou a pensar como Leeuwenhoek. Se em 2045 houver 9 bilhões de pessoas distribuídas pelos seis continentes habitáveis, a densidade da população mundial será de pouco mais da metade daquela registrada na França atual. E a França não costuma ser considerada infernal para se viver. Será então que o mundo vai ser um lugar infernal?

Algumas regiões talvez fiquem infernais, e isso já acontece. Existem hoje 21 cidades com mais de 10 milhões de habitantes, e a quantidade delas só vai aumentar até 2050. As cidades de Daca, em Bangladesh, e Kinshasa, na República Democrática do Congo, cresceram nada menos que 40 vezes desde 1950. Suas favelas estão lotadas de gente desesperada que fugiu de áreas rurais em que a miséria era ainda pior.

Países inteiros se defrontam com pressões demográficas que nos parecem tão insuperáveis quanto as da Índia aos olhos de Ehrlich em 1966. Bangladesh está entre os países mais densamente povoados do planeta e também um dos mais ameaçados pelas mudanças climáticas; a elevação no nível dos mares pode provocar o deslocamento de dezenas de milhões de bengaleses. Ruanda é outro caso preocupante. No livro Colapso, Jared Diamond argumenta que o massacre genocida em que perderam a vida cerca de 800 mil ruandeses foi consequência de vários fatores, não só de conflitos étnicos mas também da superpopulação – um excesso de agricultores repartindo a mesma área em lotes cada vez menores que se tornaram insuficientes à subsistência de suas famílias. “Os piores cenários de Malthus podem às vezes se concretizar”, conclui Diamond.

Muita gente teme a possibilidade de que as previsões de Malthus sejam afinal comprovadas em escala global – ou seja, que o planeta se mostre insuficiente para alimentar 9 bilhões de seres humanos. Para Lester Brown, fundador do Instituto Worldwatch, a escassez de alimentos poderá provocar um colapso da civilização. Os seres humanos estão vivendo do capital natural, argumenta Brown, erodindo o solo e esvaziando os aquíferos com maior rapidez do que eles podem ser recuperados. E isso logo começará a prejudicar a produção de alimentos. “Remediar as deficiências no planejamento familiar talvez seja o item mais urgente na pauta global”, escreve ele, pois, se não conseguirmos limitar a população mundial a 8 bilhões por meio da redução da fecundidade, o que pode ocorrer é um aumento na taxa de mortalidade.

Oito bilhões correspondem à estimativa mais baixa da ONU para 2050. Nesse cenário otimista, Bangladesh teria uma taxa de fecundidade de 1,35 em 2050, mas ainda 25 milhões de habitantes a mais que hoje. A taxa de fecundidade em Ruanda também seria inferior ao nível de reposição, mas sua população atingiria o dobro do que era antes do genocídio. Se esse é o cenário mais otimista, alguém poderia dizer, então o futuro é de fato deprimente.

Porém, também podemos tirar disso outra conclusão: talvez essa preocupação com os números populacionais não seja a melhor maneira de confrontar o futuro. As pessoas amontoadas em favelas necessitam de ajuda, mas os problemas a ser resolvidos são a pobreza e a falta de infraestrutura, não a superpopulação. Proporcionar a todas as mulheres acesso aos serviços de planejamento familiar é uma boa ideia. No entanto, o mais agressivo programa de controle populacional que se possa imaginar não vai salvar Bangladesh da elevação no nível do mar nem Ruanda de outro genocídio nem todos nós dos enormes problemas ambientais a nossa frente.

O aquecimento global é um exemplo. As emissões de carbono ocasionadas pelo uso de combustíveis fósseis estão aumentando com maior rapidez na China, mas ali a taxa de fecundidade já é inferior ao patamar de reposição – não resta muito a fazer em termos de controle demográfico. Nas regiões em que a população está aumentando em ritmo mais acelerado, como na África subsaariana, as emissões per capita são bem menores que nos Estados Unidos – portanto, o controle demográfico ali teria um efeito irrelevante sobre o clima. Segundo cálculos de Brian O’Neill, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, se em 2050 a população mundial for de 7,4 bilhões, em vez de 8,9 bilhões, as emissões de carbono seriam reduzidas em 15%. Para interromper o aquecimento global, teremos de trocar os combustíveis fósseis por outras formas de energia – seja qual for o crescimento populacional.

Claro que a quantidade de pessoas faz diferença. Mais relevante ainda é o modo como as pessoas consomem os recursos. O principal desafio para o futuro das pessoas e do planeta é tirar da pobreza o máximo de gente e ao mesmo tempo reduzir o impacto de todos nós sobre o planeta.

De acordo com previsões do Banco Mundial, até 2030 mais de 1 bilhão de pessoas nos países em desenvolvimento vão passar a fazer parte da “classe média global” – em 2005 eram apenas 400 milhões. Embora isso pareça muito bom, não será nada fácil para o planeta se essas pessoas passarem a comer carne e a circular em carros movidos a gasolina no mesmo ritmo atual dos americanos. É tarde demais para evitar que nasça a classe média de 2030, mas não para mudar a maneira como ela e todos nós produzimos e consumimos alimentos e energia.

Durante séculos, os pessimistas bombardearam com alertas apocalípticos os otimistas congênitos que têm uma crença inabalável de que a humanidade vai encontrar maneiras de lidar com o problema e até de melhorar seu destino. A história, de maneira geral, até agora favoreceu os otimistas, mas ela não é nenhum guia confiável do futuro. Tampouco a ciência é esse guia. Ela não pode prever o resultado do confronto População versus Planeta, pois todos os fatos relevantes – quantos seremos e como iremos viver – dependem das escolhas que faremos e das ideias que ainda vamos ter. Podemos, por exemplo, diz Joel Cohen, “cuidar para que todas as crianças sejam alimentadas o suficiente para que aprendam na escola e sejam bem formadas o suficiente para que resolvam os problemas que irão enfrentar quando chegarem à idade adulta”. Isso iria alterar de modo significativo o futuro.

A controvérsia já existia no surgimento do alarmismo populacional, na pessoa do reverendo Thomas Malthus. No fim do livro no qual formulou a lei de ferro, segundo a qual o crescimento da população levaria à escassez de alimentos, ele afirma que essa lei não deixa de ser benéfica, pois nos impele a buscar soluções. O homem, escreve, é “preguiçoso e avesso ao esforço, a menos que seja obrigado pela necessidade”. A necessidade, acrescenta ele, é a mãe da esperança. “Os esforços que os homens se veem obrigados a fazer, a fim de se sustentar ou a suas famílias, despertam faculdades que de outro modo teriam ficado para sempre dormentes, e é uma observação corriqueira que situações novas em geral dão origem a mentes adequadas para enfrentar as dificuldades nas quais estão envolvidas.”

Sete bilhões de pessoas logo mais, 9 bilhões em 2045. Esperemos que Malthus esteja certo a respeito de nossa engenhosidade.

(National Geographic Brasil)

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