As buscas pelo alpinista brasileiro Bernardo Collares, 46, dado como morto após acidente na Patagônia argentina devem ter início assim que as condições climáticas melhorarem no local. Collares escalava o monte FitzRoy, na região de El Chaltén, e não conseguiu chegar ao pico justamente por conta de uma tempestade de neve que atingiu a região.


Mauricio Clauzet
O alpinista Bernardo Collares
O alpinista carioca Bernardo Collares, 46

Segundo André Ilha, amigo de Collares e colaborador da Femerj (Federação de Montanhismo do Rio de Janeiro), uma irmã do alpinista –Laura Arantes– deve chegar a El Chaltén nesta sexta-feira (7) e conversar com as autoridades locais sobre as buscas.

A morte de Collares foi declarada no começo desta semana, após sua amiga e companheira de escala, Kika Bradford, buscar ajuda e ouvir que não fazia sentido voltar ao cume para tentar resgatá-lo com vida –ele havia sofrido fratura na bacia e tinha hemorragia interna. Kika ainda não retornou ao Brasil.

Alpinista há 36 anos, Ilha falou com a Folha após conversar com Kika, que permanece na Argentina emocionalmente abalada, segundo ele. De acordo com Ilha, os dois faziam uma das escaladas mais longas do monte FitzRoy, com 1.800 metros de subida. Chegando perto do cume, começou a nevar e, preocupados, eles resolveram voltar. Não há confirmação da temperatura na ocasião, mas durante uma tempestade de neve, pode chegar a 15ºC negativos, afirma o amigo.

Ilha afirma, com base nas declarações de Kika, que, na primeira descida da volta, a ancoragem que segurava as cordas se soltou enquanto Collares descia. “Normalmente, ele teria ‘voado’ até a base da montanha com as duas cordas, o que teria deixado ela numa situação desesperadora”, explica Ilha. Porém, Kika conseguiu pegar a corda, que se prendeu em um bico de pedra. Com isso, Collares também conseguiu se segurar –poderia ter caído em um abismo.

Collares ficou inconsciente por um tempo. Quando acordou, não sabia onde estava e sentia muita dor. Não era possível se mexer, afirmam os amigos. A única chance de ele sair vivo dali seria Kika chegar rápido à cidade mais próxima em busca de ajuda, e busca-lo de helicóptero.

A descida de Kika, alpinista também experiente, também não foi fácil. Ela deixou o único saco de dormir quente que os dois carregavam com Collares e passou uma noite na montanha com neve e ventos, sentada e protegida por um saco de dormir fino, próprio para noites ao ar livre.

Isso porque a subida do FitzRoy deve ser feita rapidamente. “Lá, você não tem três dias seguidos de tempo bom”, afirma Ilha. Para escalar rápido, é preciso carregar pouco peso. Por conta disso, a dupla também não levava muita comida.

Quando Kika chegou a El Chaltén, estava claro para ela e para as autoridades locais que não havia como fazer o resgate de Collares naquelas condições, afirma Ilha.

O amigo e alpinista afirma que a cidade está acostumada com este tipo de situação e diz acreditar que não houve negligência. Infelizmente, as mortes no FitzRoy são comuns. As buscas por terra seriam um risco para a vida de quem fosse resgata-lo e o tempo não permitia o resgate por helicóptero, diz.

Ilha não soube dizer se há uma previsão para as buscas começarem. “As tempestades na região podem durar semanas”, afirma.

O monte FitzRoy é uma agulha de granito e sua escalada é considerada uma das mais perigosas e técnicas da Patagônia Argentina. Bernardo era considerado um escalador experiente entre membros da comunidade brasileira de alpinistas.

Respeitado por sua postura e luta pelo reconhecimento da categoria junto às autoridades brasileiras, Collares deixou o montanhismo brasileiro de luto nesta quarta-feira, dia em que a notícia de sua morte chegou ao Rio. Ele era solteiro e não deixou filhos.

Caio Vilela/Folhapress
Monte FitzRoy (cerca de 3.400 metros), próximo do povoado de El Chaltén, na Patagônia argentina
Monte FitzRoy (cerca de 3.400 metros), próximo do povoado de El Chaltén, na Patagônia argentina

(Folha Online)