RIO – Morreu na noite desta quarta-feira dona Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo. Com a saúde debilitada, Lily, 90 anos, foi internada, com infecção respiratória, no dia 13 de dezembro, na Clínica São Vicente, na Gávea. Ela morreu às 20h05m na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de falência múltipla de órgãos. Lily deixa um filho e quatro netos, Philippe, Gabriela, Anthony e João Victor.

Na tarde de sexta-feira, do dia 9 de julho de 2010, na mansão cor-de-rosa do Cosme Velho, foi a última vez que a grande anfitriã do Rio de Janeiro, Lily Marinho, abriu seus salões aos pés do Cristo Redentor, onde recebera, durante mais de uma década, ao lado do marido Roberto Marinho, então presidente das Organizações Globo, autoridades do mundo inteiro. Nessa ocasião, a convidada de honra, para o almoço só para mulheres, era a candidata petista à presidência da República, Dilma Rousseff. No discurso de boas vindas, Lily disse que sua intenção era homenagear “a senhora D, a senhora democracia”.

Conhecida pelo humor refinado e pela elegância, a anfitriã, nascida Lily Monique Lemb, filha de pai inglês, John Lemb, e de mãe francesa, Jeanne Bergeon, foi educada em Paris até os 17 anos, quando veio para o Rio de Janeiro. A longa viagem de navio firmava o compromisso de união com o jornalista brasileiro Horácio de Carvalho, dono do extinto jornal “Diário Carioca”.

Eles viveram juntos por 45 anos, até que um câncer devastador matou o jornalista. Do casamento nasceu o filho único, Horácio de Carvalho Júnior, o Horacinho, que morreu num acidente de carro, aos 26 anos, em 1966. O trágico episódio marcou definitivamente a vida dessa mulher, que conquistara, na juventude, o título de Miss Paris e estudara dança clássica e canto no Conservatório de Teatro daquela cidade. A perda de Horacinho fez com que Lily passasse por um longo período de reclusão e tristeza. Buscou na fé um alívio para sua dor, que acabou sendo amenizada, numa manhã de 1967, ao acordar de um sonho com o filho querido. Ele surgira, usando uma túnica branca, apontando os dois braços em direção a um menino. Lily interpretou a imagem como um sinal de que deveria adotar uma criança, como seus amigos, testemunhas de sua aflição, viviam aconselhando.

E assim o fez. Ainda na década de 60, o casal adotou o menino João Baptista, de menos de 1 ano. “Desde o primeiro instante o considerei meu filho. Ele era meu filho da mesma maneira que Horacinho. Nunca fiz distinção entre eles”, contou Lily numa entrevista.

Roberto Marinho e Lily Marinho

Com o tempo, ela voltou a sorrir e a receber os amigos, aos quais gostava de declarar sua “carioquice”, embora seu sotaque francês a desmentisse. “Sou brasileira, sou carioca” repetia constantemente. Poliglota, Lily divertia-se ao contar para os amigos que aprendera português com o marido e a cozinheira, baiana: “A primeira coisa que falei foi oxente!”. Mas o que poucos sabiam é que o sotaque francês escondia a verdadeira nacionalidade de Lily. Ela nasceu em Colônia, na Alemanha, em 10 de novembro de 1920.

Estava escrito nas estrelas: o amor sempre seria o fio condutor de sua vida. Houve a paixão pelo primeiro marido e pelos dois filhos. Mas outra paixão mais arrebatadora estava por vir. Na verdade, ela estava adormecida… Os olhares de Lily e Roberto se cruzaram pela primeira vez em 1941, no Hotel Copacabana Palace. Ela tinha 20 anos e era casada com Horácio. Ele tinha 36 e era solteiro. Para Lily, foi apenas um encontro agradável. Para Roberto, teria sido amor à primeira vista. Mas nada aconteceu.

O reencontro aconteceu 50 anos depois, em 1989, numa festa na Avenida Atlântica, em Copacabana. Ela tinha 68 anos e ele 83. Dois anos depois, estavam casados. Ele era o jornalista e empresário Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. “Ao recebê-lo para jantar pela primeira vez, não imaginei, por um instante sequer, que ele teria essa incrível vontade, esse desenfreado desejo de nos ver juntos para sempre. Roberto me declarou seus sentimentos sem muita demora. De repente, parecia possuído de um sentimento imperioso, apressado, apaixonado”, escreveu a própria Lily, já usando o sobrenome Marinho, no livro assinado por ela, aos 83 anos, sobre a história dos dois, “Roberto & Lily”. Lançado em 2004, com a colaboração do grande amigo Romaric S. Büel, ex-adido cultural do consulado francês no Rio, levou Lily a percorrer mais de 50 cidades brasileiras para divulgar a obra.

– Era uma mulher extremamente elegante, de alma e atitudes. Sabia receber como ninguém. Sem a sua atuação, o Brasil não teria o prestígio que tem hoje no mundo das artes. Devemos a ela exposições, como as de Rodin, Picasso, Camile Claudel e Monet, esta última, em 1998, foi recorde de bilheteria do Museu Nacional de Belas Artes. Lily costumava dizer que sem o apoio do doutor Roberto não teria feito nada – elogia Romaric.

A história de amor entre eles durou 14 anos, até a morte do jornalista, em 2003, aos 99 anos. O casal era uma referência na sociedade brasileira. Juntos, organizaram memoráveis recepções e jantares no casarão do Cosme Velho, além de festas de réveillon no apartamento da Avenida Atlântica.

Apaixonados, não se cansavam de demonstrar esse amor. Durante o casamento, Roberto Marinho costumava deixar o Cosme Velho em seu Lincoln e só voltava no início da noite. Quase sempre almoçava no escritório, rotina que não o impedia de telefonar para a mulher várias vezes por dia. “Ele sempre tinha alguma coisa a dizer, uma palavra terna a pronunciar, uma pergunta a fazer, uma sugestão”, conta ela, em “Roberto & Lily”.

E dizia ainda que a música e as artes eram uma grande satisfação para o casal. “Sempre fui apenas a mulher daquele que compreendeu o que a cultura, a educação e a televisão podem trazer a um país. Por vezes, eu me sentia incomodada ao ser condecorada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, por Jacques Chirac, quando, de fato, através de mim, era a Roberto que cumprimentavam e agradeciam. Mas ele teve a elegância e a generosidade de não se irritar e procurei restabelecer, sempre que pude, a verdade. Sem Roberto, sem sua visão, sem as Organizações Globo, eu teria sido apenas uma mulher de boa vontade e não teria obtido tantos êxitos”, escreveu.

Um desses êxitos ocorreu em 2006, quando Lily foi condecorada com a Medalha Pedro Ernesto, pela Câmara dos Vereadores do Rio. Durante a cerimônia, ela, novamente, declarou seu amor pela cidade. Dona Lily também recebeu o título de embaixadora da Boa Vontade da Unesco.

Mas a vida de alegrias sofreu novo golpe com a morte do segundo marido. Lily emagreceu e ficou reclusa. “Roberto consagrou ao trabalho o máximo de seu tempo e sua energia. Não digo que ele tenha esquecido de viver; esses 14 anos juntos foram o contrário da monotonia. Representaram a vida. Ao nos amarmos, demos um ao outro o mais belo dos presentes. Ele é insubstituível.”, declarou, em seu livro.

Numa entrevista, em 2008, ela falou abertamente da solidão que sentia:

– Durante o dia, tenho a companhia dos meus amigos. De vez em quando, almoço em restaurantes. Mas quando chega a noite, eu não administro mais nada. Sinto uma solidão absoluta.

Viúva e prestes a completar 87 anos, ela decidiu, em 2008, dar um destino ao seu patrimônio, colocando à venda joias, fazendas, obras de arte, prataria e mobiliário – dois mil itens oferecidos em três leilões, organizados em Genebra e Nova York (pela Sotheby’s), além de um no Rio. No acervo, estava um retrato dela assinado pelo pintor holandês Kees van Dongen, avaliado em US$ 700 mil.

– Eu não preciso mais dessas coisas. Não quero me aborrecer administrando fazendas. Não uso mais essas joias. Não mexo na prataria. Para que ter tanta coisa? Acho que, sem eles, minha vida vai ficar mais tranquila e isso não tem preço – explicou ela, na época, numa entrevista.

(O Globo Online)