A venda sem controle de antibióticos está chegando ao fim. Pelo menos é isso que pretende a resolução n° 44 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O texto determina que amanhã as farmácias só poderão vender qualquer uma das 93 substâncias antimicrobianas registradas no Brasil mediante apresentação de receita. A medida pretende ampliar o controle sobre a venda e contribuir para a redução da resistência bacteriana. 

“Quando se usa muito um antimicrobiano, ele elimina as bactérias sensíveis e as deixaresistentes, que eram minoria e passam a ser majoritárias. Quanto mais uso, mais rápido o fenômeno de resistência, o que deixa medicação sem utilidade”, explica o infectologista e presidente da Sociedade Cearense de Infectologia, Roberto da Justa Pires Neto. Assim, surgem bactérias multirresistentes, como a chamada superbactéria, a Klebsiella pneumoniae carbapenemase, que se desenvolve em ambientes hospitalares.

Além do desenvolvimento de resistência, o uso sem controle de antibióticos pode provocar efeitos colaterais. “Essa é uma resolução necessária e muito bem-vinda. Os antibióticos trouxeram benefícios enormes para a humanidade, entretanto, o uso incorreto pode trazer mais prejuízos do que benefícios”, frisa o médico, que lembra que muitas pessoas usam antibióticos quando estão gripadas, sendo que gripes são processos virais.

A preocupação de farmacêuticos ouvidos pelo O POVO é com o acesso dos pacientes ao atendimento médico, já que apenas médicos e odontólogos podem prescrever antibióticos. “Às vezes, as pessoas têm dificuldade de marcar consulta, principalmente os mais carentes”, diz Aline Leal de Magalhães, que trabalha em uma farmácia na avenida Duque de Caxias. Apesar disso, a farmacêutica apoia a resolução. “É necessária porque as pessoas usam antibióticos sem saber”, lembra.

Para a presidente do Conselho Regional de Farmácia (CRF-CE), Lúcia Sales, a aplicabilidade da norma se complica quando o assunto é o atendimento médico. “A resolução é uma medida sanitária correta, só teria que ter sido antecipada pela implementação de serviço de saúde à população”, afirma. Além de haver dificuldade de acesso ao atendimento médico, Fernando Alves de Souza, farmacêutico de um estabelecimento na avenida Tristão Gonçalves, lembra que deverá ser feito um “trabalho educativo” com a população, já que a compra sem receita se tornou um hábito.

Por quê

ENTENDA A NOTÍCIA
Como apenas médicos e odontólogos podem prescrever o uso, a demanda por consultas médicas deve aumentar. A Anvisa quer reduzir a automedicação e retardar o processo de resistência das bactérias.

SAIBA MAIS

O consumidor só poderá adquirir antibiótico apresentando duas vias de receita de controle especial. Uma ficará com a farmácia e a outra será devolvida com comprovante da compra.

As receitas passarão a ter 10 dias de validade.

A resolução da Anvisa determina ainda que, na tarja vermelha dos antibióticos deverá constar o texto; “Venda Sob Prescrição Médica – Só Pode ser Vendido com Retenção da Receita”.

Desde a publicação da norma, as empresas têm 180 dias para fazer as adequações.  

Mariana Lazari – O Povo Online

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