O ataque de artilharia de terça-feira lançado pela Coreia da Norte contra uma ilha sul-coreana matou dois soldados, desalojou dezenas de civis e provocou a venda de ações do mercado futuro e do won nas bolsas estrangeiras. Ações e títulos futuros já apresentaram recuperação. 

O QUE VAI ACONTECER AGORA?

O fogo de artilharia de terça-feira foi o bombardeio mais pesado contra a Coreia do Sul desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953. A tensão é grande na região. Mas é extremamente improvável que isso marque o início de um conflito cada vez mais intenso que poderia levar a um grande confronto militar entre as duas Coreias. 

Há décadas, a Coreia do Norte adota a estratégia de tentar obter concessões da comunidade internacional por meio de provocações periódicas, cuidadosamente medidas para elevar a tensão geopolítica sem provocar uma guerra total. 

Entre as provocações dos últimos anos estão dois testes nucleares, vários testes com mísseis e o afundamento de um navio de guerra sul-coreano, que matou 46 marinheiros. 

É provável que o ataque mais recente esteja seguindo essa estratégia. Em vez de promover novos gestos agressivos nos próximos dias que elevariam a temperatura geopolítica, é possível que a ação seja seguida por um período de calma relativa ou mesmo de aberturas da parte do governo norte-coreano por novas conversações de paz. 

POR QUE AGORA? 

Há várias razões possíveis para os militares da Coreia do Norte terem lançado o ataque de artilharia na terça-feira. 

A Coreia do Sul fazia exercícios militares na área e admitiu que conduzia testes com disparos. Isso pode ter levado os militares norte-coreanos a pensar que estavam sob ataque e disparar em retaliação. 

Acontecimentos da semana passada sugerem que a Coreia do Norte de novo tenta provocar a comunidade internacional para obter concessões. O país anunciou grandes avanços no programa de enriquecimento de urânio, numa segunda via para fabricar uma bomba nuclear. 

A decisão do governo norte-coreano de exibir seus avanços tecnológicos aos cientistas do Ocidente, somada ao ataque de terça-feira, pode ser uma estratégia destinada a assustar o Sul e seus aliados para que aliviem as sanções ou retomem as negociações de paz e de desarmamento. 

Outro fator que pode ter interferido no ‘timing’ do incidente é que o Norte entrou num período de transição de liderança. 

Numa importante reunião do partido governista em setembro, Kim Jong-il indicou seu filho mais novo para postos-chave, uma medida vista como a consagração formal dele como o próximo líder da Coreia do Norte. Acredita-se que Kim esteja com a saúde debilitada após ter sofrido um derrame em 2008. Com isso, ele pode ter acelerado os planos de sucessão. 

O filho dele, Kim Jong-un, entretanto, é jovem e não tem uma base de apoio real. Além disso, sempre existe o risco de figuras importantes entre os militares ou do governo acharem que este seja o momento oportuno para chegar ao poder. 

COMO OS MERCADOS TÊM REAGIDO? 

As ações asiáticas caíram na quarta-feira e o euro ficou estável, perto de uma baixa de dois meses ante o dólar norte-americano, enquanto as ações regionais se recuperavam após as vendas logo depois do bombardeio, e os investidores buscaram segurança na moeda norte-americana. 

As ações e títulos futuros sul-coreanos, entretanto, subiram na quarta-feira, à medida que os investidores buscavam barganhas em ativos locais depois de o ataque de artilharia contra o Sul ter provocado o pânico e as vendas de terça-feira. 

As ações da Coreia do Sul, cujo mercado fechou na terça-feira e afetou os mercados da região na quarta, tiveram leve alta perto da estabilidade nesta quinta-feira. 

O principal índice de ações, o KOSPI, que fechou pouco antes da correria das vendas de terça-feira, encerrou em leve alta de 0,09 por cento na quinta-feira. 

QUAIS SÃO OS RISCOS NESTE CENÁRIO? 

O maior risco é de que a transição na liderança e os problemas econômicos da Coreia do Norte tenham como resultado a tomada de decisões arriscadas que podem ir além das provocações do passado e causar eventos que fujam do controle. 

Com a incerteza sobre a saúde de Kim, o frágil equilíbrio que tem mantido a península sob tensão, mas em paz há décadas, pode estar sob risco. Embora nenhum dos lados queira a guerra, sempre há o risco de que os desentendimentos ou cálculos errados levem a um conflito não desejado. 

Outro grande risco para a Coreia do Sul é o que pode acontecer quando o regime da Coreia do Norte entrar em colapso. A perspectiva é vista com receio por muitos políticos regionais, em razão do enorme custo econômico que uma súbita reunificação caótica das duas Coreias imporia à região. 

(Reportagem adicional de Chris Buckley, em Pequim, e de Andrew Marshall, em Cingapura – Reuters)