SOCIEDADE BRASILEIRA SE VÊ COMO DEMOCRÁTICA E JUSTA, MAS AINDA É POSSÍVEL DETECTAR E É PRECISO COMBATER A PRESENÇA DO RACISMO NAS ESCOLAS, NOS MOVIMENTOS SEPARATISTAS E NEONAZISTAS, E NA POUCA PARTICIPAÇÃO DOS NEGROS EM ALTOS CARGOS NO TRABALHO E NA POLÍTICA

A importância do tempo social voltado ao tema das culturas negras e suas diferentes formas de expressão e celebração é uma forma da sociedade se dedicar a pensar a si mesma e a pensar no outro. A Semana da Consciência Negra, comemorada no dia 20 de novembro, cada vez mais passa a integrar com maior força e participação dos brasileiros uma cadeia de eventos e celebrações que buscam construir uma sociedade em que prevaleça o direito à diferença e o direito à igualdade de condições sociais, culturais, políticas e os direitos à cidadania.

Embora pareça que as lembranças e as memórias das populações e grupos sociais que viveram e/ou ainda vivem em situação de silêncio ou excluídas dos espaços culturais e da escrita da história, elas permanecem vivas nas narrativas, nas canções, na oralidade, na religiosidade, no parentesco, nos territórios e nas identidades culturais.

Um dos principais fatores que contribuiu para a crença de que vivemos uma democracia racial foi a ideologia do branqueamento, na passagem do Governo Imperial para a Primeira República e a suposta substituição total da mão-de-obra escravizada dos negros para o trabalho dos imigrantes, fortalecendo a condição de invisibilidade dos negros no Sul do país. Durante os séculos 18 e 19, esta ideologia operava pela negação da presença de outras populações negras e indígenas num suposto “vazio demográfico” na região Sul e Sudeste do Brasil, tal como a Marcha para o Oeste que procurava colonizar as terras indígenas de Mato Grosso, Vale do Rio Araguaia, Goiás, entre outros estados.

As ideias de desenvolvimento, progresso e branqueamento foram articuladas por meio de artigos e livros “científicos” como de Silvio Romero, Nina Rodrigues, Oliveira Vianna entre outros. Na crítica desta ideologia, Boaventura Leite (1986: 40) identifica nos textos da historiografia sobre o Sul do Brasil um discurso subjacente sobre duas “especificidades” que diferenciariam esta região do restante do País: “o negro teve e tem presença rara, inexpressiva ou insignificante e atribui a isto a ausência de um grande sistema escravista voltado para a exportação”, e que em determinadas áreas e atividades as relações foram mais “democráticas e igualitárias”.

Tal discurso vai galvanizar uma imagem para a região sul brasileira de Europa à brasileira, a região mais branca do País, e, portanto, mais desenvolvida e progressista que o Norte e Nordeste, inviabilizando, assim, políticas públicas para a população negra e indígena, e colocando-os à margem do reconhecimento cultural como sujeitos identitários e históricos. Mas estes sujeitos resistiram de diferentes formas, nos terreiros de Candomblé, nos movimentos negros, nas três mil comunidades quilombolas por todo o Brasil, e nos mais de 200 povos indígenas da América do Sul.

Sonia Regina Lourenço é antropologa e coordenadora do Museu Nacional de Imigração e Colonização.

(A Notícia _ Portal Clic RBS)