Quem, na noite de ontem, circulou pelas ruas do Centro de Viçosa do Ceará, a 348 km de Fortaleza, sem atentar para o resultado nacional das eleições pela TV, podia não identificar quem havia vencido as eleições presidenciais. De um lado, uma carreata petista comemorava a vitória nacional de Dilma Rousseff (PT). Do outro, manifestantes tucanos vibravam com o triunfo de José Serra (PSDB) em Viçosa, único município cearense que, desde 1998, dá vantagem aos presidenciáveis tucanos. Serra obteve 15.381 votos viçosenses, enquanto Dilma terminou com 14.565, uma diferença de 816 votos entre os dois.

Na frente do comitê, dezenas de militantes tucanos aguardavam a saída do ex-prefeito Evaldo Soares (PSDB, 1997-2004). Ele é indicado pela população local como personagem que, na prática, governa o município desde sua primeira legislatura até hoje. “Eu já falei, vou repetir, é o Evaldo quem manda aqui”, gritavam ao redor do tucano, encoberto por uma bandeira de Serra. A carreata petista chegou a passar pela frente do comitê tucano, estimulando insultos de ambas as partes. “Dilma serrou”, gritavam os petistas. “É desespero!”, ecoava um paredão do grupo tucano.

De 1998, até o primeiro turno destas eleições, a diferença numérica entre PSDB e PT vinha sendo reduzida, o que estimulou o PT estadual a injetar mais material de campanha no município neste segundo turno. Mas o esforço foi insuficiente para derrotar o poder local dos tucanos. A distância entre Serra e Dilma passou de 519 para 816 votos do primeiro para o segundo turno. Pode parecer pouco, mas simbolicamente representou muito para o grupo tucano que predomina em Viçosa. “A gente só deixa de ganhar aqui no dia que o Evaldo sair daqui”, bradou um aliado tucano aos adversários petistas que acompanhavam, na noite de ontem, a apuração na 35ª Zona Eleitoral, no Centro da cidade.

Denúncias

Neste segundo turno, o eleitorado de Viçosa assistiu a um festival de denúncias e acusações que partiram de ambos os lados. Logo após o primeiro turno, em 3 de outubro, articuladores do PSDB fizeram circular pela cidade um vídeo que enaltecia Serra e repudiava Dilma. Uma sequência de quatro produções mostrava que a petista seria a favor do aborto. Em um deles, Dilma afirmava, em entrevista, que, apesar de ser contrária ao aborto, defende que a prática “seja tratada como questão de saúde pública”.

Já na contramão dos vídeos anti-Dilma, dois panfletos apócrifos distribuídos na cidade acusavam a gestão tucana de corrupção. Na mira das denúncias estiveram o ex-prefeito Evaldo Soares e seu afilhado político, o atual prefeito Pedro Brito (PSDB). Evaldo é descrito como “asilado por dinheiro” que “vende a alma”. Segundo o material, funcionários da Prefeitura estão sendo “perseguidos por suas posições”, contrárias à dos tucanos.

Manutenção do poder

A manutenção do favoritismo de Serra em Viçosa representa, na cidade, a manutenção da expressão do homem de maior capital político do município, o ex-prefeito Evaldo Soares. O tucano se manteve no Executivo municipal de 1997 até 2004, quando indicou o marido de sua cunhada, José Firmino (PSDB) para substituí-lo. Firmino foi eleito e renunciou ao cargo em abril de 2008 para que sua cunhada, Silvana Fontenele (PSDB, esposa de Evaldo), pudesse concorrer à Prefeitura, uma vez que são da mesma família.

Mas há 16 dias do pleito, Silvana, que hoje é presidente do diretório municipal do PSDB, teve de ser substituída por ter a candidatura impugnada pela TRE, que configurou sua postulação como perpetuação de uma mesma família no poder. Pedro Brito, atual prefeito da cidade, foi indicado por Evaldo para substituir Silvana nas urnas. E deu certo. O candidato do PT, Dr. Auricélio, foi derrotado.

(O Povo Online)