A cultura pop vive de reviver; a agônica indústria da música, de relançamentos de obras do passado em edições de luxo. A gravadora EMI relança agora a discografia da banda Legião Urbana, em diversos suportes: LPs de vinil, CDs em digipack (embalagem cartonada que imita as dos antigos álbuns) e uma caixa, com os discos e encartes bem documentados, repletos de fotografias inéditas. Confesso que hesitei em abrir os discos que conheci tão bem na minha juventude, para ouvi-los de novo. Na verdade, já não consigo escutar nada daquele tempo sem ser assaltado pela tristeza, e por motivos óbvios. Conheci todos aqueles artistas, conversei com todos eles, fiz reportagens, entrevistas, críticas. Magoei muitos deles com observações duras, embora fundamentadas, eles também me feriram com farpas verbais, e até tentativas de agressões propriamente ditas. Vivi tudo aquilo, e por isso não sou um narrador confiável da chamada cultura da década de 80. Sou mais personagem que narrador, alguém que assistiu a tudo no desconforto das redações de revistas e jornais, cobrindo shows e discos, vendo os tempos, as canções e a juventude passarem. Os discos do Legião servem a mim agora como as minhas madeleines…

Legião Urbana foi um dos grupos mais paradigmáticos dos anos 80 no Brasil, ao lado do Barão Vermelho, Capital Inicial, Titãs, Ira!, RPM, Lobão, Blitz e Paralamas. Mas Legião possuía características únicas, que o distinguiam dos seus colegas de rock – ou BRock, na feliz expressão cunhada pelo jornalista Arthur Dapieve. O traço distintivo do Legião, por obra de Renato, repousa na visão de mundo melancólica, lírica, romântica. No plano das letras, não há palavrões infundados, não há uma única palavra mentirosa nas canções da banda. É tudo a pura verdade de uma geração marcada na infância pela ditadura que sujou a alma do Brasil, e até agora tentamos limpar essa mancha, indelével, como diriam versos do Legião Urbana.

No primeiro disco da banda, Legião Urbana, lançado em 1984, há uma faixa especialmente simbólica. Trata-se de Geração Coca-Cola. Os versos desse rock meio canhestro, meio punk, meio qualquer coisa, dizem o seguinte: “Quando nascemos fomos programados/ A receber o que vocês nos empurraram/ Com os enlatados dos USA, de 9 às 6./ Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e industrial/ Mas agora chegou nossa vez – / Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.” E o refrão: “Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Nós somos o futuro da nação/ Geração Coca-Cola.” Não poderia ter havido uma profecia mais exata, um retrato mais perfeito da geração do Legião, que é a minha. Quando chegou a nossa vez, só restava lixo a cuspir. Lixo cultural, lixo musical, lixo crítico. Não havia nada mais que desinformação e uma justificável ansiedade de conhecer tudo o que acontecia no mundo. Era um tempo em que percorríamos as lojas de discos atrás de poucos vinis que chegavam ao Brasil, a preços altíssimos. A gente contrabandeava a música das bandas inglesas, e levava seus discos para casa como se carregasse ouro intangível. Só havia aquela muamba de Echo and the Bunnymen, Joy Division, The Cure, The Smiths para preencher o vazio das almas – além de sexo e drogas, naturalmente. Mas tudo isso era misturado a um sentimento horrível de falta de futuro. Em breve os economistas chamariam os anos 80 de “a década perdida”. Em meio à ausência de perspectivas, da podridão cultural e da acídia introjetada nos espíritos, vivemos o auge de nossas vidas. Geração Coca-Cola. Geração-Nada.

Se é para personificar tão pouca década, ninguém melhor que o vocalista, líder e compositor do Legião Urbana: Renato Manfredini, que adotou o codinome de Renato Russo. Ele morreu por causa da aids, aos 36 anos, como informam suas datas extremas (1960-1996). No fim da vida, isolou-se, envergonhado e desolado com a doença. Doença que, diga-se de passagem, levou grande parte de minha geração, pessoas queridas e iluminadas, bem como seres desprezíveis, que foram também porque viver fez mal à saúde principalmente nos anos 80. Mas voltemos a Renato, para tentar compreender o que se passou, o que não volta mais. Entrevistei-o várias vezes. Era um sujeito elétrico, dado a descargas de poesia no meio das declarações. Em pessoa, não tinha o aspecto frágil que exibia em suas histriônicas apresentações em palco. Calçava saltos altos, o que lhe aumentava o tamanho já alto, vestia-se como dândi intelectual, seus olhos negros míopes assustavam. E falava sem pausa, aos borbotões, enquanto fumava. Um certo dia me ligou do hotel onde estava hospedado em São Paulo. Eu estava em dia de fechamento na redação, mas ele não parou de declamar poemas, letras, coisas que nunca vi gravadas, e nem me lembro mais tão bem.

Ouvido agora de longe, tantos anos depois de sua vida e sua morte, qual o seu legado? Hiperativo, incontinente, incontido, Renato parecia conter várias personas em seu corpo. No palco e diante do microfone, cantava muito bem. É certamente a melhor voz da geração. Um tenor com emissão impostada, voz afinada e eloquente – voz que, a princípio, lembrou-me a de Jerry Adriani, o cantor da Jovem Guarda. A impressão era correta, pois não tardou Jerry gravar músicas do Legião. Mas Renato soava como um Jerry Adriani intenso, cheio do que-dizer, Jerry Adriani com poesia meio à Rimbaud, com aquele ímpeto de retratar a juventude e suas ansiedades, a juventude e seus sonhos – e no caso da juventude dele, sonhos jamais realizados.

É preciso dizer que Renato Russo não foi um vocalista, como tantos outros daqueles tempos. Foi um dos poucos cantores à frente de uma banda. Um cantor com mensagens, que boa parte do público fazia questão de não ouvir. E é curioso como aquela voz italiana, de ópera, opera um contraste com os rocks e baladas mal delineadas do Legião. E aqui entra o lado musical e composicional da banda. Renato um dia me disse que tinha prazer em copiar compassos inteiros de músicas de bandas inglesas a que nós, jornalistas, não tínhamos acesso naquele tempo, para zombar da crítica e mostrar o quanto ele era esperto. E de fato a gente não conseguia reconhecer de onde vinham suas referências, porque ele não se plasmava nos disco que eram vendidos por aqui, mas em singles, em EPs e LPs de bandas menos conhecidas. E se tivesse feito isso agora, na era da internet e da ultrainformação, Renato Russo teria sido desmascarado? Acho que não. Suas músicas se inspiraram diretamente em outras músicas, mas se transfiguraram em algo próximo da originalidade. Foi assim que os Beatles, ao tentar tocar sem sucesso uma “Bourrée em Mi Menor”, de Johann Sebastian Bach, criaram a bela canção “Blackbird”; a mesma operação que levou Tom Jobim a compor “Insensatez”, copiando compassos inteiros do “Prelúdio nº 4”, de Chopin. Basta se debruçar sobre as canções de Renato e cotejá-las com discos da época para descobrir a semelhança entre original e inspiração. Era Renato cuspindo o lixo que lhe haviam imposto, como diz “Geração Coca-Cola”.

Os anos 80 foram ruins para a música popular brasileira. A razão maior estava nas gravadoras, ansiosas por enterrar a geração da MPB. O que elas tinham à mão era uma turma inculta e ansiosa pelo sucesso. Mas Renato se destacou, vamos lhe fazer justiça. A história de suas músicas se fundiu com sua história pessoal. Foi um artista que jamais faltou com a sinceridade. Sua vida se encaminhou para a tragédia da morte prematura. O que não deixa de ser um ideal de roqueiro. Renato Russo foi a um só tempo derrotado e gênio. Derrotado porque a existência é precária e finita, o que credencia todos nós ao fracasso. Gênio porque, com as limitações do lixo de seu tempo, conseguiu cultivar canções que resistem ao tempo. Ao ouvi-lo, sinto que a vida já passou, que não passo de um reles sobrevivente. Por isso, me comovo, não sem uma ponta de desconforto, quando descubro que os jovens de hoje ainda curtem e entoam Legião Urbana.

(Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras)

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