Dilma, Chico Buarque e o leque de Alcione. "Concordamos que você é um anjo", disse a candidata ao compositor

“Nunca minha bunda foi tão roçada quanto nesta noite”, avisa um senhor de óculos quadrados, na confusa subida do Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Na noite de 18 de outubro, centenas de simpatizantes do PT e de Chico Buarque se espremem em busca de um ingresso para o ato político da candidata Dilma Rousseff com artistas e intelectuais. O bilheteiro contém a manada:

– Calma, gente! Todo mundo vai entrar…

Mas, sem bilhetes, ele desce as escadas e gesticula para os organizadores:

– Os ingressos acabaram. O que eu faço?

A lotação de mil lugares do Casa Grande terminou atropelada por pessoas nas escadas, nos corredores, nas beiradas do palco. O diretor José Celso Martinez, do Teatro Oficina, atiça a plateia e ameaça comer antropofagicamente o fanatismo religioso, ao fazer um solilóquio no telão:

– Dilma é a musa desta noite, que quer conter o fundamentalismo. Ela vai realizar o que Oswald de Andrade queria: um matriarcado em Pindorama!

O músico Otto chora com o enxurro de Zé Celso. Cabelos meticulosamente desgrenhados, o artista pernambucano vibra:

– Chorei, chorei… Apoio (o PT) publicamente desde os meus 15 anos, quando fui a um comício de Lula. Acho Dilma bacana, o governo Lula foi moderno, o Brasil nunca vai ser o mesmo. Estou feliz com ele, sem discutir os outros. Eu acertei. Estou aqui pelas minhas convicções.

Sem desmerecer Dilma, a maioria dos artistas diz estar ali por Lula, pela continuidade do governo. A atriz Sílvia Buarque tem “uma tendência há vinte anos de votar no PT” e prefere não comentar o uso do aborto na guerra entre petistas e tucanos.

– Acho que não gostaria de ter visto religião e política tão misturados, mas não quero falar sobre isso aí, não.

As estrelas do PT começam a zanzar no palco, em busca de um assento – alguns, velhos militantes. Escalação: Marilena Chauí, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Fernando Morais, Beth Carvalho, Wagner Tiso, Cristina Pereira, Eric Nepomuceno, Alcione, Margareth Menezes, Jonas Bloch, Emir Sader, Chico César, Antonio Pitanga, Lia de Itamaracá, Hugo Carvana, Dira Paes, Domingos de Oliveira, João Pedro Stédile… E na galeria política, o presidente do PT José Eduardo Dutra, Michel Temer, Marco Aurélio Garcia, Carlos Minc, os governadores Jaques Wagner (PT-BA) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ), Márcio Thomaz Bastos, os ministros Juca Ferreira (Cultura) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais).

De repente, um senhor miúdo, rosto caído sobre os ombros, sobrancelhas mais vistosas que os olhos, posiciona sua cadeira de rodas na mesa principal. O arquiteto Oscar Niemeyer, 103 anos. De pé, os espectadores fazem a aclamação da noite:

– Oscar! Oscar! Oscar! Oscar! Oscar!

Em silêncio e estático, o arquiteto vasculha os admiradores, com seriedade. Nem a chegada de Dilma, após um beabá na bancada do Jornal Nacional, provocaria a amorosa e extremada recepção. A candidata se aboleta entre os artistas antes de cumprimentar Niemeyer. Abraça-o pelas costas. Ele nem vê.

– É a Dilma, Oscar – informa a mulher do arquiteto, Vera Lúcia.

– Ah, é a Dilma?

Início da assembleia. Alcione, a Marrom, abre um leque de cores aberrantes. Bate um ventinho na vizinha.

– Que bom, vai me dar uma fresca… – alivia-se a presidenciável.

Leonardo Boff e sua barba santíssima adulam Dilma:

– Você tem um rosto descansado…

– Ah, Boff, estou naquela fase em que o cansaço não faz mais diferença. Mas eu estou muito, muito cansada. Isso aqui recompensa… – confessa, baixinho.

O teólogo complementa:

– …Uma energia.

(No púlpito, ele faria literatura em cima da frase de Dilma: “Ela me disse: estou muito cansada, mas tenho um fogo…”).

No revezamento de oradores, a professora de Filosofia Marilena Chauí assume o microfone e mostra um santinho de José Serra, que mandou imprimir uma frase bíblica: “Jesus é a verdade e a vida”. Inclinada, reforçando o gestual de polemista, ela ataca:

– Isso é obsceno! É religiosamente obsceno. É politicamente obsceno. É uma violência contra o ecumenismo religioso.

Chico aplaude:

– Marilena!

Na fila do gargarejo, a equipe do programa humorístico CQC lança perguntas para Dilma. Ela responde a primeira e passa a ignorar as seguintes.

– Tiririca, o artista brasileiro mais popular, vai estar presente?

Ela faz olhar neutro, fixa-se em Marilena Chauí.

O repórter do CQC, Oscar Filho, é convidado para a lateral do teatro. Alcione pergunta a Dilma:

– Quem é esse menino?

Chico Buarque sorri, escancaradamente, e crava:

– Chato pra burro!

Cara amarrada, Dilma esclarece a Marrom:

– É de um programa, o CQC… (revira os olhos) O nome desse aí eu não sei, só sei de outro…

Quem discursa? A cirandeira Lia de Itamaracá prefere entoar:

Eu estava na beira da praia/ Ouvindo as pancadas das ondas do mar… Esta ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na Ilha de Itamaracá…

O público cantarola a canção pernambucana, depois de ter acompanhado Beth Carvalho numa adaptação do samba de Serginho Meriti, “Deixa a vida me levar”: “Deixa a Dilma me levar, Dilma leva eu, deixa a Dilma me levar, Dilma leva eu…“.

Enquanto ouve as mensagens dos intelectuais, Dilma permanece com a expressão dura, inflexível, contemplativa. Perde-se ao mirar a plateia, erguendo o queixo com a mão, no que transparece alheamento. Ela desperta com o discurso do frei Leonardo Boff, ex-apoiador de Marina Silva (PV). O téologo retorna ao colo petista, como principal orador, depois de longa temporada de críticas ao governo Lula. Antes de engatilhar o palavrório, anuncia “um anjo”.

– Tenho aqui um anjo, o anjo Gabriel, que veio trazer uma mensagem… Chico…

O compositor se surpreende com a metáfora:

– O anjo sou eu?

Irrompe o eterno grito anônimo das gravações ao vivo do queridinho:

– Chicooooooo… Eu te amo!

Abafado por aplausos, o craque do Politheama anuncia o voto:

– Minha função aqui é ser papagaio de pirata, tirar foto com a Dilma. E reiterar meu apoio por essa mulher de fibra, que já passou por tudo, não tem medo de nada. Sobretudo, vai dar o senso de justiça social, que é a marca do governo Lula, um governo que não corteja os poderosos de sempre… Ele fala de igual pra igual com o mundo todo. Não fala fino com Washington nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai. Por isso mesmo, é ouvido e respeitado no mundo inteiro, como nunca antes na história deste País! – troça.

Boff retoma:

– Agora, o anjo Gabriel pode voltar ao seu lugar!

Ao sentar-se, Chico ouve a tietagem de Dilma:

– Nós também concordamos que você é um anjo, não é, Alcione?

A Marrom apenas abre o leque.

– Abaixo o PIG! – um grito corta a oração de Boff.

Curioso com a sigla, o governador Sérgio Cabral indaga:

– O que é PIG?

– O Partido da Imprensa Golpista – ensina a professora Marilena.

Logo uma declamadora chateia a plateia com um longo poema, para chamar ao parlatório a candidata à presidência. Num discurso bem cadenciado, no qual o sujeito não brigou com o verbo, Dilma supera a fase de beatices da campanha e defende o Estado laico. Repete algumas vezes a palavra “derrota”, sempre cortada pelos militantes: “Mas você vai vencer!”.

– Vejo aqui uma parte da minha vida, as músicas da minha juventude e da idade adulta. Com Chico (Buarque) e todos eles. Vejo os livros que eu li. Vejo também o processo que me trouxe aqui… Quem perde, adquire uma grande capacidade de resistir. Eu me formei na vida perdendo. Mas, ao mesmo tempo, perdendo e ganhando. Eu tenho muito orgulho de minhas derrotas, porque foram boas derrotas…

Sentado no fundo do teatro, o politeísta Zé Celso balança a cabeça, afirmativamente, quando a ouve rebater os ataques de Serra:

– Não queremos o Estado apropriado por nenhuma crença, nenhuma religião… O Estado e a democracia que nós pregamos não pode entrar na vida privada das pessoas.

Ao citar o budismo, o catolicismo, e etc., ouve uma reprimenda:

– Ateus!

– E os ateus, os judeus…- acrescenta a petista.

Por um instante, ela até explica o olhar distanciado de minutos atrás.

– Sei o tamanho do peso que eu carrego… Aí eu olho pra vocês, pro Chico, e penso: será que o Chico não é mais preparado?

(No final, ao ser cumprimentada pelo compositor, Dilma enfatizaria: “Aquele comentário sobre você é verdade, viu?”)

– Ninguém respeita quem deixa parte do seu povo na miséria. Pode ser intelectual, mas, se não tirar seu povo da miséria, ninguém respeita – brada.

Cercada por suas estrelas, Dilma retorna às costas de Niemeyer, posando para retratos. Em frente, uma militante recolhe os girassóis do palco. “Ai, que lindo… Vou levar esse buquê pra enfeitar minha casa”.

(Portal Terra Magazine)

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