A jornalista Mya Guarnieri lembra de sua cidade natal, Gainesville, na Flórida, como uma típica localidade americana – casas sem cerca, grandes piscinas e triciclos nas calçadas. Isso até o pastor Terry Jones anunciar um dia de queima do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos.

A queima do livro sagrado dos muçulmanos havia sido marcada para este sábado, quando os americanos lembram o atentado ao World Trade Center, em Nova York, e à sede do Pentágono.

Mesmo após dizer que definitivamente não queimará exemplares do Alcorão, o pastor até então pouco conhecido provocou uma onda de protestos pelo mundo, que causou até mesmo a morte de uma pessoa no Afeganistão nesta sexta-feira (10). Pressionado pelo presidente dos EUA, Barack Obama, e por líderes militares e político em todo o mundo, Jones acabou desistindo da ideia.

A notícia fez Mya, que é de origem judaica e vive atualmente em Tel Aviv, Israel, lembrar que sua cidade tinha mais do que lindas piscinas e casarões ajardinados. Na escola, seus colegas cristãos, protestantes na maioria, tentavam convencê-la a deixar o judaísmo e se converter ao cristianismo. O pai de um amigo seu era inclusive membro do grupo racista Ku Klux Klan.

Na época, os judeus ainda eram um dos principais alvos do preconceito americano, diz a jornalista. Com o tempo, o grupo foi assimilado e os muçulmanos, que engrossam a lista dos atuais imigrantes nos EUA, entraram na mira dos fundamentalistas. Sobretudo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Para Mya, o preconceito persiste, mas o antissemitismo (termo usado geralmente para descrever o preconceito contra os judeus) deu agora lugar à islamofobia (a aversão aos muçulmanos).

Veja a entrevista.

R7 – O fato de um pastor de sua cidade natal anunciar a queima do Alcorão a surpreendeu?

Mya – Não, não me surpreendeu, porque se trata de apenas um pastor. Apesar de o povo de Gaineswille ser, em grande parte, aberto e liberal – até mais do que na vizinhança – a xenofobia ainda resiste. Quando eu era criança, senti na pele o antissemitismo [preconceito contra os judeus]. Embora o antissemitismo ainda exista nos dias de hoje, me parece que ele vem substituído por um sentimento anti-islâmico. No fundo, são dois lados de uma mesma moeda. No fim das contas, muitos muçulmanos são árabes e os árabes também são semitas.

R7 – Por que o antissemitismo deu lugar à islamofobia nos Estados Unidos?

Mya – Os judeus já foram quase que integralmente assimilados nos EUA. Foi um processo difícil. No passado, judeus americanos eram excluídos de algumas escolas, de empregos e outros lugares em razão de sua etnia. Mas os judeus acharam seu lugar na América. O fato de Chelsea Clinton [filha da secretária de Estado Hillary Clinton] ter se casado com um judeu é uma prova disso, segundo analistas. Os muçulmanos, por outro lado, são imigrantes mais recentes, que ainda não estão tão incorporados na sociedade americana como os judeus. Diante do 11 de Setembro, muitos americanos erroneamente os tacharam como “terroristas”. Além disso, como em qualquer lugar do mundo, em tempos de crise econômica não é incomum a xenofobia crescer. E os muçulmanos são agora o principal alvo, tanto nos EUA quanto na Europa.

R7 – Também há judeus que se opõem à mesquita no centro de Nova York. Há muitos judeus com posições fundamentalistas como a do pastor que quer queimar o Alcorão?

Mya – Depende. Entre os judeus americanos há muitos pró-Israel e anti-Islã. Mas nem todos. E eu gostaria de ressaltar que nem todos os cristãos fundamentalistas dos EUA são islamofóbicos. Percebe-se, no entanto, um desprezo de alguns grupos em relação à origem religiosa de outros. É particularmente triste quando são os judeus que se comportam assim – é similar ao preconceito que muitos deles já sofreram.

R7 – Você acha que os conservadores vão conseguir impedir a construção da mesquita no centro de Nova York?

Mya – Não sei quem terá sucesso nessa história. Mas não se trata de uma mesquita. O Park51 é um centro comunitário. Se fosse uma mesquita apenas, também seria maravilhoso. O nome original de Park51 era Casa de Córdoba. Na Espanha medieval, Córdoba era a cidade onde judeus, muçulmanos e cristãos viviam juntos e em paz, forjando uma cultura única e vibrante. Também acho que Park51 pode ser um passo a um entendimento mútuo entre as religiões.

(Portal R7)

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