As campanhas de prevenção à aids desenvolvidas na França ao longo dos últimos 20 anos não estão sendo capazes de controlar a infecção nos homossexuais franceses, alerta uma pesquisa do Instituto Nacional de Prevenção Sanitária. Quase a metade (48%) dos novos casos detectados no país envolve um homem gay, de acordo com o estudo, segundo o qual a doença continua “incontrolável” nesta população.

Os dados foram publicados na semana passada na revista científica britânica The Lancet e mostram que, apesar de a contaminação pelo vírus HIV – causador da aids – estarem em queda desde 2003, este número permanece estável entre os homens homossexuais. A explicação para o fenômeno, de acordo com entidades de prevenção à doença, reside nas práticas sexuais dos gays, que os expõem mais facilmente ao contágio se realizadas sem prevenção.

A prática de sexo anal sem preservativo, como a camisinha, e o número mais alto de parceiros sexuais fazem com que um homem homossexual tenha nada menos do que 200 vezes mais chances de contrair a doença do que um heterossexual francês, de acordo com a pesquisa.

As associações de prevenção à aids, no entanto, dissociam os dados da pesquisa a uma maior estigmatização do público homossexual em relação à doença. “Essa é uma realidade da doença, não se pode negar”, afirma Francis G., um porta-voz da associação Sidaction, a principal do gênero na França.

“No início da epidemia, o público mais atingido era dividido entre homens homossexuais, mulheres imigrantes e usuários de drogas. Nos dois últimos casos, as campanhas de prevenção funcionaram, mas, infelizmente, entre os gays nós não conseguimos os mesmos resultados”, lamenta Francis. De acordo com ele, hoje as mulheres imigrantes e os usuários de drogas respondem por 2% das contaminações, ou seja, não representam mais um chamado “grupo de risco”.

A ligação entre o vírus HIV e o público gay é tão antiga quanto a própria doença. Os primeiros sintomas da aids foram percebidos em homossexuais americanos, na década de 70. No início dos anos 80, a doença – até então misteriosa – chegou a ser chamada de GRID (Gay-related immune deficiency, ou imunodeficiência relacionada aos gays). No Brasil, ela também apareceu pela primeira vez entre o público homossexual.

“Essa pesquisa nos mostra que, se quisermos reverter os números, precisamos redirecionar as campanhas e aumentar os investimentos realizados em prevenção”, avalia Christian Andreo, diretor nacional de campanhas da associação Aides. “Acho que o maior problema se concentra no interior do país, onde as relações homossexuais ainda são escondidas e ocasionais. Nestes casos, a pessoa acha que está imune, e é aí que mora o perigo.”

Andreo afirma desconhecer os dados relativos ao restante da Europa. Ele destaca que cada país tem a sua característica e que, em muitos deles, a população mais afetada pela doença ainda é a de usuários de drogas.

Alerta na Europa
Na sexta-feira, a vez da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou os países europeus sobre o ainda elevado número de contaminações. De acordo com a organização, a Europa é o único continente onde o índice de doentes de aids continua crescendo. A OMS destacou que a causa para essa estatística desfavorável na Europa Ocidental é justamente o crescente número de relações homossexuais desprotegidas, indicando que os números elevados de contaminações entre os homossexuais não acontecem apenas na França.

Desde 2003, o número global de novas contaminações pelo vírus vinha baixando em média 3,7% no país. Já entre os homossexuais, a tendência pela estabilidade se mostrava em contrário: em torno de 1% dos homossexuais masculinos permaneceram contraindo ano a ano a doença até 2008, contra 0,009% dos heterossexuais. O total de contaminações anuais passou de 8.930, em 2003, para 6.940, em 2008.

Analisando-se apenas a população de homossexuais, os dados da pesquisa mostram que entre 13% e 18% dos gays dos gays são soropositivos na França, uma estatística comparável à encontrada nos países da África subssariana, onde a epidemia é muito maior. Em países como Moçambique e Zâmbia, há cidades onde até 20% da população é soropositiva.

O diretor da Aides, por outro lado, demonstra particular preocupação em relação à quantidade cada vez maior de pessoas que fazem sexo sem preservativos, mesmo se os tratamentos antivirais têm diminuído as chances de contaminação pelo HIV – que foi, ironicamente, co-descoberto por um cientista francês em 1983.

“É um fenômeno global. Com o avanço da medicina, as pessoas estão abandonando a prevenção”, lamenta. “A diferença é que os homossexuais são mais expostos à contaminação. Nós estimamos que um homossexual a cada entre cinco e oito seja soropositivo”, diz Andreo. De acordo com ele, um jovem gay de 25 anos tem mil vezes mais chances de encontrar um parceiro soropositivo do que um heterossexual.

(Portal Terra)