GAINESVILLE — A porta da igreja “Dove World” anda cercada de jornalistas, mas ninguém que não seja um de seus 50 membros pode entrar: seu pastor atraiu as atenções mundiais depois de anunciar que queimaria 200 exemplares do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, no nono aniversário dos atentados do 11/9, e as redes de televisão do mundo inteiro montam guarda no local.

Todos estão à espera da decisão do pastor Terry Jones, idealizador do projeto, querendo saber se ele vai ou não adiante com a ideia da fogueira de livros santos do islã, religião considerada “demoníaca” por seus seguidores.

Nesta sexta-feira, o religioso disse ter decidido suspender o ato público – sem, no entanto, soar definitivo: “Neste momento não temos planos de fazê-lo”, afirmou, em entrevista à ABC News.

“Não estamos fazendo isso em busca de publicidade”, destacou por sua vez o pastor Luke Jones, 29 anos, filho do reverendo Terry.

Com uma pistola na cintura e uma tatuagem da bandeira americana no punho e antebraço, Luke Jones defende a iniciativa do pai, mas pondera que desistir dela foi a melhor opção.

“Não sei se vamos conseguir mais membros por ter feito o que fizemos, mas acho que foi uma boa ideia porque todos estão contentes”, estimou.

Também com uma pistola na cintura, Stephanie, membro da igreja, caminha em frente à igreja e responde e-mails no celular. Ela é casada com Wayne Sapp, segundo pastor da Dove World, que tem mantido contato com a imprensa em nome da igreja nos últimos dias.

“Recebemos 30.000 e-mails nos últimos dois dias”, contou à AFP David Ingram, que trabalha como administrador do templo. “As mensagens são de apoio, mas também vagas ameaças”.

“E o telefone não para de tocar com pessoas querendo entrevistas com o pastor Jones”.

Fundada em 1986 em Gainesville, a igreja Dove World Outreach Center segue uma linha ultraconservadora, denunciando o aborto e a homossexualidade e acusando o islã de querer dominar o mundo.

Atravessando a rua, um grupo de moradores observa e se queixa, impotente, do circo midiático armado em torno da pequena igreja. Alguns protestam com cartazes.

“Terry Jones, você é o demônio. Não vá para Nova York, vá para o inferno”, diz um cartaz carregado por Maria Mamatsios, que vive a duas quadras da Dove World.

“Gainesville é um bom lugar, respeitamos as pessoas nossos vizinhos muçulmanos. Não sabemos quem é esse Terry Jones, nem de onde ele saiu”, disse Mamatsios, de 60 anos, visivelmente revoltada com a confusão criada pelo pastor.

O plano de Jones, de atear fogo a 200 exemplares do Alcorão em pleno 11 de setembro, gerou uma onda mundial de protestos, incluindo as do presidente americano, Baracak Obama, e do papa bento XVI. Países como Índia e Indonésia não só condenaram a ideia como também exortaram o governo americano a impedir que o pastor a realizasse.

No Afeganistão, milhares de pessoas se manifestaram nas ruas de um povoado perto de Cabul, protestando contra os cristãos e os Estados Unidos.

(Agência AFP)