O segundo semestre do ano letivo avança e, com a chegada do fim do ano, intensifica-se a rotina de estudos para as seletas turmas de colégios que, em Fortaleza, fazem a preparação para o vestibular de escolas militares. Mergulhados na aprendizagem de disciplinas consideradas áridas, como Matemática e Física, muitos desses pequenos “gênios” enfrentam uma maratona que, mais uma vez, poderá colocar a Cidade entre as capitais de maiores índices de aprovação nesses concursos, tidos como os mais difíceis do País.

Alunos das “Turmas ITA”, como ficarão conhecidas, costumeiramente começam a estudar no início da manhã e vão até 22h ou 23h diariamente, com paradas apenas para as refeições ou urgências do dia a dia. Nos fins de semana, também, não abandonam os livros. O certo é que a competição entre os colégios e a dedicação extrema dos estudantes vêm surtindo efeito. Dentre os 120 calouros deste ano no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), 30 são de Fortaleza, dos quais 27 homens e três mulheres.

Para se ter uma ideia do desempenho dos estudantes cearenses no último vestibular do ITA – realizado em dezembro de 2009 para o corrente ano letivo -, São Paulo aprovou apenas 12 alunos e igual número registrou-se na cidade do Rio de Janeiro. O nível de aprovação de Fortaleza perdeu somente para São José dos Campos (SP), onde está sediado o ITA, a escola militar mais concorrida do País. Em seu último vestibular, por exemplo, foram 54,2 candidatos concorrendo a uma vaga.

O ITA é uma instituição de ensino superior ligada ao Comando da Aeronáutica. Está localizado no Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial (CTA) e possui cursos de graduação e pós-graduação em áreas de Engenharia, principalmente no setor Aeroespacial, sendo considerado um centro de referência no ensino da área. Também em Fortaleza é grande a procura por uma vaga no Instituto Militar de Engenharia (IME), localizado no Rio de Janeiro e que oferece dez cursos, dentre eles, Engenharia da Fortificação e Engenharia de Comunicações.

A unidade de preparação para o Exército é a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que tem sua origem em 1792, com a criação da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, a primeira escola militar das Américas. Porém, como para ingressar na instituição, o aluno precisa ter feito o 3º ano do Ensino Médio na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (Especex), a Aman fica fora da concorrência entre alunos de escolas da rede privada.

“A disputa é mesmo acirrada”, admite um dos criadores no Ceará desses cursos, o professor Francisco Nazareno de Oliveira. Em 1989, quando o Ceará aprovava um ou dois alunos no ITA, ele visitou as escolas Impacto e Anglo, no Rio de Janeiro, e Objetivo, em São Paulo. Na ocasião, ele observou os pontos positivos e negativos do ensino naquelas cidades e aprimorou a ideia. “Criamos, aqui, nossa estrutura”, completa Nazareno Oliveira, que, na época, ensinava no Colégio Geo Estúdio, unidade que formou a primeira turma de jovens para disputar uma vaga nas escolas militares, com um total de 30 alunos.

“No ano seguinte, tivemos três aprovados”, diz. A partir dali, a Cidade começou a se destacar nesses vestibulares. Em 1990, foram nove aprovados e, em 1991, 16. “Nesse ano, o Ceará despontou no cenário nacional com o maior índice de selecionados e foi até tema de matérias publicadas em revistas nacionais”, lembra.

O fato é que, atualmente, seis escolas formam as chamadas Turmas ITA: Colégio Farias Brito, Ari de Sá, 7 de Setembro, Christus, Master e Antares. Nelas, alunos começam a se preparar quando ingressam no primeiro ano do Ensino Médio.

Centros de excelência

Para Nazareno de Oliveira, hoje diretor geral do Master, o Ceará “não tem uma universidade de ponta como ITA, IME, USP ou Unicamp. Por isso, muitos buscam centros de excelência fora do nosso Estado”.

Já o professor do Farias Brito Jorge Cruz observa que, normalmente, ao terminar o curso superior oferecido pelas escolas militares, o aluno conta com emprego garantido, pois os formandos são visados por empresas de grande porte no Brasil e em outros países do mundo. “Os selecionados nesses processos são de altíssimo nível”.

CIÊNCIAS EXATAS
Aluna destaca gosto pela Matemática

“O domingo, geralmente, tiro para descanso e lazer porque, só estudar, a gente não aguenta”, dispara Isabela Maria Novais de Magalhães, 17 anos. Além das atividades em sala de aula, ela costuma estudar, a mais, de seis a oito horas diariamente. Isabela é uma das três mulheres da Turma ITA do Colégio 7 de Setembro – localizado no Centro de Fortaleza – e que é composta por mais 40 rapazes.

O sonho da estudante é passar para o curso de Engenharia Eletrônica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Gosto de Matemática e Física”, diz, ressaltando seu fascínio pelo universo das novas tecnologias.

Esses são alguns dos motivos que a levaram a enfrentar a maratona de estudos que inclui, ainda, aulas extras aos sábados; vestibulares simulados, geralmente, semanais; e uma rotina que a faz, muitas vezes, abrir mão do lazer, comum para uma garota da sua idade. “Então, domingo não dá para estudar, nem que eu quisesse”.

Como muitos de seus colegas de turma, Isabela não demonstra fascínio por disciplinas relacionadas às Ciências Humanas, como História, Literatura ou leituras gerais. Nas raríssimas horas vagas de que dispõe, costuma ler publicações sobre novas tecnologias e informática.

A presença da mulher entre os candidatos para essas escolas vem aumentando. Ainda assim, no último vestibular para o ITA, dos inscritos, apenas 21,3% eram mulheres. É o mito da rigidez militar um dos fatores para a minoria feminina entre seus alunos. Localizado em São José dos Campos, a 900 quilômetros de São Paulo, o ITA promove a ciência aeroespacial.

EMPREGO E SALÁRIO
“Foi uma escolha minha”

Em dezembro, Marcos Henrique Diógenes de Oliveira, 19 anos, aluno do Colégio Ari de Sá da Aldeota desde a alfabetização, tentará ingressar no ITA pela terceira vez. “Enfrento uma carga de estudo pesada e, às vezes, tenho a sensação de que estou me sacrificando muito. Então, paro e penso: foi uma escolha minha”.

“Minha vocação é para as ciências exatas”, afirma ele, justificando a determinação em não abrir mão do sonho. Outro motivo da persistência é a promessa de emprego certo, bons salários e o reconhecimento profissional que, em geral, conquistam os profissionais formados nessas instituições militares.

Para Marcos Henrique, que também está inscrito no vestibular do IME, as possibilidades que se apresentam aos concludentes compensa uma rotina diária voltada quase inteiramente para os estudos e que pode incluir até o fim de semana.

Também admite que, na primeira tentativa, ainda com 17 anos incompletos, julgou estar preparado para a disputa. “Eu me enganei. Era preciso mais esforço”, frisa. No ITA, ele irá concorrer a uma vaga para Engenharia Mecânica e, no IME, para Engenharia da Computação. “Será uma alegria muito grande se eu passar”, diz, com os olhos já brilhando de emoção.

O aluno lembra que o colégio oferece todas as condições necessárias para quem quer se preparar diante da concorrência, inclusive com assistência psicológica. “Desta vez, estou mais tranquilo”, comenta, adiantando, contudo, que em caso de insucesso, não teria mais coragem de insistir no projeto.

SUPORTE
Escolas também entram na disputa

Qual é o perfil do aluno que disputa uma vaga nas escolas militares? Dez entre dez professores dos cursos preparatórios respondem: são extremamente estudiosos e determinados, gostam de desafios e têm sólida base no processo de aprendizagem. “Eles apresentam muita facilidade com a Matemática, com os cálculos”, completa Estênio Sabóia, um dos coordenadores do Colégio Ari de Sá.

Segundo ele, o vestibular do ITA é o de maior concorrência do País, ainda assim, é o mais procurado pelos alunos do Ari. “Dos estudantes que desejam uma escola militar, pelo menos 90% querem ingressar no ITA”, explica, adiantando que a tradição e o reconhecimento do instituto são determinantes.

“Quem conclui uma escola dessa tem emprego garantido”, diz, enfatizando, ainda, as chances de estágios oferecidas por multinacionais antes mesmo de o aluno terminar o curso. “Eles vão para França ou Alemanha. Terminam o curso quando retornam”, afirma, ressaltando que o mercado financeiro “fica de olho neles, pois possuem raciocínio lógico muito apurado”.

O fato é que os atrativos das escolas militares fazem muitos jovens passar o dia no colégio. Num turno, eles assistem às aulas; no outro, estudam com os colegas. “A gente se ajuda ou recorre aos professores”, diz Renan Pablo Rodrigues, do 7 de Setembro. Rotina pesada enfrenta também João Vitor Sousa, do Ari de Sá. “Fico no Ari até as 21 horas”, confessa. A meta dos dois: ingressar no ITA.

Os alunos desses cursinhos passam a maior parte do tempo na escola, onde dispõem de biblioteca específica para eles, laboratórios de redação e salas de estudo. Além do suporte oferecido pelos professores, participam dos vestibulares simulados, acrescenta o professor Jorge Cruz, do Farias Brito.

(Diário do Nordeste)