Em poucos segundos, um histórico palco do futebol nordestino se transformou em uma montanha de entulhos. Jogos memoráveis, gols espetaculares, jogadores inesquecíveis pisaram no gramado do Estádio Octávio Mangabeira, mais conhecido como Fonte Nova, em Salvador, nos seus 59 anos. Neste domingo, às 10h, ele deixou de existir.
O anel superior foi demolido. Com ele, foi-se ricos momentos de alegrias e difíceis instantes de tristeza e agonia. Em seu lugar, será erguido um novo estádio. Moderno e confortável. Palco para um novo momento do futebol baiano e nordestino. Montado para a Copa do Mundo de 2014.

Essa foi a primeira implosão de um estádio de futebol na América Latina. O consórcio responsável pela obra foi formado pelas empresas OAS e Odebrecht, o mesmo que vai construir a arena pernambucana. Assim que o dia amanheceu, todo o entorno, em uma raio de dois quilômetros e meio do estádio, foi evacuado. A previsão é que duas mil pessoas foram retiradas de suas residências. Foram utilizados cerca de 700 quilos de explosivos para colocar no chão algo em torno de 10 mil metros cúbicos de concreto.

Todo o processo de implosão foi muito bem cuidado e ecologicamante correto. Os pilares onde colocaram os explosivos, por exemplo, foram revestidos com uma tela metálica e uma manta geotêxtil. O objetivo foi impedir que os resíduos se projetassem e afetassem o sítio do patrimônio, como o Dique do Tororó e a Fonte das Pedras.

A Arena Fonte Nova vai custar R$ 591,7 milhões. O projeto é ousado e terá alguns aspectos mantidos do antigo estádio. O formato em ferradura, por exemplo, continuará com a abertura para o Dique do Tororó, um dos pontos turísticos da cidade de Salvador.

Triste fim – Palco de muitas alegrias, a antiga Fonte Nova sai de cena depois de três anos fechada. Sua última lembrança não agrada em nada aos baianos. Em 25 de novembro de 2007, o Bahia enfrentou o Vila Nova-GO, pelo Brasileiro da Série C. Aos 43 minutos do segundo, parte da arquibancada superior ruiu e causou a morte de sete torcedores. Alguns meses antes, a tragédia foi “anunciada” quando um estudo feito por engenheiros apontou a Fonte Nova como um dos piores do Brasil.

Com a interdição, o estádio virou abrigo para moradores sem teto e ponto de tráfico e consumo de drogas. Um triste fim com uma total imagem de abandono. O curioso é que o anel inferior já foi removido.

Curiosidades

Cinco decisões nacionais
O Estádio Octávio Mangabeira foi palco de cinco finais nacionais, sendo três na extinta Taça Brasil (1959, 1961 e 1963) e duas no Brasileirão (1988 e 1993). O Bahia chegou em quatro delas e nas três primeiras sempre contra o Santos, de Pelé.

Em 59 sagrou-se campeão com o primeiro jogo na Fonte Nova e a finalíssima no Maracanã. Em 63, o Santos levantou o troféu e deu a volta olímpica dentro da Fonte Nova mesmo. Em 89, o Tricolor baiano também conquistou o título depois do jogo de ida em casa, foi até o Estádio Beira Rio/RS e bateu o Internacional.

O Vitória também levou uma final de Campeonato Brasileiro para a Fonte Nova, em 93, mas não conseguiu faturar o título. O atacante baiano Edilson, que jogava no Palmeiras, fez o gol do título para o time paulista.

Vaias para Birro Doido
Birro Doido era o apelido do zagueiro Nildo, do Bahia, no final da década de 60. Ele nunca esperava receber a maior vaia de sua vida ao evitar um gol do adversário na Fonte Nova. Cerca de 50 mil torcedoresecoaram um grito de protesto naquela tarde de 16 de novembro de 1969. É que o adversário não era qualquer um. E sim o Santos, de Pelé.

Além disso, o Rei tinha contabilizado 999 gols até aquela partida. A expectativa da Fonte Nova ser o palco do milésimo gol de Pelé era enorme entre os torcedores. Depois de uma jogada genial, Pelé driblou o goleiro e deu apenas um toque na bola já se preparando para comemorar.

Mas, Birro Doido chegou a tempo e, na risca do gol, evita o milésimo gol do Rei. A vaia ecoou em todo o estádio e jogo terminou empatado em 1 x 1.

Públicos recordes
A partida envolvendo Bahia x Fluminense, pela semifinal da Copa União de 1988, marcou o maior público da história do Estádio Fonte Nova. Nada mais nada menos que 110.438 torcedores, em sua maioria esmagadora tricolores, pagaram ingresso para ver sua equipe vencer por 2 x 1, de virada.

Dia de clássico BA-VI, por exemplo, sempre deixou o estádio cheio. Em 7 de agosto de 1994, a rivalidade entre Bahia e Vitória levou pouco mais de 97 mil torcedores à Fonte Nova para mais uma final de Campeonato Baiano. Com um gol de Ruadinei, aos 46 minutos do segundo tempo, o Bahia empatou o jogo e sagrou-se bicampeão.

Haja pancadaria e expulsões
Um fato curioso aconteceu em 13 de maio de 1973, um domingo dias das mães. Bahia e Vitória realizavam mais um clássico quentíssimo quando, aos 18 minutos do segundo tempo, iniciou-se uma briga generalizada dentro de campo. O jogo terminou depois que todos os 22 jogadores foram expulsos.

Além deles também receberam o cartão vermelho os reservas dos dois times e muitos dirigentes, que invadiram o campo. O ex-presidente do Bahia, Paulo Maracajá foi um deles.

Fonte vazia para Seleção
Um dos momentos mais marcantes do Estádio Fonte Nova foi vivido pelo Seleção Brasileira. Momentos de constrangimento. Tudo por conta do corto do atacante Charles, que tinha se sagrado campeão nacional pelo Bahia, em 1989. A Canarinha foi vaiada do início ao final da partida. Como uma atitude de protesto apenas 18 mil torcedores com o único objetivo de mostrar a indignação do povo baiano.

Megashows
A Fonte Nova não fol palco apenas de futebol. Eventos importantes da música nacional e internacional aconteceram no estádio. Em maio de 1980, por exemplo, cerca de 50 mil pessoas assistiram a uma apresentação de Gilberto Gil e Jimmy Cliff.

Em 1985 foi a vez dos garotos porto-riquenhos do Menudos cantarem no estádio. Até mesmo a Rainha dos Baixinhos, Xuxa, já se apresentou em um super palco no Octávio Mangabeira. A gravação do DVD de Ivete Sangalo, em 2003, reuniu mais de 80 mil pessoas no último grande espetáculo na Fonte Nova.

(Portal Superesportes)

Anúncios