Aos três anos, o pequeno Carlos Samuel Timóteo vai falar papai e mamãe pela primeira vez. Ele nasceu com perda auditiva total bilateral e, por isso, nunca aprendeu a falar. Só se comunica por gestos, olhares e sons quase incompreensíveis. Ontem, ele passou por cirurgia de implante coclear, a primeira realizada pelo Hospital Geral de Fortaleza (HGF), e recebeu o ouvido biônico. Daqui a 30 dias, após a cicatrização e implantação da parte externa do aparelho, ele vai poder ouvir e, enfim, começar a falar.

“Estou preocupada com a cirurgia, mas contente porque ele vai descobrir um novo mundo, que é o mundo dos sons”, aguarda ansiosa a mãe, a dona de casa Sílvia Carla Timóteo Alves, 26. Ela conta que, em Jucás (município a 414 quilômetros da Capital), onde eles moram, Samuel estudava em uma escola especial e já estava aprendendo Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). Mas ainda não era suficiente. Ela e o esposo sonhavam em ver o menino ouvindo e falando. Por isso, a corrida pelo implante coclear.

Com a mesma expectativa a mãe de Nicole Silva de Sousa, 7, a dona de casa Francineide Santiago, 38, que mora em Horizonte (Região Metropolitana de Fortaleza), aguardava a cirurgia da filha. Ontem, a menina foi a segunda a implantar o ouvido biônico. A perda auditiva total foi diagnosticada aos dois anos. Nicole ainda conseguiu aprender algumas palavras, com ajuda de um aparelho auditivo, mas nada comparado ao prazer de ouvir bem e aprender a falar com clareza. “O que ela mais quer é falar e escutar o Pica Pau”, diz a mãe.

Como funciona


Em dezembro de 2009, o HGF foi credenciado para realizar cirurgias de implante coclear pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O procedimento, que dura, em média três horas, de acordo com o médico cirurgião otorrinolaringologista, João Deodato Diógenes Carvalho, consiste em inserir um pequeno aparelho com um eletrodo dentro da cóclea. A peça vai captar o som, e enviá-lo, em forma de impulsos elétricos, até o cérebro, onde será interpretado como estímulo sonoro. A cirurgia é indicada para quem tem perda auditiva total bilateral (nos dois ouvidos).

Após o procedimento, o paciente tem de esperar 30 dias para colocar a parte externa do aparelho, que funcionará como um processador do som do ambiente. Depois disso, é necessário acompanhamento com fonoaudiólogo para que a pessoa aprenda a ouvir e a falar. Cerca de 90 pessoas estão na fila de espera para realizar o transplante no HGF. A expectativa do hospital é realizar 24 procedimentos por ano.

O QUE É A CÓCLEA

A cóclea é uma estrutura do ouvido interno, semelhante a um caracol, que transforma vibrações em impulsos elétricos que são encaminhados para o cérebro, por meio dos nervos auditivos.

O implante coclear é realizado pelo SUS desde 2000. Em todo o Brasil, o procedimento está disponível em 17 unidades de saúde.

Quem sofre de surdez profunda possui a cóclea danificada, o que impede a transmissão desses impulsos elétricos. Isso faz com que o som não chegue ao cérebro, causando a surdez.

( O Povo Online)