Discreto casal do norte da Argentina estreia lei que legaliza casamento gay

Buenos Aires, 30 jul (EFE).- Um aposentado e um divorciado madrugaram hoje para se tornarem o primeiro casal homossexual a se casar dentro da lei na Argentina e vencer, assim, uma acirrada corrida contra um ator e seu agente, que tiveram que conformar-se com o segundo lugar desta peculiar competição.

Embora o ator Ernesto Larrese e o agente Alejandro Vannelli tenham se apresentado como o primeiro casamento homossexual, depois de se casarem em Buenos Aires, os primeiros, na verdade, foram um arquiteto divorciado e um administrador aposentado, que anteciparam em quase quatro horas sua vez no cartório de Santiago del Estero, no norte do país, para ocupar o topo deste pódio simbólico.

José Luis David Navarro, de 54 anos, e Miguel Ángel Calefato, de 65, se casaram na cidade de Frias, às 7h30 locais, em uma cerimônia discreta e familiar.

Alheios à promessa feita pela secretaria de Turismo da capital do México de oferecer uma lua-de-mel grátis no país ao primeiro casal homossexual que se casasse na Argentina, Navarro e Calefato não têm grandes planos de comemorar seu casamento, além de fazerem uma festa íntima, porque não gostam de “tradições impostas pela sociedade”, com as luas-de-mel.

O casal se conheceu há 27 anos na turística cidade litorânea de Mar del Plata, quando José Luis estava casado e Miguel Ángel tinha um namorado.

“Nós dois tínhamos outras relações, mas sentimos que a nossa ligação era muito forte, que fomos feitos um para o outro, que queríamos compartilhar a vida e lutar juntos pelo que desejávamos”, disse Navarro à Agência Efe, que poucos meses depois se divorciou de sua mulher e foi viver com Calefato, primeiro em Buenos Aires, cidade natal de seu hoje marido, e posteriormente em Santiago del Estero.

Duas horas depois do casamento, Larrese e Vanelli foram os primeiros a casar-se em Buenos Aires, em uma movimentada cerimônia na qual não faltaram familiares, convidados e um bom número de jornalistas.

O casal, que namorou durante 34 anos, se casaria no dia 13 de agosto, mas o registro civil aprovou seu adiantamento em reconhecimento por sua luta pelos direitos dos homossexuais e em compensação por ter rejeitado uma solicitação de casamento que apresentaram há três anos.

“Estou muito emocionado. É um momento maravilhoso. Não tenho palavras para agradecer”, disse Vannelli, de 61 anos, sem conter as lágrimas.

“Vejam como ele é lindo. Como eu não seria apaixonado por ele se é o mais lindo que existe no mundo?”, brincou, sem tirar os olhos de seu marido.

“A todos os homofóbicos, digo que vocês podem ficar tranquilos, que não vai acontece nada que os prejudique, não têm nada do que ter medo. Qualquer fobia é curada com amor. E o resultado é mais amor, mais igualdade, e isso é mais que positivo”, disse Larrese.

Mais de 200 casais de homossexuais solicitaram turnos para se casar no país, seguindo o exemplo dos dois que estrearam hoje a lei que legaliza o casamento homossexual na Argentina, aprovada pelo Senado no último dia 16 e que é a pioneira na América Latina.

Amanhã, outros três casais de homens, um deles formados por dois cidadãos chilenos que moram na Argentina há 14 anos, se casarão em diferentes províncias da Argentina.

Na terça-feira, o vereador da cidade argentina de Bella Vista, no norte do país, Rody Humano se casará com o diretor de Turismo da cidade, Juan Carlos Lizárraga, no registro de Tucumán, e será o primeiro travesti a se casar no país.

Humano, de 38 anos, foi em 2003 o primeiro vereador travesti da Argentina.

Antes da reforma legal, nove casais tinham se casado no país com permissões judiciais, mas alguns dos casamentos foram posteriormente cancelados e estão pendentes de apelação.

(EFE)