A brutal celeuma armada pelo PSDB em torno do candidato a vice-presidente na chapa de José Serra foi, sem qualquer sombra de dúvida, o maior erro de condução cometido até agora na campanha ao Planalto, dentre todos os postulantes. Foi uma patacoada de tal magnitude que se mostrou capaz de ofuscar todos os deslizes cometidos pelos demais candidatos ou seus staffs. E o pior é que, mais do que uma mera gafe (como, por exemplo, a foto de Norma Bengell no site de Dilma Rousseff), trata-se de uma grande barbeiragem política. O surpreendente disto é que, no contraste entre a candidata petista e seu rival tucano, este é sempre notado (justificadamente, aliás) como o mais experiente em disputas eleitorais, o mais rodado nos embates políticos e o mais desenvolto na cena pública. Contudo, mesmo com tal currículo de político calejado, Serra foi capaz de meter os pés pelas mãos naquilo que é o mais fundamental numa eleição em presidencialismo de coalizão – a construção da coligação.

As razões desta presepada podem ser buscadas em origens mais longínquas (o antigo desapreço recíproco entre José Serra e o antigo PFL, hoje DEM), ou no processo mais recente – a definição da candidatura tucana na disputa interna entre o atual postulante e Aécio Neves.

Se buscarmos as fontes remotas, poderíamos recordar o quão difícil foi o relacionamento entre PSDB e PFL ao final do governo Fernando Henrique Cardoso, quando a candidatura do ministro da saúde foi gestada no ninho tucano, imediatamente deflagrando sinais de repulsa na seara pefelista – notadamente por parte de Antônio Carlos Magalhães, que manifestava publicamente sua rejeição a Serra. O ápice dessa conflagração foi a operação da Polícia Federal na empresa Lunus, de propriedade da família Sarney. As imagens de uma montanha de dinheiro vivo descoberta dentro de seus cofres devastaram a até então bastante promissora pré-candidatura pefelista de Roseana Sarney (basta lembrar que em março de 2002 o Ibope mostrava Roseana tecnicamente empatada com Serra e Anthony Garotinho, em segundo lugar, com 13% das intenções de voto). À época diversos caciques pefelistas atribuíram a Serra a operação policial que abortou sua chance de chegar ao Planalto com uma candidatura própria, rompendo com o governo e com o PSDB. Por isto mesmo, os tucanos disputaram as eleições daquele ano coligados ao PMDB – uma união sacramentada pela unção de Rita Camata como candidata vice-presidencial. O PFL ficou de fora da disputa nacional.

Com a vitória do PT nas eleições presidenciais, a ida para a oposição de tucanos e pefelistas os reaproximou, permitindo-lhes uma estratégica aliança na cidade de São Paulo com Serra, que bancou o nome de Gilberto Kassab para compor a chapa. Coincidentemente, já nessa eleição a questão do vice de Serra ganhou importância na disputa, pois seus adversários afirmavam que o eleitor paulistano votaria no tucano, mas acabaria sendo governado pelo pefelista, já que Serra provavelmente abandonaria a prefeitura para disputar a Presidência. O tucano jurou que não faria isto, registrando a promessa em cartório, mas acabou por descumpri-la para candidatar-se não a presidente, mas a governador do Estado; e o vaticínio petista se cumpriu: o PFL (ou DEM) passou a governar a capital paulista. Ora, como quase ninguém vota em vice, a maioria dos eleitores paulistanos deu pouca importância à advertência: votou em Serra e topou correr o risco, referendando depois essa escolha ao reeleger Kassab.

A aproximação com o DEM sugeria que Serra optara por estabelecer a ponte com um partido que, apesar de seu desafeto pessoal, era o aliado nacional mais importante de sua própria agremiação. Tal percepção era reforçada pelo empenho serrista na reeleição de Kassab, cristianizando o postulante tucano Geraldo Alckmin – depois reabilitado ao ser nomeado secretário e, conseqüentemente, catapultado a uma aparentemente fácil eleição governatorial. E tudo parecia confirmar a aproximação: o vice naturalmente viria do DEM, exceto se Aécio Neves topasse ir para o sacrifício e compusesse a chapa, pois isto supostamente reforçaria a candidatura em Minas Gerais. Foi justamente esta remota possibilidade em aberto que parece ter propiciado o embaralhamento do jogo.

Em nosso presidencialismo de coalizão a indicação do vice por um partido aliado significa basicamente uma coisa: a sacramentação de uma coligação eleitoral. E isto não é pouco, pois gera tempo de televisão e rádio no horário eleitoral gratuito, estrutura organizacional pelo país todo e articulação com as campanhas estaduais do partido aliado (sobretudo onde não houver disputas locais internas à coligação nacional). Para além disso, contudo, os ganhos são principalmente simbólicos, pois o vice pode representar a abertura da candidatura para um setor da sociedade (os empresários, as mulheres, uma região do país, um estado etc.). Os ganhos eleitorais diretos da indicação de um vice são muito pequenos – afinal, os eleitores olham muito pouco para o candidato a vice, de modo que não vale a pena gastar muita munição com isto. Por esta razão, foi um gravíssimo erro a coligação serrista ter perdido tanto tempo na expectativa de que Aécio levasse consigo um caminhão de votos mineiros, caso compusesse a chapa. Não só o seu aceite teria pouco peso na decisão do eleitor (mesmo o mineiro), como as cicatrizes deixadas pela disputa interna e os ganhos para Aécio na eleição para o Senado tornavam muito pouco provável que o ex-governador das Gerais entrasse nessa empreitada.

Mas se a indicação do vice indica tão somente a formalização duma aliança, é fazer muito estrago por pouca coisa denegar tal possibilidade a um aliado que não só a postula, como é a segunda força no campo da oposição; ainda mais para tentar resolver um problema de acerto político-familiar num dos únicos estados em que a situação eleitoral dos tucanos é boa, o Paraná. Pior do que o vexame público dessa patetice são os ressentimentos internos que ela tende a gerar dentro da coligação. Serra deu tanta importância à questão do vice que corre o risco de ficar com o vice-campeonato.

( Por Cláudio Gonçalves CoutoValor Online)

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