RIO – O escritor português e Prêmio Nobel de Literatura José Saramago morreu na ilha espanhola de Lanzarote, nesta sexta-feira, por volta das 8h (horário de Brasília). Ele tinha 87 anos. Em comunicado, a Fundação José Saramago informou que o ele não resistiu a “uma múltipla falha orgânica (falência múltipla de órgãos), após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila”. Ele era casado com a jornalista espanhola Pilar Del Río, que o descreveu como “homem de convicções firmes, capaz de estar sempre ao lado daqueles que sofrem”.

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Em frases, o pensamento de José Saramago

José Saramago é considerado um dos mais importantes escritores contemporâneos, autor de obras que atingiram reconhecimento mundial, como “O evangelho segundo Jesus Cristo”, “A jangada de pedra” e “Memorial do convento”. Sua obra “Ensaio sobre a cegueira” foi levada aos cinemas pelo brasileiro Fernando Meirelles ( veja o trailer do filme ) e o filme se tornou um sucesso mundial. Em 1998, sua prosa inventiva, a estética rigorosa e a constante preocupação social o fizeram merecer o Prêmio Nobel de Literatura.

Além de romances, Saramago publicou livros de poesias, contos, crônicas, memórias, peças teatrais e até um livro infantil, “A maior flor do mundo”, de 2001. Nos últimos anos, aderiu também à internet: em setembro de 2007, o escritor entrou no mundo virtual ao lançar o blog Cadernos de Saramago , onde comentava temas relacionados a política, literatura, religião e sociedade ou simplesmente escrevia relatos sobre suas viagens, muitas ao Brasil. No ano passado, sete meses de posts foram lançadas em livro, sob o título de “O caderno”.

Depois que o escritor deixou de escrever para o site, ele passou a ser atualizado diariamente pela Fundação José Saramago. Na manhã de sua morte, foi publicada uma reflexão do autor, reproduzida, com o título de “Pensar, pensar”, de uma entrevista a um jornal português de 2008: “Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Saramago nasceu no dia 16 de novembro de 1922, na pequena aldeia portuguesa de Azinhaga. Publicou o primeiro livro, “Terra do pecado” em 1947, quando tinha apenas 25 anos. Em 1980, publicou aquele que é considerado seu primeiro grande romance, “Levantado do chão”. Mas foi apenas em 1982, com a publicação de “Memorial do convento”, que seu estilo próprio, de frases longas e reflexivas, ausência de parágrafos para separar diálogos e utilização inusitada da pontuação, começou a chamar atenção. O livro se tornou um dos maiores sucessos comerciais do escritor, que até conseguir viver exclusivamente da literatura trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público.

Em 1983, Saramago foi agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante da literatura portuguesa. É a partir daí que escreve a maior parte de seus principais livros: “O ano da morte de Ricardo Reis” (1984), “A jangada de pedra” (1986), “História do cerco de Lisboa” (1989), “O evangelho segundo Jesus Cristo” (1991) e “Ensaio sobre a cegueira” (1995).

Com “O evangelho”, ficaram evidentes as diferenças do escritor com a Igreja Católica. Comunista, ateu e crítico ferrenho dos dogmas da Igreja, Saramago imagina em seu livro uma nova versão para a vida de Cristo, que foi considerada ofensiva por diversos setores da comunidade católica, a ponto de o então secretário de Estado português Sousa Lara proibi-lo de concorrer a um prêmio literário estatal. O escritor enfrentou uma perseguição religiosa em seu próprio país, que acabou levando-o a se mudar para a ilha de Lanzarote, onde viveu desde então.

Saramago era também um crítico constante do liberalismo econômico – segundo ele, o poder há muito tempo passou das mãos dos governos para as das multinacionais. O escritor lamentava ainda a falta de visão crítica da sociedade, tema ao qual sempre voltava em seus livros. “A estupidez não escolhe entre cegos e não cegos”, disse em 2008, a propósito do lançamento do filme “Ensaio sobre a cegueira”.

O escritor publicou no fim de 2009 seu último romance, “Caim”, um olhar irônico sobre o Velho Testamento. Como em 1991, o livro enfureceu a Igreja Católica .

(O Globo Online)