O sociólogo Emir Sader considera espantosa a falta de democracia da imprensa brasileira. Esse foi um dos cernes do seminário A Mídia e as Eleições 2010, realizado na sede do Sindicato dos Bancários de São Paulo na noite de quarta-feira 26.

Para Sader, que é autor de diversos artigos e livros sobre a realidade do país – o mais recente deles “Brasil, entre o Passado e o Futuro”, lançado também na quarta, no Sindicato – basta alinhar o que a imprensa tem dito e a forma como tem dito para avaliar o tamanho do problema causado por esse que é um dos mais poderosos setores do país.

“O presidente eleito tem dificuldade para falar com o povo. Dependemos do que a imprensa interpreta, diz, esconde. Lula não consegue prestar contas do seu governo aos cidadãos”, observou.

Sader destacou que o maior adversário para a eleição de Dilma Roussef e da continuidade do projeto político iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esse monopólio da mídia. “O consenso geral em torno do sucesso do governo levaria à continuidade, mas a eleição será apertada”, disse.

Ele lembrou que no Brasil as empresas de comunicação são oligarquias familiares. “O Otávio Frias Filho foi escolhido pelo Otávio Frias pai (do Grupo Folha), e é assim com os Civita (da Abril), os Mesquista (do Grupo Estado), os Marinho (da Rede Globo). Não há democracia interna nos jornais. Nem as pautas são decididas democraticamente, na redação.”

Para o sociólogo a mesma falta de democracia da imprensa se aplica aos movimentos sociais e de trabalhadores. “Se os bancários fazem greve são criminalizados.” Sader lembrou que a mesma coisa está acontecendo em relação à cobrança dos impostos. “As reportagens informa só quanto cobra, mas nunca os serviços prestados pelo governo.”

Publicidade

Os jornais não se financiam com o que os leitores pagam, mas pela publicidade, que é muito viciada. “Querem ganhar sempre os mesmos leitores, que viajam duas, três vezes por ano para o exterior, tomam uísque importado, trocam de carro todo ano. Uma classe privilegiada para quem vender publicidade”, explicou Sader.

Para ele, a mídia tem papel preponderante, influencia, mas não decide as eleições. “Fazem uma transmissão mesquinha e totalitária das informações. Do jeito que mostram as coisas, parece até que foram os sem-terra que introduziram a violência no campo e não foi assim. Isso é gravíssimo”, ressaltou. “O mundo do trabalho não aparece na televisão.”

Agora, Sader acha que o país vai decidir se o governo Lula foi um parênteses ou se vamos continuar essa trajetória de mudança. E sugere: “o combate ao capital especulativo e à hegemonia do capital financeiro; fortalecer a pequena e média empresa; democratizar a mídia para ouvir múltiplas opiniões, a voz das pessoas do povo”.

Estado

Emir Sader respondeu às perguntas dos internautas (o evento foi transmitido pelo site do Sindicato) e da platéia que encheu o Auditório Amarelo, na sede. Falou da política de cotas que para ele não resolve mas ajuda, minimiza desigualdades.

Questionado sobre pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipesp), divulgada pela revista Carta Capital, que aponta forte desconfiança do eleitorado em relação aos políticos e a todo noticiário sobre política, afirmou: “concorremos com o desinteresse pela política. A imprensa vende a ideia de que político é tudo a mesma coisa. Isso desalenta os jovens”.

O sociológo destacou que isso atende aos interesses do mercado. “O discurso da mídia é desqualificar o Estado e o poder, para poderem (o mercado) deitar e rolar. Foi o resgate da política e do Estado que fez o Brasil voltar a funcionar.”

(SEEB/SP)