Por Cynara Menezes, de Fortaleza- Carta Capital

É noite de segunda-feira no sertão do Cariri. Diante dos seguidores que lotavam o Tênis Clube da cidade do Crato, a calorenta terra natal do Padre Cícero, o candidato tucano à Presidência, José Serra, aparentava descontração no palanque. Até que não fez feio, para um paulistano da Mooca, ao puxar cantoria para Juazeiro e Último Pau-de-Arara, forrós imortalizados por Luiz Gonzaga. Estava tão à vontade que confessou ao público: “Sabem que quando cheguei tive a sensação de já ter vivido esse momento antes? Como se já tivesse entrado aqui, neste clube… Déja vu, não é assim que se diz?”

O ex-governador de São Paulo queria dizer que se sentia em casa entre os sertanejos, mas a sensação de déja vu do candidato é real. Serra já viveu este momento antes, exatamente oito anos atrás.
Como em 2002, o tucano precisa crescer no Nordeste para ter chances reais de ganhar a eleição. Nas mais recentes pesquisas dos institutos Vox Populi e Sensus, Dilma Rousseff mantém vantagem avassaladora na região. Segundo o Vox, a diferença é de 49% a 29% a favor da petista. No Sensus, chega a 50,2% a 29,3% quando na lista de candidatos constam apenas os nomes dos dois e da senadora Marina Silva. Por isso e mais uma vez, Serra tentará criar intimidade com os habitantes da região, repetindo, incansável, ter tido nordestinos entre os amiguinhos do jardim de infância na Mooca – embora, como costuma falar em seguida, não lembre com exatidão.

É improvável que Serra pague o mico de montar em jegue como fez Fernando Henrique Cardoso em 1994, e é seguro que o paladar delicado de quem não suporta alho sentirá engulhos ante um prato de buchada de bode. Fora isso, para melhorar sua performance em terras nordestinas, vale tudo, até dizer que “individualmente”, foi o político que mais fez pela região. Neoadepto dos comentários futebolísticos, o palmeirense chegou a declarar no Recife que torce pelo Sport, Náutico e Santa Cruz ao mesmo tempo.

Também como em 2002, Serra lançará oficialmente sua candidatura no Nordeste: se naquele ano foi no Piauí, neste será na Bahia, em 12 de junho. Novamente buscará um candidato a vice na região.

Da primeira vez em que se lançou à Presidência, tentou o potiguar Henrique Eduardo Alves, do PMDB, afastado por denúncias. Acabou obrigado a se contentar com a capixaba Rita Camata. Agora, fala-se no pernambucano Sergio Guerra, seu companheiro de PSDB (além do carioca Francisco Dornelles, para atrair o PP à aliança de oposição). Para FHC, funcionou com o democrata Marco Maciel, conterrâneo de Guerra, nas duas eleições a que concorreu.

Não se sabe até que ponto a escolha de um vice local poderá alavancar a votação de Serra, que carrega fama de antinordestino desde a primeira disputa, como fez questão de lembrar seu próprio aliado, o senador Tasso Jereissati, em almoço do candidato com empresários em Fortaleza na quarta-feira 19. Em 2002, Serra e Jereissati, que apoiou Ciro Gomes, não se bicavam. Neste ano, voltaram a se unir. Com Ciro fora da jogada, Serra inclusive passou a fazer elogios ao ex-pré-candidato do PSB. “Ciro é um homem honesto, batalhador”, disse o paulista sobre o cearense que, há oito anos, reputava “mentiroso”.

O ex-governador paulista parece disposto a engolir o orgulho em nome de diminuir a diferença na região em relação à ex-ministra de Lula. No momento, Serra aparece com percentuais semelhantes aos que obteve no segundo turno em 2002. A diferença é que neste meio tempo consolidaram-se os programas sociais e a trajetória de aumento do salário-mínimo, responsáveis por fazer o oponente de Lula em 2006, Geraldo Alckmin, ter menos votos ainda do que Serra entre os nordestinos. Mesmo com a simpatia quase generalizada da mídia nacional e regional, ganhar votos na região onde Lula é praticamente um santo é tarefa inglória e o candidato sabe disso.

O retrospecto lhe é francamente desfavorável: em 2002, Serra terminou em terceiro ou quarto lugar em quase todas as capitais nordestinas, menos Recife, e em quase todas do Norte do País, exceto Palmas no Tocantins. Isso sem o rival ter a seu lado, como agora, um presidente hiperpopular e apesar de o PSDB controlar a máquina na ocasião. Um mês antes da eleições, por exemplo, FHC providenciou a liberação de 400 milhões de reais aos usineiros da região. No segundo turno, Serra só ganhou em Alagoas, onde tinha o apoio de Renan Calheiros, do PMDB, hoje com Dilma Rousseff.

Já que o terreno não lhe parece promissor, o jeito é apelar para o divino. Pela primeira vez em seus 68 anos de vida, o presidenciável foi visitar o monumento favorito dos políticos em ano de eleição – justamente a estátua do cratense Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Escreveu seu nome aos pés da imagem do beato, amarrou fitinhas nos dois braços e rezou para o Padim Ciço olhar pelos seus netos e operar o milagre de lhe fazer brotar tantos votos no sertão quanto mandacarus.

Na mesma noite sob o céu cearense, explicitou a estratégia de não só encenar ser o candidato de oposição que dará continuidade ao governo Lula como de, nos grotões, por incrível que pareça, deixar crer que ainda é ministro da Saúde. Possivelmente orientado por pesquisas qualitativas, foi recebido na pequena Barbalha, vizinha a Juazeiro do Norte, como se ainda fizesse parte do governo de FHC.

Em visita-comício ao Hospital São Vicente de Paulo, foi saudado como ministro pelo locutor no carro de som, que citou a biografia do candidato em ordem inversa: prefeito de São Paulo, governador, ministro da Previdência e da Saúde. Serra também foi chamado de ministro por Jereissati. Ao receber o título de “benfeitor emérito”do hospital por ter “dado”14 milhões de reais ao seu centro de oncologia, sapecou: “Vamos continuar fazendo muito mais pela saúde do nosso povo”. Bem a propósito, a única faixa onde aparecia como “ex-ministro da Saúde”estava rasgada.

Somente nas cidades maiores, como Juazeiro e Fortaleza, é que Serra desfiava seu currículo completo de ex-ministro do governo Fernando Henrique, ex-prefeito e ex-governador de São Paulo. E só então fazia críticas à atual gestão na saúde, que, disse, “desacelerou”e “andou para trás”no governo Lula, prometendo “acabar com a demora nas consultas”. Em toda parte, declarou-se favorável ao Bolsa Família. “Aliás, fui eu quem fez um dos componentes do Bolsa Família, o Bolsa Escola”, gabou-se o candidato, observado de cima pelo gigantesco e indiferente Padim.

Se Dilma Rousseff lidera com folga no Nordeste, de acordo com as pesquisas mais recentes, os dois candidatos aparecem tecnicamente empatados no Sudeste, região com maior número de eleitores. O tucano está à frente nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul. Uma situação que, embora seja explicada por alguns como efeito de bairrismo, preconceito ou pela diferença no nível de escolaridade, é atribuída a razões econômicas pelo cientista político César Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro, autor do livro A Geografia do Voto nas Eleições Presidenciais do Brasil: 1989-2006 (editora PUC Rio), a ser lançado em junho.

“Os eleitores votam pelo bolso, tanto de um lado quanto do outro”, raciocina Jacob. “No Norte e Nordeste, eles votam na candidata do governo em razão da melhora da renda ocasionada pelo Bolsa Família. No Sul e Centro-Oeste, votam contra porque se sentiram prejudicados em seus negócios, sobretudo nas exportações, em virtude da desvalorização do dólar diante do real”. A tese do bolso faz sentido se levarmos em conta que, mesmo de origem pernambucana, Lula perdeu em 1994 e 1998 em quase todas as regiões, inclusive no Nordeste, para seu opositor, FHC, turbinado pelo Plano Real.

Atualmente, na política brasileira, a questão regional não é explicitada como na República Velha, quando havia partidos instituídos representando os mineiros e os paulistas. Até a Revolução de 1930, o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Republicano Mineiro (PRM) dominavam a política no País e se revezavam no poder no plano federal. O PRP elegeu nada menos que seis presidentes da República.

Hoje, segundo analistas, fazer campanha utilizando critérios regionalistas faz perder voto. “Ninguém pode falar nisso abertamente. Tampouco se pode ter voto só em São Paulo, como Paulo Maluf, ou só no Rio, como Leonel Brizola em 1989”, afirma Jacob. Mas é uma preocupação constante dos coordenadores das campanhas dar uma cor local tanto aos candidatos quanto à profusão de promessas. No caso de Serra com o Nordeste, além da saúde, tem prometido para a região construir a ferrovia Transnordestina e concluir a transposição do rio São Francisco – obra que o PSDB critica. Para o Ceará, prometeu uma siderúrgica e uma refinaria.

O problema para o tucano em convencer os nordestinos é que seu partido, ao longo dos anos, vem “paulistanizando”a disputa. Desde a primeira disputa presidencial, com Mário Covas à frente, em 1989, o candidato do PSDB é sempre escolhido em São Paulo – Fernando Henrique Cardoso, embora nascido no Rio, fez carreira política entre os bandeirantes. Neste ano, quando se anunciava a possibilidade de um mineiro, Aécio Neves, concorrer como candidato da legenda, foi novamente posto de lado pelo paulistano Serra. Segundo analistas de pesquisa, a mágoa dos mineiros com o chega-pra-lá no conterrâneo está na base da ascensão de Dilma Rousseff nas intenções de voto no estado. Os dois agora aparecem tecnicamente empatados.

Durante a campanha, os tucanos darão a entender que o PT não se preocupa com São Paulo, onde Serra tem atualmente boa vantagem: 41% a 28%. Já os petistas tentarão demonstrar que, ao contrário do rival PSDB, governa para todos os brasileiros. A escolha da ex-ministra da Casa Civil, mineira que fez carreira política no Rio Grande do Sul, não foi por acaso.

No último programa de tevê do partido, o presidente Lula deixou isso claro. “Dilma nasceu em Minas e amadureceu politicamente no Rio Grande do Sul. Tem a ternura e sensibilidade dos mineiros e a intrepidez dos gaúchos. Uma bela mistura que será importante para o Brasil”. Para rebater, o tucano tem dito nos lugares por onde passa que aprendeu há muito tempo, ainda no exílio, “a enxergar o Brasil como um todo”.

“Não sei se dará resultado, mas a pessoa da Dilma encarna a chapa Juscelino Kubitschek-João Goulart, um mineiro com um gaúcho. Afinal, é mineira e gaúcha”, compara o professor César Jacob. Para completar a estratégia, o paulista Michel Temer foi confirmado na semana que passou pela Executiva do PMDB como o nome que o partido indica para vice de Dilma. É pouco provável que a vinda de Temer agregue votos relevantes para a candidata governista em São Paulo, onde o presidente da Câmara foi o último colocado entre os três peemedebistas eleitos para o cargo de deputado federal em 2006, com 99 mil votos. Sua indicação tem outro objetivo. Atribui-se a Temer a capacidade de manter o PMDB minimamente unido. A ver. Em sua terra natal, o deputado terá de se mostrar capaz de conter a rebeldia de Orestes Quércia, que mantém, desde 2008, uma aliança com Serra e que ameaça contestar a indicação da executiva do partido. Há ainda a rebeldia do PMDB gaúcho, liderada pelo senador Pedro Simon, que ameaça lançar candidatura própria à Presidência.

Nos próximos dias, enquanto Dilma volta-se para o Sul, Serra mergulhará ainda mais em seu eterno retorno. A imprensa faz barulho e repercutiu fortemente a proposta do tucano de criar o Ministério da Segurança Pública, mas tem memória fraca. Houve idêntica promessa em 2002. Ser um candidato mais preparado para presidir o País que a oponente? Era o principal bordão de campanha de Serra quando perdeu para Lula. Em qualquer das pesquisas, o item “mais preparado”é o último fator dentre os considerados importantes pelo eleitorado.

Fingir ser o avesso do que realmente é para ganhar a eleição? Déja vu: em 2002, quando os eleitores queiram mudança, Serra criticava o governo do qual fazia parte para não ficar totalmente identificado com ele – condenou a extinção da Sudene por FHC, por exemplo. Agora que o desejo geral é por continuidade, elogia Lula na tentativa de se dissociar da oposição.

E que ninguém se espante se o passo seguinte do tucano for lançar o “Programa Novo Nordeste”, com estratégias para a região, como fez oito anos atrás, estratégia repetida por Geraldo Alckmin em 2006. De qualquer forma, cético ou não, há sempre a alternativa de apelar ao Padre Cícero.