Ausência de sentimento de culpa, arrependimento ou remorso pelo que faz de errado. Para a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, essa é uma das principais características do transtorno de personalidade antissocial, mais conhecido com psicopatia. Por isso, a autora do livro Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado recomenda que, ao identificar alguém que possui transtorno de personalidade antissocial, o ideal é manter distância. “Eles são capazes de passar por cima de qualquer pessoa para satisfazer seus próprios interesses“, explica.

Para a psiquiatra, é importante ressaltar que os psicopatas podem estar em qualquer ambiente de convívio social. São homens, mulheres, de qualquer raça, credo e nível social. Em sua grande maioria, eles não são assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns. Apenas em casos extremos, os psicopatas matam com requintes de crueldade.

Ela afirma ainda que o transtorno de personalidade antissocial não tem cura, pois não há como tratá-lo. Para ela, quando o assunto é saúde mental, só é possível tratar alguém que está em sofrimento e apresenta intenso desconforto emocional. E, no caso do psicopata, Ana Beatriz é enfática ao afirmar que não há deficiência cognitiva ou de raciocínio, mas no campo das emoções. Para a psiquiatra, tratar de um psicopata é uma “luta inglória“, pois a “psicopatia é um modo de ser“.

O POVO – Como a senhora define o psicopata?
Ana Beatriz Barbosa Silva – Psicopata é o indivíduo que apresenta um Transtorno de Personalidade, que se caracteriza por total ausência de sentimento de culpa, arrependimento ou remorso pelo que faz de errado; falta de empatia com outro e emoções de forma geral (amor, tristeza, medo, compaixão etc.). Eles são capazes de passar por cima de qualquer pessoa apenas para satisfazer seus sórdidos interesses.

OP – Qualquer pessoa que sofre de loucura pode ser um psicopata?
Ana Beatriz – Não. É muito comum as pessoas associarem psicopatia com loucura, mas isso é uma ideia equivocada. “Loucura“ é o que a medicina denomina surto psicótico (alucinações ou delírios), como ocorre com os portadores de esquizofrenia, por exemplo. Os esquizofrênicos vivem numa “realidade paralela“, fora de si, e, exatamente por isso, não têm noção do que fazem. Já os psicopatas sabem exatamente o que estão fazendo, que estão infringindo regras sociais, e que a vítima está sofrendo com suas atitudes maquiavélicas, imorais e antiéticas. Isso porque os psicopatas não apresentam problemas de ordem cognitiva ou deficiência de raciocínio, mas no campo das emoções: aquilo que nos vincula afetivamente com o outro.

OP – Todo psicopata é um serial killer?
Ana Beatriz – Somente uma pequena parcela dos psicopatas é serial killer ou assassino em série. A maioria sequer matou uma pessoa ou até mesmo apresenta uma aparência perversa. Os psicopatas leves e moderados (a maioria) são aqueles que vivem de golpes, roubos, fraudes, que engorda ilicitamente suas contas bancárias com o dinheiro público etc. Geralmente são charmosos, sedutores, inteligentes, demonstram ser pessoas “do bem“, possuem grande poder de persuasão e habilidade para enganar quem quer que seja. Outros (os graves), de fato, são assassinos ou até serial killers e matam tal qual feras predadoras.

OP – Como reconhecer um psicopata e se proteger dele?
Ana Beatriz – Reconhecer um psicopata não é uma tarefa tão fácil como se possa imaginar. Até porque a maioria não tem aparência de mau ou descuidada, tampouco possuem uma estrela na testa que possa identificá-los. Ter cautela é sempre importante quando não se conhece alguém ainda muito bem. Checar seus hábitos, saber um pouco do seu passado, ficar atento ao joguinho “da pena“, “do coitadinho“ (todos fazem isso num determinado momento). Ao identificar um deles ou perceber que há algo de estranho no ar, alguns cuidados são importantes. Se houver condições, tomar distância absoluta e jamais compactuar com alguém dessa natureza.

OP – Como é feito o diagnóstico de um psicopata?
Ana Beatriz – O diagnóstico é basicamente clínico, ou seja, através da observação do comportamento e do histórico de vida do indivíduo. O exame deve ser rigoroso e o profissional estar muito atento, uma vez que os psicopatas são manipuladores e podem se passar por “gente do bem“. Alguns países como o Canadá, Inglaterra, Austrália costumam utilizar na população carcerária um check list denominado escala Hare ou PCL (desenvolvido pelo canadense Robert Hare). É uma das ferramentas mais confiáveis que se tem até o momento para separar o criminoso comum daquele psicopata. Uma técnica que só vem corroborar com o diagnóstico da psicopatia é o exame de neuroimagem (Ressonância Magnética Funcional & RMF). Com essa técnica é possível verificar se o indivíduo apresenta “falhas“ em determinadas regiões cerebrais e no sistema límbico (estrutura responsável por nossas emoções). Embora seja um exame bastante preciso, atualmente só é utilizado na realização de pesquisas.

OP – A psicopatia tem cura?
Ana Beatriz – Em se tratando de saúde mental, só podemos falar em tratamento para as pessoas que estão em sofrimento e apresentam intenso desconforto emocional.Por mais bizarro que possa parecer, os psicopatas parecem estar inteiramente satisfeitos consigo mesmos e não apresentam constrangimentos morais ou sofrimentos emocionais como depressão, ansiedade, culpas, baixa autoestima etc. Assim, não é possível tratar um sofrimento inexistente. Tratar de um psicopata é uma luta inglória, pois não há como mudar sua maneira de ver e sentir o mundo. Psicopatia é um modo de ser.

(O Povo Online)