José Serra (PSDB), disse em entrevista para CBN, ontem, que iria mudar a política de juros, mas alertou: “O pessoal do mercado financeiro pode ficar tranquilo que não vai haver nenhuma virada de mesa”. O pessoal ficou tranquilo: o mercado de câmbio, eufórico com o anúncio do pacote internacional para ajudar os países em dificuldade na zona do euro, teve a sua maior queda diária desde novembro de 2008; a bolsa subiu 4%. E ninguém falou de Serra.

É um fantástico ganho em relação a 2002, quando o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que pela quarta vez disputava a Presidência, então com grandes chances de vencer, teve cada vírgula de seu programa de governo escarafuchado pelo mercado financeiro. “A cada dois ou três dias eu recebia uma visita de um representante de banqueiros estrangeiros preocupados, se Lula iria dar o calote ou não”, conta o então economista-chefe da Febraban, Luís Roberto Troster. Hoje, são os investidores estrangeiros os mais otimistas em relação ao Brasil, segundo um dos coordenadores do programa do PT. “Nessa última crise financeira, o mercado já se mostrou suficientemente estruturado”, observa o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE). “Isso reduz a sensibilidade do mercado às eleições”, conclui.

Hoje a situação é a seguinte, segundo Troster: banqueiros e operadores não estão completamente satisfeitos com a candidata do governo, Dilma Rousseff (PT), nem com o tucano José Serra, os dois primeiros colocados da pesquisa. O ideal para o mundo financeiro seria alguém com o compromisso de um maior aperto fiscal, assumido por Serra, e ao mesmo tempo que assuma manter, de forma mais ortodoxa, a política de juros – coisa que o mercado não acredita que acontecerá num governo tucano.

Independente das restrições em relação aos dois candidatos, o fato é que nenhum aterroriza o mercado como em 2002. Para um petista envolvido com a elaboração do programa de governo, uma explicação para isso é que não existe novidade no mercado eleitoral – PT e PSDB já passaram pelo governo e mostraram que não são dados a rasgar dinheiro. “Ficou demonstrado que a estabilidade não é monopólio de nenhum partido, mas uma exigência da sociedade.”

Há oito anos, existia uma enorme insegurança em relação ao partido de oposição que despontava nas pesquisas como favorito. A forma como ocorria o debate interno sobre o programa de governo do PT não ajudava, segundo o economista Ricardo Carneiro, da Unicamp , um dos articuladores do documento. As facções não tinham experiência do debate sobre definições práticas de política econômica e muitas delas eram radicais. “Existia uma posição sectária, até por falta de conhecimento. O que o mercado mais ouvia é que o PT iria dar o calote”, conta.

Troster, na época, organizou seminários com coordenadores de programa de governo dos quatro candidatos – Lula, Serra, Ciro Gomes, então no PPS, e Anthony Garotinho, do PSB. A situação era caótica. As reservas cambiais eram precárias, a situação externa preocupante e existia o impacto do default da Argentina. O país vizinho, então sob a presidência de Nestor Kirshner, não apenas deixou de pagar os seus compromissos externos, mas deu forte conteúdo político a essa decisão. “A Argentina assumiu explicitamente o discurso de que a dívida era ilegítima e impagável”, lembra Troster. Segundo ele, o mercado acreditava que poderia confiar num candidato de continuidade dos governos de Fernando Henrique, mas não sabia se podia esperar o mesmo de Lula. Tinha também sobressaltos com Ciro Gomes e Garotinho. Existia ainda o temor de “venezuelização” do país, segundo o professor da FGV, Paulo Tenani – o medo de que Lula, uma vez eleito, fizesse “aventura populista” semelhante a de Hugo Chávez, presidente da Venezuela.

Além disso, especular contra o país era muito fácil. “Em 2002 era muito barato apostar contra o Brasil”, afirma Tenani. As incertezas em relação a Lula encontraram terreno fértil para formar uma bolha especulativa numa alta dívida externa. Era um motocontínuo: a alta do risco-país, decorrente de incertezas em relação às intenções do candidato de honrar a dívida pública, afetava a taxa de câmbio; o câmbio onerava ainda mais a dívida pública, pesadamente indexada ao dólar, e o aumento da dívida, por sua vez, fazia subir ainda mais o risco Brasil. A dívida pública, na época, correspondia a 47% do PIB; hoje, está por volta de 42%. A dívida indexada ao dólar, hoje, é negativa. “Antes, o Brasil adicionava risco ao portfólio global; hoje o país reduz risco no portfólio global”, observa Tenani.

As condições objetivas do país, hoje, são outras, segundo o professor da FGV: há reservas em abundância e os dois governos Lula afastaram os temores de “venezuelização”. “Esse risco é muito menor numa conjuntura de maior distribuição de renda”, pondera. Para ele, a distribuição de renda ocorrida nos governos Lula, por si só, afasta o risco de políticas populistas: quanto mais desigual é um país, mais ele está sujeito a ser capturado por políticas populistas.

Ainda assim, a tendência dos dois candidatos é a de continuar a recitar o mantra de 2002: responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação. “Essa é a estrutura institucional”, constata o coordenador de programa do PT. A partir dessas premissas, que são os meios, os candidatos definem os fins que querem atingir. “Antes da crise, se atribuía os resultados econômicos do governo Lula ao céu de brigadeiro do cenário internacional. Depois da crise do ano passado, ficou claro que opções foram feitas”, afirmou.

Para que o mercado pudesse conviver com opções de políticas de governo, no entanto, muita pressão rolou por debaixo da ponte. Em julho de 2002, o PT se reuniu para tornar público um documento de compromisso com o “tripé”, a “Carta ao Povo Brasileiro”. A Federação dos Bancos do Brasil (Febraban) foi convidada. Em agosto, todos os candidatos assumiram um compromisso informal de que honrariam o acordo que o governo FHC negociava com o FMI – condição para liberação de um empréstimo. O dólar chegou a R$ 3,90 nas vésperas da eleição. Uma parte do PT, que foi vencida, chegou a advogar a manutenção do presidente do BC do governo tucano, Armínio Fraga. Antonio Palocci, que depois assumiria a Fazenda, foi o fiador das conversas que o partido teve com interlocutores no mercado. “Eram poucos os que se dispunham a conversar com a gente”, lembra um dos coordenadores do programa petista. Também hoje Palocci é o interlocutor do PT junto ao mercado. Tem muita gente com quem conversar.

(Por Maria Inês Nassif, do Valor Online)