WASHINGTON. A Europa não conseguiu evitar a crise originada dos problemas enfrentados pela Grécia e, mais que isso, nem está perto de contê-la. A avaliação é do americano Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e coautor, com Carmen Reinhart, do livro “Oito séculos de delírios financeiros — Desta vez é diferente”, que cobre 800 anos de crises em 66 países. Para o especialista, a crise não deve levar aos EUA a uma nova recessão.

E a recuperação do Brasil, diz, vai permanecer sólida.

Para Rogoff, a crise europeia já era esperada como um desdobramento da recente turbulência financeira internacional, na forma de uma onda de crise de dívida soberana e de crédito externo.

A boa notícia, segundo ele, é a de que, a princípio, a atual crise não deverá ter a mesma gravidade daquela que sucedeu.

— Historicamente, no passado, esse tipo de evento não foi tão grave como a crise original.

Espera-se que o que está ocorrendo agora na Europa seja o mesmo. Mas haverá certamente um efeito bumerangue no mundo — prevê.

Seu otimismo tem nuances.

Rogoff vê poucas chances de que a crise na Europa possa ser detida de imediato, a questão é saber a força e seu poder de fôlego. O economista não descarta a hipótese de que a situação se torne ainda pior. Na sua opinião, a queda do euro poderá favorecer o crescimento europeu, embora isso não seja benéfico para os Estados Unidos, que competem com a Europa.

— Não penso que a crise na Europa provocará uma segunda recessão nos EUA. Mas, se piorar bastante, poderá chegar perto. As pessoas se esquecem que a economia da UE é maior que a americana.

Para o Brasil, laços com bancos espanhóis são risco

Rogoff diz que o crescimento e o mercado de trabalho dos Estados Unidos, já abalados pela recente crise financeira, sofrerão ainda mais com as novas turbulências na Europa.

— A questão não é saber o quanto isso vai ser ruim para os Estados Unidos, mas se será ruim o suficiente para causar um efeito “W” (quando, numa crise, após de uma recuperação, há nova recessão). Mas não penso que isso nos levará necessariamente à beira do abismo.

A economia brasileira, segundo ele, deverá ser poupada, salvo um agravamento inesperado da situação na Europa.

— O Brasil tem laços fortes com os bancos espanhóis, portugueses.

Se eles tiverem grandes dificuldades em seus próprios países, isso vai acabar aterrissando na América Latina. Os Estados Unidos terão um crescimento menor. Mas, no caso brasileiro, não estamos falando de algo que possa fazer o crescimento cair de 7% para 1%.

Rogoff considera acertada a política monetária do Banco Central brasileiro e vê o país em boas condições para enfrentar mais essa crise: — Acredito que, no momento, a recuperação econômica do Brasil vai permanecer sólida, mesmo com o que possa ocorrer em EUA, China e outros países — sustenta

(O Globo)