Ter níveis considerados adequados de colesterol está se tornando impossível somente seguindo uma dieta saudável e praticando exercícios físicos. A cada nova diretriz ou revisão de estudos, cardiologistas recomendam baixar mais e mais as taxas de gorduras no sangue em pessoas saudáveis, principalmente o colesterol ruim, o LDL, associado a infarto e derrame. E quando o coração ou as artérias já estão com problemas, a meta a alcançar é quase inatingível. Para o grupo com aterosclerose grave, médicos dizem que o LDL tem que ficar abaixo de 70mg/dl. Nesses casos só tomando estatinas, drogas que baixam o colesterol, mas podem causar efeitos colaterais como dor muscular e até hepatite. Quem tem ganhado com isso é a indústria farmacêutica. 

Para se ter ideia de ganhos dos laboratórios, no Brasil estima-se que há 30 milhões de pessoas com alto risco cardiovascular e, portanto, potenciais usuárias de estatinas. Estudo do Instituto de Cardiologia de Laranjeiras (em parceria com a Uerj e o Hospital do Coração, de São Paulo) mostrou que o setor público gastou R$ 92 milhões com essa droga em um ano.

A polêmica entre os favoráveis às estatinas – tomadas pelo resto da vida – e aqueles que acham que há abuso na sua prescrição aumentou depois que a FDA (o órgão que controla drogas e alimentos nos EUA) aprovou novos critérios para o Crestor (rosuvastatina, do AstraZeneca). Ela é a segunda mais vendida, atrás do Lipitor e Citalor (atorvastatina, da Pfizer). Pela nova diretriz, indivíduos sem colesterol alto são candidatos a usar os comprimidos.

O remédio recebeu a aprovação para reduzir risco de ataque cardíaco e derrame considerando-se a idade (homens a partir de 50 anos, mulheres a partir de 60), nível alto de proteína C-reativa (PCR, marcador de inflamação antes sem tanta importância) e hipertensão, tabagismo ou história de doença cardíaca. Só que a autorização foi baseada no estudo JUPITER (sigla em inglês), um dos maiores realizados com uma estatina (17.802 participantes), justamente com o Crestor.

Por esses critérios, estima-se que mais 6,5 milhões de pessoas terão de tomar estatinas. Isso acontece num momento em que laboratórios estão perto de perder as patentes de suas fórmulas, sofrendo grandes prejuízos. Para Francisco Fonseca, chefe do setor de aterosclerose da Unifesp, é possível cortar colesterol com adoção de hábitos saudáveis:

– As reduções são em geral mais modestas do que com os medicamentos, mas podem ser suficientes para muitos.

REMÉDIO CAUSA DORES MUSCULARES

Níveis aceitáveis de colesterol, especialmente o LDL, são baseados em estudos grandes e com resultados positivos, tanto em termos de segurança como de benefícios. Entretanto, diz o cardiologista, a maior parte da população não está em alto risco. E na ausência de fumo, diabetes, hipertensão ou colesterol fora de controle, dificilmente uma pessoa sofrerá ataque cardíaco. Mas, se houver qualquer um deles, a chance cresce, especialmente quando há história familiar de infarto ou derrame e outros marcadores, como proteína C reativa elevada.

Para o cardiologista Cláudio Domenico, muitos estudos sobre estatinas apenas consideram o nível do LDL. Porém, afirma que é preciso pensar no HDL (a fração boa), porque mesmo pacientes que apresentam reduções grandes do LDL e que mantêm o HDL baixo correm perigo. O problema é que não se descobriu nada eficaz para elevar o HDL. Uma medida é praticar exercícios. Os medicamentos são pouco eficazes e têm efeitos adversos sérios.

O que chama a atenção, diz Domenico, são estudos indicando estatinas para prevenção em pessoas que não sofrem de doenças cardiovasculares ou diabetes:

– Será que as estatinas serão adicionadas à água, assim como flúor? Muitos estudos são patrocinados pela indústria farmacêutica. Portanto, é preciso analisar criteriosamente esses dados.

O cardiologista Marco Antonio de Mattos, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia, também diz que mesmo ensaios clínicos precisam ser bem estudados e lembra que a Sociedade Brasileira de Cardiologia tem diretrizes para tratar o excesso de colesterol e a prevenção de aterosclerose.

– Em pessoa de baixo risco não se dá remédio. A diretriz indica apenas mudança de estilo e reavaliação em seis meses. Mas não há dúvidas de que as estatinas trazem benefícios em casos indicados.

Segundo Mattos, o problema é a pessoa em risco médio. Aí sim, se poderia, diante dos resultados do JUPITER, avaliar a PCR e pensar na possibilidade de receitar estatinas.

– É provável que exista muita gente tomando estatina sem necessidade, mas não temos esses dados. A PCR sozinha não é um fator para doença coronariana. Mas aterosclerose tem componente inflamatório. Revisão de pesquisas na revista “Lancet”, com 160 mil pacientes, mostrou que fumar, ter pressão alta, obesidade e diabetes são mais importantes que a PCR alta.

A companhia AstraZeneca diz que a nova indicação de Crestor aprovada nos EUA não é para pessoas saudáveis. No Brasil, ele ainda não tem a autorização dessa nova indicação baseada no estudo JUPITER. Aqui é receitado para reduzir ou retardar a aterosclerose, o LDL e elevar o HDL.

Para o cardiologista Eurico Correia, gerente médico de grupo de produtos da Pfizer, os cientistas ainda terão que discutir mais se a PCR é mesmo um bom marcador para a doença cardiovascular, e concorda que usá-la isoladamente não é bom.

– O que ainda prevalece é associação de fatores de risco. A estatina é apenas um auxílio na prevenção e no controle de doença cardiovascular. E até hoje não se sabe se qual é o nível mínimo seguro para baixar o colesterol

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(O Globo Online)