GOIÂNIA – Um dia após terem sido destrocados por suas mães, os bebês Davidson Cavalcante Pires Júnior e Carlos Daniel Mendes Fagundes, de 1 ano e 1 mês, vítimas de um erro do Hospital e Maternidade Santa Lúcia, em Goiânia, começam a se adaptar em suas novas casas.

Para Davidson, filho biológico de Queila Celina dos Santos Fagundes, de 24 anos, o primeiro dia foi muito difícil. “Chorou o tempo todo, estranhou a cama, não se acostumou e acordou três vezes querendo mamar no peito”, disse a mãe, entre lágrimas. “O jeito foi ligar para a Elaine e pedir a ela para vir até aqui para amamentar o bebê.” Elaine Gomes de Oliveira Pires, de 28 anos, é a mãe de Carlos Daniel, mas até anteontem criava Davidson como se fosse seu.

Davidson, diferentemente de Carlos Daniel, que gosta de mamadeiras, ainda mama no peito. Ele só ficou calmo após Elaine chegar à casa de Queila para amamentá-lo. “Disse para Elaine que é melhor a gente ficar uma semana sem se ver, para as crianças se acostumarem”, afirmou Queila. “Mas pensei melhor e concluí que vou mudar para Terezópolis de Goiás para ficar mais perto dela e do Carlos Daniel.”

A troca de bebê provocou a separação de Queila e do marido, Paulo César Alves Fagundes, de 27 anos. Provocado por familiares, ele pensou que a mulher o traía porque o menino não parecia com ele. “A pressão de fato foi grande. Saí de casa”, disse. “Mas agora voltei para dar uma força à Queila e ao bebê.”

Por conta da desconfiança, Queila não aceita reatar o casamento desgastado, apesar da verdade ter vindo à tona, e vai pedir o divórcio. “Não tem volta. Ainda estou triste com ele, não tem perdão. Ele foi omisso, senti muita raiva”, diz ela.

Além do divórcio, Queila decidiu que, quando for trocar o nome do bebê no Cartório de Registro Civil, Davidson não se chamará Carlos Daniel: “Daniel é somente um”, diz ela. Desta vez, o bebê se chamará Samuel David.

O problema maior, diz Queila, é que sua casa, agora habitada por Davidson, está cheia de coisas que pertenceram a Carlos Daniel. “Em cada canto da casa tem um quadro do Daniel, os brinquedos, o cheiro. Está tudo no ar, em todos os lugares”, chora.

Por essas razões e orientada por seu advogado, ela vai pedir indenização por danos morais. “Estamos aguardando o resultado do inquérito policial para entrar com a ação”, afirmou o advogado de Queila, Fabiano Dias.

Elaine e Carlos. O processo de readaptação de Elaine está sendo menos doloroso. Apesar da troca do filho, sua família não cobrou pelas características genéticas, o marido não a abandonou e Carlos Daniel teve uma primeira noite tranquila em sua nova casa. Ele não precisou ser alimentado de madrugada e dormiu a noite toda.

“O menino se adaptou bem”, disse o pai de Elaine, Antonio Divino de Oliveira. “Dificuldade está tendo o meu neto, o Davidson, que foi lá para Aparecida de Goiânia”, continua. Segundo Elaine, o problema é justamente esse. Seu pai chama Davidson, que há dois dias era seu filho, de neto. E não assimilou o neto real, Carlos Daniel, que acaba de chegar.

A tranquilidade de Carlos na hora de dormir e também quando está nos braços da mãe permitiu que Elaine saísse com o pai às 21 horas de ontem para viajar 70 quilômetros e amamentar Davidson. “A Elaine está se adaptando a todas as situações também”, diz Antonio. “Mas ela não mediu esforço para amamentar o meu neto. Quando voltamos, por volta da meia-noite, vi que entre as duas mães nasceu uma amizade muito grande.”

Elaine e Queila, ambas evangélicas, planejam continuar se ajudando nos cuidados maternos. “Contei para a Queila o lado que o Davidson gosta de deitar na cama e os horários para amamentar, mesmo sabendo que agora ele vai pra mamadeira.” Os horários de banho, brincar e dormir também são trocados entre as mães. “Ficamos amigas, e meu pai já está procurando uma casa para ela aqui na cidade. Ela e o bebê vão se mudar e ficaremos muito próximos”, crê Elaine.

(Agência Estado)