Quando a economia crescia no governo Lula bem mais do que no de Fernando Henrique Cardoso, a oposição dizia que ele surfava na onda do crescimento mundial e que não tinha enfrentado as crises do antecessor. Quando a crise financeira global – tão grande que todos a compararam à de 29 – explodiu, derrubando a economia mundial, Lula virou chacota dizer que ela não passaria de uma marolinha no Brasil. Os adversários do governo e do país  torciam para que o Brasil fosse engolfado pelo tsunami, para varrer  “essa gente” do poder.

Lembram disso?

Um ano e meio depois ficou cada vez mais claro que as políticas do Estado brasileiro reduziram o tamanho da onda a uma onda perfeitamente surfável. Mais ainda: a crise criou as condições políticas para um aprofundamento de políticas desenvolvimentistas, que não tinham viabilidade política, diante de um sistema que era, literalmente, “dono do mundo”  e proclamava-se “infalível”.

Mas, com a crise, vendo as empresas-símbolo de sua pujança desmoronando, tiveram de tirar o chapéu e, mendigando dinheiro do “satânico” Estado, parar ou conter-se na demonização da presença do Estado na economia.

Tiveram de assistir, engolindo em seco e limitando-se a fazer caretas o crescimento da intervenção do Estado no domínio econômico. Viram, com toda a resistência de Meirelles em fazê-lo, os juros baixarem. Viram, com toda a sua grita contra subsídios, setores da economia receberem apoio pela via a redução de impostos seletiva, viram a taxação – débil e pequena – do capital externo, viram os bancos públicos irrigando a economia com o crédito que negavam e, assim, tomando o mercado dos “bancões”. E viram, sobretudo, um governo enfrentar uma crise sem fazer arrocho, nem nos salários, nem no consumo e nem – sobretudo –  na esperança.

Depois de décadas ouvindo”paciência, resignação, cautela…”, o Brasil disse: “coragem, ousadia, confiança em nós mesmos…”

Essa mudança de atitude é a mudança mais profunda havida no Brasil. O nosso povo só sai passo a passo da pobreza, temos ainda multidões na miséria, mas estamos desenterrando um tesouro: nossa vontade de mudar.

Estamos deixando de ser o país do “o que se há de fazer?” para sermos o país do “o que há para fazer”.

E há muito. Alguém, não lembro quem, disse aqui que Lula derrubou as gigantescas barreiras que nos obstruíam, mas que é Dilma  o caminho.

Para evitar que o trilhemos, forças imensas irão se levantar. Vão falar em estatismo, socialismo, comunismo. Besteira. Pura conversa de quem sequer é capitalista, é rentista. Porque, no estágio atual, um Brasil que cresce – e não o Brasil que cresce pouco ou nada, dos viúvos de FHC – só tem a dar àqueles que querem ter iniciativa, produzir, trabalhar e – por que não? – lucrar.

Quem diz isso não sou eu, mas a insuspeita Fundação de Desenvolvimento Administrativo (Fundap), vinculada à Secretaria de Gestão Pública do governo do Estado de São Paulo. Está lá no estudo da Fundap, divulgado ontem pelo Estadão, que a margem de lucro das empresas subiu de 5,6% no quarto trimestre de 2008 para 10,8% no mesmo período de 2009. As empresas com ações negociadas em Bolsa estão prestes a recuperar os ganhos de 2005/2007.

Ou seja, a crise já é passado para a maioria das empresas brasileiras. Não é para empresas de muitos outros países governados por gente que não desperta o horror das elites empresariais.

E o que foi que possibilitou isso? A mão invisível do mercado, aquela que os neoliberais diziam Deus? Não, foi o Estado e sua capacidade de intervir na economia, no caso com a redução da taxa de juros e o aumento do volume de financiamentos do BNDES.

É justamente isso que estará em jogo nas próximas eleições. Um candidato representa o martelo das privatizações e a redução do papel do Estado.  A outra, defende o Estado forte, como principal indutor do desenvolvimento. Um Estado que não é inimigo das empresas, mas é , acima de tudo, amigo do povo.

Quem sabe, se os nossos empresários passarem a olhar para o povo brasileiro como seus potenciais clientes, como aqueles que lhes vão lhe dar o mercado para seus produtos, serviços e atividades, em lugar de olhá-lo como um escravo, um serviçal que não lhes merece senão desprezo, quem sabe, tenham mais a lucrar?

(Por Brizola Neto)