por Luiz Carlos Azenha

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez palestra no Rio Grande do Sul, ao lado da governadora Yeda Crusius. Dois democratas que vieram “de cima”.

Na palestra, segundo a Folha Online, ele disse que o Brasil de Lula é um país indecente. Disse isso de forma diplomática, claro:

“Não nos deixemos enganar [sobre ser] possível existir formas de democracia que sejam consequência da manipulação pelos poderosos. Poderosos podem ter vindo até de baixo. Em geral os que mais manipulam vêm de baixo. Os ditadores, em geral, não são os que vêm de cima, vêm de baixo”, disse o tucano.

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Fernando Henrique criticou a influência de “um partido ligado a um sindicato” em decisões do governo. Ele culpou o amálgama entre “partido, sindicato, Estado, empresas e fundos de recursos vultosos” por restringir a concorrência.

“Imagina-se que isso pode ser capitalismo, um tipo de capitalismo burocrático, que faz com que a competição diminua e haja quem resolva politicamente esse pode, esse não pode, esse ganha e esse perde”, disse o ex-presidente.

Mais tarde, ao responder a perguntas dos participantes, o tucano disse que o monopólio estatal das telecomunicações, rompido em seu mandato, ganhou a fórmula de “monopólio privado” sob o atual o governo. Em 2009, a Brasil Telecom incorporou a Oi, fato não mencionado pelo tucano.

Para o tucano, mesmo sistemas políticos autoritários podem alcançar o crescimento como resultado econômico.

“A economia pode crescer muito bem através de organização econômica que não abra espaço para a competição e para a liberdade e que sufoque as liberdades individuais e as organizações partidárias. É isso que nós queremos? (…) Ou queremos viver num país decente?”

Fernando Henrique não deu exemplos, mas podemos apontar dois casos de ditadores que “vieram de baixo” na História do Brasil: Getúlio Vargas, de uma família de latifundiários, e o “operário” Emilio Garrastazu Médici.

Eu entendi perfeitamente onde FHC quer chegar e o papel que a campanha de José Serra delegou a ele: motivar os já convictos. Na lógica do ex-presidente, a popularidade de Lula é uma ameaça e o crescimento econômico promovido pelos dois mandatos de Lula, outra. O raciocínio tortuoso de FHC pretende desconstruir a lógica entre crescimento econômico e popularidade, transformando ambos em “riscos”. Mais tarde, na campanha, ele poderá argumentar que é preciso dar um basta ao continuísmo representado por Dilma, a marionete de Lula. Lula, o “ditador que veio de baixo”, nesse raciocínio estaria usando Dilma para prolongar a república sindicalista que implantou no Brasil.

Não, FHC não leu um texto escrito pelo brilhante professor Hariovaldo de Almeida Prado.

A falta de ideias é dele, mesmo. Quanto à péssima aula de História e a omissão dos “ditadores que vieram de cima”… ponham na conta da campanha eleitoral.

PS: Trata-se da versão tucana do “nós contra eles”, na qual “os de baixo” representam ameaça. Aquela mesma divisão que o ex-governador José Serra tanto deplorou no discurso de lançamento de sua pré-candidatura.

(www.viomundo.com.br)