Uma disputa silenciosa e bilionária está sendo travada nos bastidores para comprar a logomarca da Telebrás. A informação foi dada pelo presidente da empresa, Jorge da Motta e Silva, durante a 38ª assembleia geral ordinária de acionistas, realizada ontem em Brasília, à qual o Correio teve acesso. “Está ‘assim’ de gente querendo comprar a marca da Telebrás”, revelou ele ao término da reunião com os acionistas minoritários. Motta e Silva disse ainda que, embora a estatal tenha sido esvaziada com a privatização do sistema de telecomunicações a partir de 1998, sua marca vale cerca de R$ 1 bilhão. Os poucos investidores presentes ficaram animados com a notícia.

Avaliação –  Para o especialista em marcas Mauro Calixta Tavares, a estimativa está correta. “A marca vale muito sim, pois traz um certo ufanismo e representa a unicidade brasileira, assim como a Petrobras, a Eletrobras e outras empresas que têm Brasil no nome”, comparou. O consultor considerou que são fortes candidatas a adquirir a marca Telebrás as operadoras de telefonia estrangeiras com interesse em atuar no mercado brasileiro.

O presidente da empresa disse que, em uma avaliação bem modesta, a logo da companhia valeria no mínimo R$ 200 milhões, o que daria para pagar com folga os R$ 16 milhões de dívidas contabilizadas em processos trabalhistas. “Tirando as gigantes Petrobras e Eletrobras, qual estatal tem uma dívida pequena como essa?”, questionou. O executivo, porém, não contabilizou os outros passivos da estatal que, segundo estimativas de mercado, podem ser superiores a R$ 400 milhões.

Motta e Silva abordou esse assunto depois de ter sido questionado sobre as informações de uma possível reativação da companhia para ser gestora do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), programa do governo que pretende levar internet rápida por um preço acessível a todos os municípios brasileiros. Os acionistas minoritários demonstraram forte preocupação com os movimentos especulativos na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) envolvendo os papéis da Telebrás, que chegaram a acumular alta de até 35.000% no governo Lula.

Solidez – O especialista em marcas explicou que, para os mais jovens, a logo da Telebrás pode até não ter tanta importância, mas para quem teve telefone na época da estatal, a marca está ligada a “tradição, integração e solidez”, apesar da dificuldade de adquirir uma linha telefônica antes da privatização. “O brasileiro mantém uma boa imagem da empresa, pois provavelmente nem se lembra mais desses problemas”, observou Tavares. Ele lembrou que situação semelhante ocorreu com a Petrobras há cerca de cinco anos, com o vazamento na Baía de Guanabara, mas o caso caiu no esquecimento e a companhia não perdeu valor por isso.

No ranking das marcas mais valiosas do mundo em 2009, segundo a consultoria especializada Brand Finance, a Telecom Italia, dona da TIM, aparece na 86ª posição, cotada a US$ 7 bilhões. A espanhola Telefônica, dona da Telefônica brasileira e da Vivo, aparece na 101ª colocação, valendo cerca de US$ 5 bilhões e a mexicana América Móvil, controladora da Claro, figura na 133ª (US$ 6,16 bilhões). Ao fazer a análise do mercado da América Latina, o cenário é bem distinto. Na lista das marcas mais valiosas em 2008, segundo a consultoria Interbrand, a Claro ocupa a quinta posição, valendo R$ 6,36 bilhões, a Vivo aparece na 17ª (R$ 1,34 bilhão) e a Oi figura na 45ª (R$ 122 milhões). A TIM não aparece no levantamento.

Ações muito valorizadas –  Falta clareza por parte do governo para dar uma resposta à sociedade sobre o que fará, de fato, com a Telebrás. Desde que começaram os rumores de que a estatal poderia ser a gestora responsável pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) — para promover a universalização ao acesso à internet no Brasil —, as ações da empresa, negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) já subiram 35.000%. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por fiscalizar o mercado de capitais, instaurou inquérito administrativo para investigar a conduta de vários agentes políticos que andam “falando demais”.

O presidente da Telebrás, Jorge da Motta e Silva, consciente da repercussão que uma declaração pode ter na Bolsa, fez questão de frisar aos acionistas minoritários na assembléia de ontem que nunca falou nada sobre o assunto publicamente. O fato é que desde que as divergências no interior do governo sobre o papel da Telebrás tornaram-se públicas, muitos pequenos investidores tiveram prejuízo. Como não é mais certo o retorno da estatal à atividade de telefonia, o valor das ações caiu. Cabe agora à CVM apurar quem lucrou com a manobra.

(Correio Brasiliense)