Um dado que chama a atenção na última pesquisa Datafolha é a força do Partido dos Trabalhadores. No universo de todos os entrevistados, o PT ficou em primeiríssimo no ranking de preferência partidária, com 24%. PMDB e PSDB marcaram um longínquo segundo lugar, com 6%. O PSOL manteve a sólida marca de 0%. Esses dados não tiveram, curiosamente, nenhum destaque na mídia.

O que revelam esses dados?

Em primeiro lugar, que o PSDB não conseguiu se firmar como um partido de militância. Apesar do discurso moderninho, os tucanos formam uma agremiação oligárquica, que escolhe seus dirigentes e candidatos através de métodos obscuros, plutocráticos. Com raras exceções, os candidatos tucanos são sempre figuras ricas, brancas e pedantes.

No Rio, tentaram mudar um pouco isso, atraindo o prefeito de Caxias, o Zito, mas a manobra foi prejudicada por seu artificialismo, para não dizer falta de respeito. Para os tucanos, Zito é só um moreninho bom de voto. Tanto é assim que, apesar de ser presidente da legenda no estado, Zito não teve sequer voz na escolha de Gabeira como cabeça da chapa tucana que disputa o governo fluminense. Zito não apóia Gabeira, o que é uma situação ridícula. O tucano com mais votos no Rio não apóia o candidato dos… tucanos.

Voltando à pesquisa: em segundo lugar, ela mostra a força do PT. As provas pelas quais o partido tem passado, em função da guerra movida pela imprensa, ao que parece apenas serviram para tornar a militância petista mais combativa, mais consciente e mais unida. As bandeiras estreladas voltaram a tremular em passeatas e manifestações.

Chega a ser engraçado. Apesar de ser o partido do poder, o PT conseguiu manter um certo charme maldito, que tanto atrai a juventude. E para isso, com certeza, a imprensa ajudou muito. Ou seja, qual Mefistófeles, do Fausto, a mídia foi aquela que “fazendo o mal, emprenhou o bem”. A guerra midiática não deixou os petistas descansarem, e com isso fortaleceu-os.

É uma ironia lindíssima, sensual, perigosa, que todos esses ataques vis e covardes, configurando uma verdadeira campanha orquestrada, de alguns órgãos midiáticos ao Partido dos Trabalhadores, não tenham tido outro resultado que estimular e exercitar a combatividade da militância petista. Quer dizer, muitos abandonaram a luta, mas os que permaneceram, e os que entraram, endureceram e aperfeiçoaram sua fé no partido.

A coisa é ainda mais interessante porque não se trata de uma guerra convencional onde vale a força bruta. É uma guerra ideológica, de inteligência, e a mídia tem usado seus melhores cérebros na luta contra o PT. Eu estou sempre fazendo graça contra o Jabor, o Merval, a Miriam, mas não nego que são pessoas extremamente astutas e talentosas. Não é moleza. A mídia obriga a militância a manter a cachola ativa. O petista tem que ler muito, informar-se em fontes diversas, estar sempre disposto a participar de complicadas discussões.

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Esta superioridade partidária, verificada nas pesquisas, será uma grande vantagem para o PT nas eleições de outubro. Não vi nenhum analista mencionar esse fato.

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Por falar em analista, a Folha entrevistou nesta segunda-feira um cientista político, um jovem de 33 anos que dá aula em Yale. A manchete da matéria é: “Lula atraiu pobres das metrópoles, diz analista”. As partes mais interessantes do texto, contudo, são onde ele faz as seguintes afirmações:

E a oposição vai ter problemas. Ganhar uma eleição sem levar os pobres é muito difícil. (…) Acho pouco provável que o governo perca a eleição. (…) tem muito pouca chance de o governo perder.

Por que será que a matéria não teve destaque nos portais, não teve chamada na primeira página, e seus trechos mais calientes não mereceram menção no título nem nos destaques laterais? Mistério…

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Ontem passei horas lendo Dante Alighieri, que era um sujeito super-partidário. Seu partido eram os guelfos. Que lutavam contra os guibelinos. Depois os guelfos dominaram tudo e se dividiram em guelfos brancos e negros. Dante e sua família pertenciam aos primeiros.

Não sei se o exemplo é tão bom assim, porque Dante se ferrou bonito por causa de sua atuação partidária. Enquanto ele fazia uma visita política ao Papa, em Roma, os guelfos negros tomaram o poder em Florença, sua cidade, e Dante nunca mais pôde voltar. O poeta perdeu todas as suas propriedades, e teve que passar a vida vivendo de favor em casa de estranhos. Na Wikipédia, peguei uns versos que falam de seus sofrimentos de exilado político.

(clique para ampliar)

Mesmo passando tudo isso, porém, Dante nunca deixou de acreditar na política. Tanto que os primeiros condenados do inferno, a quem ele atribui castigos terríveis, são aqueles que nunca tomaram partido. Por nunca terem, em vida, carregado bandeira nenhuma, seu castigo no inferno é carregarem uma eternamente, para cá e para lá, sem que nunca a possam fincar em lugar nenhum. A bem da verdade, não estão propriamente no inferno, mas às portas deste, num lugar descrito como ainda mais detestável, onde desfilam nus e são picados por moscas monstruosas. O sangue, mesclado às lágrimas, era bebido por vermes imundos que rastejam no solo.

Virgílio, o guia de Dante no além-mundo, desdenha solenemente dessas pobres almas, que nem o Céu nem o Inferno dignaram-se a receber:

Questi non hanno speranza di morte,
e la lor cieca vita è tanto bassa,
che ‘nvidïosi son d’ogne altra sorte.

Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, ma guarda e passa”.

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Íntegra da Divina Comédia em português.
Íntegra da Divina Comédia no original (direto no III Canto do Inferno, citado aqui).

(oleododiabo.blogspot.com)

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