Se estivesse vivo, Ayrton Senna teria completado 50 anos no último domingo. Sua trágica morte deixou o país desconsolado, em estado de choque. Multidões foram às ruas de São Paulo acompanhar o cortejo que levou o corpo do ídolo ao seu descanso final. O tema da vitória e a Canção da América de Milton Nascimento foram os hinos de 1994.

Tenho poucas lembranças daquele dia, também um domingo, ainda era muito pequeno. Só sei que aquela foi a primeira vez que vi meu pai chorar. Lembro de vê-lo atônito em frente à televisão e não compreender bem como ele poderia chorar por alguém que nunca havia visto na vida.

Tragédias como essa têm o poder de tocar e mover as pessoas, tirá-las de seu estado natural de passividade, dar a elas uma sensação de pertencimento e união difíceis de explicar.

Mas, se por um lado a comoção popular têm a capacidade de despertar solidariedade e fraternidade; por outro, pode trazer à tona aquilo que há de mais primitivo e irracional em cada um de nós.

Nesta segunda-feira (29/3), completam-se exatos dois anos do dia em que a menina Isabella Nardoni foi atirada do 6º andar do prédio em que o pai e a madrasta moravam. Na noite de sexta-feira, já adentrando a madrugada de sábado, seus algozes, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, foram considerados culpados por um júri formado por iguais e um juiz de direito os sentenciou a longas penas. “A justiça foi feita”, nas palavras da mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira.

Enquanto o juiz Maurício Fossen lia a sentença, transmitida ao vivo pelo rádio, rojões estouravam em frente ao Fórum de Santana. O tema da vitória, que automaticamente remete à imagem do capacete amarelo e dos punhos cerrados de Senna, dessa vez era a trilha sonora de um cenário medieval.

Não era só por justiça que a multidão que estampava a foto de Isabella em suas camisetas gritava. Em ritmo de funk, eles pediam: “Pega lá, pega lá, pega lá, o casal pra nós linchar (sic)”. Berros de “joga pela janela” e “cadeira elétrica neles” também eram facilmente ouvidos. Só faltaram as tochas, as foices e uma forca na frente do tribunal.

O que definitivamente não faltou foram carros de TV, câmeras, um emaranhado de cabos, fotógrafos e jornalistas, muitos jornalistas —incluindo o autor destas linhas.

O advogado Roberto Podval, alvo de frequentes hostilidades da massa ensandecida —inclusive tentativas de agressão— não conseguiu provar a inocência do casal. Era mesmo uma tarefa difícil. Mas propôs uma reflexão importante ao perguntar aos jurados: Será que chegaríamos ao mesmo resultado [a condenação dos réus] se a cobertura da imprensa tivesse sido diferente?

O promotor Francisco Cembranelli garantiu que não, que os réus já chegaram condenados ao julgamento não pela mídia ou pela sociedade, mas pelas provas.

É provável que Cembranelli tenha razão. Mas aqui cabe uma outra pergunta: a sociedade —ou a parte dela que ficou vidrada na TV, no rádio, nos jornais e na internet por cinco dias, e que aguardava há quase dois anos uma resposta para aquele crime bárbaro — aceitaria um resultado diferente? Uma absolvição, caso os jurados não tivessem ficado 100% convencidos da culpa dos réus?

A julgar pelo número de pessoas que correram atrás do camburão que levava o casal Nardoni de volta à prisão, mesmo após terem sido condenados dentro da lei, é difícil acreditar.

A defesa já adianta que tentará anular o júri. Se existirem razões júridicas para tanto e o Judiciário reconhecer que os réus tem o direito de serem julgados novamente, qual será a reação da massa?

É absolutamente compreensível que um caso atroz de violência como o de Isabella gere revolta e provoque nas pessoas uma sede por justiça. Mas foi exatamente para aplacar esse impulso de conseguir a justiça pelas próprias mãos que as sociedades conferiram ao Estado o monopólio do uso da força, criando um órgão imparcial —o Judiciário— para mediar os conflitos sociais.

Nesse contexto, o papel da imprensa não pode ser desconsiderado. Desde o início, por possuir características únicas, o caso Isabella tomou dimensões gigantescas. Os defensores da cobertura feita pela imprensa nos últimos dois anos, dizem que o jornalismo apenas entregou aquilo que o público demandava.

O jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva, ex-ombudsman da Folha de S. Paulo, tem uma visão relevante sobre o tema: “Será que o jornalismo sério precisa mesmo entregar o que o público quer, ou diz querer?”. Para ele, além de atender à demanda do público, o jornalismo precisa liderar. “É preciso haver uma troca entre o meio de comunicação e seu consumidor para que o jornal atenda os desejos dos leitores, mas também ajude a melhorar a qualidade desses desejos”.

Na época da morte de Isabella, o Rio de Janeiro passava por uma grave epidemia de dengue. O número de mortos passou de 100 no Estado, grande parte delas, crianças. A tragédia do edifício London ofuscou a catástrofe da saúde pública no Rio.

Na semana que passou, os olhos do país estiveram concentrados no pequeno fórum da zona norte de São Paulo. Enquanto isso, chegou a 16 o número de crianças mortas por falta de UTI no Maranhão.

Confira a cobertura completa do caso:4º dia de julgamento:
Depoimento do casal Nardoni não traz surpresas; júri deve terminar nesta sexta
Não há contradição relevante entre Alexandre e Anna Jatobá, diz jurista
Alexandre Nardoni chora e nega ter matado a filha Isabella
Chuva não espanta curiosos do julgamento do casal Nardoni Promotor se irrita com pedidos de advogado de Nardoni e é repreendido por juiz
Quarto dia de julgamento começa com depoimento de Alexandre Nardoni
Defesa tentará desqualificar prova que incrimina Alexandre Nardoni

3º dia de julgamento:
Juiz mantém mãe de Isabella isolada; interrogatório dos réus começa na 5ª
Defesa do casal Nardoni deve reduzir número de testemunhas pela metade
Terceiro dia de julgamento começa com depoimento de perita
Perita admite que exame em sangue na fralda foi inconclusivo
Alexandre Nardoni defenestrou Isabella, afirma perita
Defesa dispensa todas as testemunhas para encurtar júri

2° dia de julgamento:
Queda do 6º andar não foi determinante para morte de Isabella, afirma legista
Defesa do casal Nardoni “segura” segunda testemunha do caso
Delegada diz que só indiciou casal Nardoni porque tinha 100% de certeza
Advogado defende isolamento de mãe de Isabella para acareação com os Nardoni
Julgamento recomeça com depoimento de testemunhas; réus serão ouvidos amanhã

1° dia de julgamento:
Defesa mostra que vai passar por cima de qualquer sentimento, diz promotor
Termina 1º dia do julgamento; mãe de Isabella ficará isolada para acareação
Mãe de Isabella chora e diz que Alexandre Nardoni não era um pai participativo
Começa depoimento de Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella Nardoni
Júri do casal Nardoni será formado por 4 mulheres e 3 homens
Alexandre Nardoni está “bem de coração e de consciência”, diz pai
Começa o júri popular do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá
Movimentação de curiosos ainda é pequena para o julgamento dos Nardoni
Dúvidas x provas inequívocas: a defesa e a acusação no júri do casal Nardoni
Casal Nardoni vai a júri popular pela morte da menina Isabella

OPINIÃO:
Quem será julgado no caso Nardoni?
Casal Nardoni: inocente ou culpado?
A condenação prévia do casal Nardoni
O julgamento do casal Nardoni na sociedade do espetáculo
Os homens sentenciantes: sobre os Nardoni, Cristo e Barrabás?

(Ultima Instância)

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