A história dos bancos estaduais poderia muito bem levar o título de Os sobreviventes. Mais de uma década depois do Programa de Incentivo à Redução da Presença do Estado na Atividade Bancária (Proes), de 1997, cujo efeito principal foi uma avalanche de privatizações e extinções, apenas cinco entre quase 30 instituições que pertenciam a estados estão em operação no varejo de bancos múltiplos. Os demais que foram mantidos viraram caixas de fomento. O Banrisul desponta isolado e próximo ao pelotão de elite do sistema financeiro brasileiro, mas precisará ser cada vez mais competente para assegurar seu território.

A capilaridade das agências, a identificação regional e uma gestão profissional, livre de interferências de seu maior acionista, o governo estadual, são apontadas como vantagens competitivas. Mas gigantes como o Banco do Brasil (primeiro em ativos do País) e Santander (quinto do ranking) se fortalecem tanto no canteiro local quanto em mercados em que a grife gaúcha mira: o mercado catarinense. O diretor financeiro e de relações com investidores do banco, Ricardo Hingel, aposta na posição hegemônica dentro de casa.

Quase um terço das 1.580 agências bancárias em território gaúcho, conforme o Banco Central (BC), é do Banrisul. “Não há isso em outro local. É uma barreira para a entrada, nossa maior vantagem”, acredita o executivo, que tem tido seu nome cotado para presidente do Banrisul caso o atual, Fernando Lemos, deixe o posto em abril. Hingel lembra que a parte mais fácil e barata é montar uma agência. “Difícil é fazer o negócio ser rentável.”

Para não dar chance a aventureiros, o banco tenta evitar vazamentos entre os 3 milhões de clientes. Ou seja, oferecer serviços para não deixar que o correntista o traia com a concorrência ou divida a preferência. Dentro deste plano, deve ser anunciadao nos próximos meses nova estratégia na área de cartões de crédito. À favor de um Banricompras de crédito tem a rede interligada e o uso pulverizado. Hingel informa que uma consultoria analisa a melhor solução e que isso não está descartado. O crédito rural também é foco, além da captação da população não bancarizada.

O executivo afirma que as opções do passado determinaram o desempenho do presente (expansão de 20% do crédito em 2009) e as oportunidades do futuro. Desde a decisão de repassar a dívida com o fundo de pensão dos funcionários ao Estado, uma conta de R$ 1,4 bilhão, graças à janela do Proes, à venda de ações na BMF&Bovespa, em 2007. “Este último garantiu condições para o crescimento e para manter nossa participação. Elevamos o capital para R$ 3,3 bilhões e hoje podemos ter uma carteira de R$ 24,5 bilhões”, contrasta Hingel.

Segundo o diretor financeiro, além dos R$ 13,3 bilhões emprestados em 2009, seriam mais R$ 11 bilhões para injetar na economia. “Este patamar gera mais conforto para os próximos anos”. E afugenta boatos sobre assédio de compradores. Na semana passada, a governadora Yeda Crusius se referiu a uma suposta nova abordagem do BB e lembrou que o banco não está à venda. O secretário estadual da Fazenda, Ricardo Englert, nega qualquer contato do BB, e reforçou o discurso de Yeda: o Banrisul é dos gaúchos (Estado) e de investidores. Para qualquer negociação, é exigido o aval da Assembleia Legislativa e plebiscito.

O gerente-geral de unidade de aquisições de bancos do BB, Guilherme André Frantz, também descartou interesse. Os demais estaduais ou ligados ao Distrito Federal do varejo são Banco do Sergipe (Banese), Banco Regional de Brasília (BRB), Banco do Pará (BanPará) e Banco do Espírito Santo (Banestes). Após o Proes, 12 bancos foram privatizados e 22 extintos. Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) e Banco do Piauí (BEP) acabaram incorporados pelo BB. O professor do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) Ricardo de Medeiros Carneiro acredita que a relação com a clientela, ante a alta capilaridade no Estado e acesso a folhas de pagamento de órgãos e administrações públicas, formam o nicho cativo do Banrisul.

Mesmo com forte programa de enxugamento de instituições financeiras estaduais – em 1994, elas respondiam por 18% dos ativos do sistema financeiro nacional e em 2007 tinham apenas 4,25% -, Carneiro destaca que o Brasil é caso raro no mundo de presença forte de bancos públicos, incluindo BB e Caixa Econômica Federal. “Eles podem pressionar pela redução de spread bancário e injetar recursos para desenvolvimento da economia”, exemplificou o professor, lembrando que tudo dependerá da gestão.

O analista da Austing Rating Luis Miguel Paolo Zaghen aponta que hoje os bancos têm maior controle e precisam apresentar resultados. No caso gaúcho, a manutenção de integrantes da direção e conselhos, que gera estabilidade a acionistas, é fundamental. “O caminho é ser técnico e tecnologicamente mais eficiente”. Para ele, a instituição capitaliza de forma positiva a relação com estruturas do Estado, assegurando relacionamento, como na gestão de folhas de servidores e no impulso à economia.

(Por Patricia Camunello – Jornal do Comércio)

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