SÃO PAULO – A São Paulo do prefeito Gilberto Kassab é uma cidade cenográfica. Uma cidade de mentirinha, que só existe por onde ele passa. Nela, as ruas são limpas, o asfalto não tem buracos, o mato dos canteiros está aparado, até a pintura do meio-fio é nova.


A mágica inclusive tem nome: “operação prefeito”. É assim que assessores se referem ao esforço de maquiagem empreendido por equipes de limpeza e manutenção que são destacadas horas antes para locais que serão visitados por Kassab.

A Folha flagrou quatro “operações prefeito” nas últimas semanas -três na zona leste e uma na zona sul da cidade. Na última sexta, por exemplo, conforme reportagem publicada ontem pelo jornal, Kassab vistoriou às 10h30 obras de um viaduto no Tatuapé. Pouco antes das 9h, equipes de garis recolhiam às pressas lixo e entulho da calçada e do canteiro central. Com o seguinte detalhe: 200 metros abaixo ou acima, a cidade real -suja, descuidada- permanecia intacta.

Como o personagem do filme “The Truman Show”, o prefeito poderia alegar ignorância da farsa que protagoniza. Seria até simpática a hipótese de que também seja vítima de seu próprio espetáculo. Mas isso obviamente não é verdade.

O teatro da gestão Kassab explica o que é “governo de fachada”. Funcionários públicos (ou contratados com dinheiro público, tanto faz) são convocados a atuar a serviço do prefeito -e não da cidade. Executam de afogadilho, para fins promocionais do poder, tarefas comezinhas de manutenção que a rotina da administração não cumpre.

Não é apenas o trânsito que não funciona; não é só o IPTU que subiu; não são as enchentes que nos colocam diante do colapso da cidade -além (ou aquém) disso tudo, difunde-se a percepção de que São Paulo está sendo muito maltratada no seu dia a dia mais ordinário.

É triste e irônico. O mesmo prefeito que criou o Cidade Limpa -um marco histórico- precisa agora encenar até a limpeza da cidade que mal consegue governar.

(Por Fernando de Barros – Folha de São Paulo)

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