Em ação policial na cracolândia, 300 foram detidos; desse total, 33 foram acusados de tráfico e os demais, abandonados em base da GCM

Usuários deixados em base voltaram para a cracolândia; ação aumenta discriminação contra população vulnerável, afirma secretário de Kassab

De Evandro Spinelli e Rogério Pagnan:

Classificada de “pirotécnica” pelo secretário da Saúde da gestão Gilberto Kassab (DEM), uma megaoperação da Polícia Civil do governo José Serra (PSDB) deteve ontem cerca de 300 pessoas na cracolândia, região degradada no centro.

Trinta e três pessoas foram indiciadas sob acusação de tráfico de drogas, diz a polícia. Os demais, viciados em crack, foram abandonados pela polícia em uma base da GCM (Guarda Civil Metropolitana) -sob o olhar de apenas dez agentes da guarda incumbidos de mantê-los ali, o grupo fugiu.

Em fila indiana, os viciados foram escoltados para a base da GCM por policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais) armados com espingardas calibre 12, fuzis, submetralhadoras e pistolas, tudo sob os olhares de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas -a imprensa foi informada da operação pela assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública.

No fim da tarde, sem terem sido oficialmente presos e sem ninguém para atendê-los ou encaminhá-los a unidades de saúde, os viciados “fugiram” e voltaram para a cracolândia.

Para Januário Montone -tucano, homem de confiança de Serra e secretário da Saúde de Kassab-, o que a polícia fez foi um “espetáculo pirotécnico de confinamento e posterior “libertação” dos usuários detidos, o que só aumenta a discriminação contra a população mais vulnerável e dependente, de moradores em condição de rua, usuários e dependentes de álcool e drogas”.

A Folha apurou que Kassab só tomou conhecimento do teor da nota de seu secretário da Saúde após ela ter sido enviada à imprensa. Hoje pela manhã, os dois participarão juntos da inauguração de uma unidade de saúde em Parelheiros (extremo sul de São Paulo).

O delegado Aldo Galiano Júnior, da 1º Seccional, disse que a operação era sigilosa, portanto não poderia ter informado com antecedência os agentes de saúde. Ele afirmou que avisou apenas seus superiores e que foram eles, por meio da assessoria de imprensa da secretaria, que convocaram os jornalistas.

(Blog do Noblat)