Já vai longe o tempo em que as pessoas precisavam se deslocar até o Centro da cidade para ter acesso a determinados bens e serviços. Com a expansão dos limites da Capital, surgem novos núcleos, como que pequenos outros “Centros”, fazendo com que seus moradores tenham tudo o que precisam sem se afastar de suas residências. Bancos, escolas de idiomas, restaurantes e até shopping centers, perto de casa.

Como protagonistas desse fenômeno aparecem os supermercados. De olho em novos consumidores, grandes redes têm mudado o foco dos investimentos e voltado a mira para regiões até então esquecidas. Bairros como Maraponga, Parangaba, Barra do Ceará e Conjunto Prefeito José Walter já aparecem como verdadeiras pequenas cidades dentro de Fortaleza. São bairros antes tidos como afastados do Centro da cidade, mas que, atualmente, têm vida própria e não dependem de outras regiões para se desenvolver.

Para a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), Camila Girão, morar, trabalhar e se mover nas grandes cidades, em todo o mundo, tornou-se muito caro. “De fato, a necessidade de deslocamentos para o consumo de bens e serviços em outras áreas da metrópole diminuiu consideravelmente”, avalia a especialista.

Como exemplo, ela cita os Estados Unidos. Ali, lembra, muitas cidades foram convertidas nos lugares que comportam as sedes corporativas mundiais, os centros financeiros, os serviços especializados e os pontos de entretenimento, enquanto, muito longe, conectadas por um eficiente sistema de mobilidade, encontram-se as áreas habitacionais das classes médias, predominantes nesse contexto, em pequenas cidades supridas por centros comerciais locais.

Necessidades – Camila Girão ressalta, ainda, que várias atividades econômicas possuem necessidades específicas no que diz respeito a fatores de expansão espacial. Para isso, precisam de terrenos mais baratos. “Se essas atividades não necessariamente estão vinculadas à visibilidade ou à presença de fluxo contínuo, acabam optando por áreas mais distantes das centralidades”, afirma a professora.

A especialista explica que, ao mesmo tempo, a dinâmica habitacional faz emergir outras necessidades vinculadas ao comércio e aos serviços, o que acaba, paulatinamente, valorizando o solo urbano. “No contexto de Fortaleza, é válido ressaltar que extrapola as fronteiras do Município e alcança hoje, de fato, a dinâmica metropolitana”, diz. “As diversidades de atividades e usos no espaço urbano são um processo muito bem-vindo. A questão assenta-se na distribuição dessas atividades”.

SUPERMERCADOS
Grandes redes investem e movimentam bairros


Quem mora em bairros mais afastados do Centro costuma dizer que não há alegria maior do que a inauguração de um grande supermercado na vizinhança. Exagero ou não, as grandes redes estão atentas a essa demanda e investem pesado na expansão de suas redes para essas regiões.

A escolha do local a receber o empreendimento começa com uma série de pesquisas para apontar fatores, como densidade demográfica, poder aquisitivo da população, vias de acesso, infraestrutura e desenvolvimento socioeconômico da área. De acordo com o gerente regional da rede Pão de Açúcar, Wilson Toledo, a localização é o ponto mais importante para o sucesso de uma loja. “Nesse sentido, não é só o ponto em si, mas as oportunidades de expansão e crescimento da região em curto e médio prazos”, diz.

Toledo afirma, ainda, que tanto a empresa quanto o bairro saem ganhando. Ele acredita que, se a loja é instalada em uma área que está crescendo, o supermercado ajuda a acelerar o desenvolvimento, tanto na geração de empregos quanto no incremento do mercado imobiliário. Se o bairro já for desenvolvido, continua. O supermercado será atraído pela demanda existente naquela região.

Dinâmica
–  A entrada de um novo supermercado num determinado bairro movimenta a economia e traz uma dinâmica diferenciada em produtos e serviços, facilitando a vida dos moradores. Nessa medida, acredita Toledo, contribui para a valorização da região, que passa a contar com mais praticidade e comodidade.

Outra questão a ser levada em consideração é que os empreendimentos costumam priorizar a contratação de colaboradores que residam próximo às lojas, promovendo geração de empregos e qualidade de vida, na medida em que os funcionários podem, morando próximo ao local de trabalho, passar mais tempo com as famílias.

Além disso, a entrada de um supermercado afeta o comércio local. Mas, na avaliação de Toledo, o fato representa um ponto positivo: o estímulo à concorrência. “Assim, os varejistas já atuantes naquela região buscam melhorar a qualidade de seus produtos e serviços. Quem acaba ganhando é o cliente”.

ANTES E DEPOIS
Rotina das comunidades é alterada

A inauguração de um shopping center ou daquele hipermercado que anuncia com estardalhaço suas ofertas na TV são verdadeiros acontecimentos para os bairros. As obras de construção são geralmente acompanhadas com ansiedade pela vizinhança, e o orgulho dos moradores só não é maior do que a vontade de que os empreendimentos comecem logo a funcionar.

Foi assim com a chegada do Extra ao bairro Parangaba. A estudante Mirla Maia conta que, na época, alguns moradores do bairro chegaram a madrugar no local esperando a abertura dos portões. Ela garante que não era um deles, mas admite a importância da inauguração para a mudança da rotina no bairro. “Junto com o terminal de ônibus, esse supermercado deu outra vida para o bairro. Facilitou demais a nossa vida”, diz. “A gente sente que não fica tão isolado de tudo”.

A dona-de-casa Eva Medeiros Lima concorda. Ela lembra de quando precisava ir até o Centro comprar um eletrodoméstico. “Era cansativo e uma complicação para trazer uma televisão ou um aparelho de som. Fora o que a gente gastava com a condução”, conta. “Muito bom a gente ter acesso a coisas que antes, só indo para longe. Claro que tem coisas que eu continuo comprando nas bodegas, mas fazia muita falta uma coisa dessas. Tem até vários tipos de comida pronta”.

A convivência com os pequenos estabelecimentos comerciais, aliás, revelam os consumidores, tem tudo para ser pacífica. É que a maioria não deixou de recorrer a eles na hora das compras. Apenas querem ter mais opções. “É uma questão de ocasião. Não vou a um supermercado quando acaba o sal ou o óleo no meio da manhã. Vou à bodega, que ainda vende fiado”, ensina a professora Fátima Duarte. “Por outro lado, tem preços que só um supermercado grande pode oferecer por comprar em grandes quantidades”.

Serviços – Outra vantagem apontada pela população é quanto aos serviços que, geralmente, são oferecidos pelos supermercados, mesmo em bairros já desenvolvidos. Caixas eletrônicos, lavanderia, locadora de vídeo, agência lotérica, farmácia e até imobiliária são alguns dos diferenciais oferecidos para quem faz compras nesses estabelecimentos.

Em Fortaleza, o Carrefour da Maraponga é um exemplo disso. São 15 estabelecimentos comerciais instalados ali, entre lojas, quiosques e estandes. O que seria apenas um local para as compras do mês ganha feições de mini-shopping center.

As mudanças na rotina dos bairros, contudo, nem sempre são para melhor, na opinião de alguns moradores. Há quem prefira ficar longe do progresso e reclame, por exemplo, das mudanças no trânsito, que costuma ficar mais intenso no entorno de grandes empreendimentos, nos horários de maior movimento de clientes.

(Diário do Nordeste)

Anúncios