O Instituto Nacional de Combate ao Câncer (Inca) vai publicar na edição de fevereiro de uma revista científica internacional o levantamento inédito sobre o panorama da incidência e da mortalidade do câncer em crianças e adolescentes no país. A pesquisa revela que, para os vinte tipos de câncer estudados, o da leucemia foi o que mais afetou a faixa etária analisada, que foi de 0 a 18 anos. Além de ser o tipo mais frequente, a doença também é a que apresenta maior mortalidade (35%). O levantamento apontou, inclusive, que crianças entre 1 e 4 anos foram as mais afetadas, com 31,6% dos casos registrados.

Dezenove estados e o Distrito Federal fizeram parte do estudo, realizado entre 1991 e 2006. No caso da leucemia (1), que tem um percentual médio de 29% de incidência no país, a ocorrência de casos variou nas capitais analisadas. Salvador teve a menor taxa, com 25,5 casos do sexo masculino para cada 1 milhão de pessoas, e 18,6 do sexo feminino, na mesma proporção. Já em Cuiabá e Curitiba foram observadas as maiores taxas de incidência, com 90,6 casos e 69,9 casos para cada 1 milhão de pessoas.

A incidência maior da doença nas crianças é um dado já conhecido dos médicos especialistas na doença. De acordo com o doutor Rodrigo Abreu e Lima, do Centro Especializado em Oncologia e Hematologia (Ceon), os números podem ser explicados pelo fato de que tumores sólidos se desenvolvem com menor frequência em crianças, visto que parte dos cânceres são decorrentes de vícios e hábitos de vida como o tabagismo, por exemplo. “A leucemia afeta mais as crianças porque o estilo de vida do paciente interfere menos do que em outras doenças. Por isso é que nos jovens os tumores sólidos são menos frequentes”, explica o médico.

De acordo com o hematologista, assim como acontece com outros tipos de câncer, a descoberta precoce da leucemia em crianças multiplica as chances de recuperação. “Isso, principalmente, porque o tipo linfoide aguda tem uma taxa de cura muito alta em pessoas mais jovens. Essas chances aumentam ainda mais com um tratamento adequado que comece ainda na fase inicial da doença”, diz.

O médico explica ainda que o cadastro público de células-tronco, tanto de cordão umbilical quanto de medula óssea, pode ser a grande chance de redução dos números de incidência da doença.

O segundo câncer de maior incidência entre crianças e adolescentes, apontado pelo estudo, é o linfoma, tumor que cresce no sistema linfático. Esse tipo de câncer atinge 15,5% do grupo pesquisado, mas é mais agressiva entre adolescentes entre 15 e 18 anos, que representam 35,6% dos doentes. Dividida por sexo, a doença representou as maiores taxas em Campo Grande, com 51,3 casos, e Natal, com 32,8 novos doentes para da 1 milhão de pessoas. Em Belém, o quadro foi inverso. Apenas 12,7 dos doentes do sexo masculino e 6,2 do sexo feminino foram enquadrados na doença a cada 1 milhão de analisados.

Os tumores ligados ao sistema nervoso vêm em seguida com 26% das ocorrências e abrangem um grupo maior que varia entre 1 e 14 anos. Mas é na faixa entre 5 e 19 anos que o câncer aparece como a primeira causa de morte por doença no país. Belém ficou novamente entre as capitais com menor índice da doença: 7,9 de casos do sexo masculino para um milhão de pessoas, seguida de Vitória, com 5,5 para a mesma proporção para o sexo feminino. Porto Alegre (36,8 por milhão), para o sexo masculino, e Goiânia (35,3 por milhão), para o sexo feminino, foram as que mais registraram a doença. Apesar dos números, o Inca acredita que houve um aumento expressivo da qualidade no atendimento nos últimos 30 anos. “Há três décadas, 85% das crianças com câncer morriam. Hoje, a estatística se inverte e a chance de cura chega a 85%, sendo que no Brasil a média gira em torno de 65%”, afirma o coordenador de Prevenção e Vigilância do Inca, Cláudio Noronha, que elaborou a pesquisa em parceria com a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope).

Segundo o órgão, cerca de 9.890 casos de câncer foram registrados entre crianças e adolescentes com até 18 anos entre 2008 e 2009. “Esses dados podem ser usados em estudos epidemiológicos no futuro”, afirma uma das médicas coordenadoras da pesquisa, Maria do Socorro.

(O Dia – Portal Terra)

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