Consultor de grandes empresas nacionais, o economista cearense Célio Fernando Bezerra de Melo, 44, afirma que o Ceará tem grandes vantagens comparativas que precisam transformar-se em competitivas. Mas o Estado carece de uma sociedade solidária e de um Governo enxuto, sem burocracia e sem corporativismo.

O Ceará tem sol, mar, vento, arte e ciência. Isso representa alguma vantagem?

Com certeza! Todos esses recursos são vantagens comparativas de que dispõe o Ceará. No passado recente vivíamos o Estado da precariedade, da escassez absoluta. Hoje, estes recursos naturais se mostram abundantes.

E daí?

Precisamos transformar essas vantagens comparativas em vantagens competitivas.

Como é que se faz isso?

Isso se faz por meio do conhecimento. A tecnologia é o elemento essencial de ligação, de transformação das vantagens comparativas em vantagens competitivas. É por meio do capital tecnológico que podemos transformar o sol em energia solar, o vento em energia eólica, o mar em uma fonte inesgotável de produção de alimentos e outras riquezas.

E a arte?

A arte mostra a vocação natural e criativa do povo cearense, cantada em verso e prosa para além de nossas fronteiras. Isso se manifesta na música do violão do Nonato Luiz; nas canções de Humberto Teixeira, Evaldo Gouveia, Raimundo Fagner e Fausto Nilo; na pintura genial de Aldemir Martins, Estrigas, Nice, Raimundo Cela e muitos outros; na moda de Lino Villaventura; na poesia de Patativa do Assaré; na literatura de José de Alencar, Rachel de Queiroz e Capistrano de Abreu. Todo esse conjunto de genialidades demonstra claramente o manancial de capital humano disponível no Ceará e que pode ser transformado.

De que maneira?

Pela busca e pelo estímulo às artes, acrescentando técnicas e conhecimentos específicos que projetem esses talentos. A arte deve ser colocada como uma ocupação essencial deste mundo pós industrial, uma vez que oferece qualidade de vida aos que a praticam e, ao mesmo tempo, satisfação e prazer aos que a apreciam. Por exemplo: a vocação natural do cearense para a pintura foi em grande parte, no século passado, estimulada pela chegada do francês Chablotz, que trouxe para cá técnicas e tintas até então desconhecidas.

E a ciência?

Da mesma maneira que na arte, acontece na ciência. Veja só: os cearenses são os campeões dos vestibulares anuais do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um centro de excelência mundial. Isto quer dizer que, se bem preparado e dispondo de políticas adequadas o nosso capital humano certamente alcançará altas tecnologias. Se o Estado se dispuser a canalizar seus recursos para a educação e a pesquisa, não há dúvida de que a ciência se tornará uma vantagem competitiva. Expoentes como os professores e pesquisadores Expedito Parente, no biodiesel, José Nunes, no aproveitamento diverso da água de coco, e Osvaldo Carioca, na identificação de micro algas para a produção de biocombustíveis, e muitos outros são prova de que o Ceará tem um banco de talentos capaz de criar – e inovar – tecnologia de ponta, economia das ideias.

Então nós temos perdido tempo e oportunidades para desenvolver o Ceará?

Sim. É preciso olhar com novas lentes para uma sociedade em profunda transformação. Precisamos, claramente, vivenciar muito mais do que uma crise mesmo que de repercussões mundiais. Devemos pensar um novo modelo econômico para o desenvolvimento local. Devemos entender que este momento traz uma mudança de época que necessita de novos conceitos e valores. Individualidade e coletividade terão de andar lado a lado.

O que isto quer dizer?

A economia de mercado é claramente individualista e perversa. Desde os meios de produção. O lucro é o objetivo central na maximização da riqueza do acionista. E o altruísmo produzido nos jargões da responsabilidade social tem de criar valor para a empresa. O modelo é esse e é dessa forma que se acumula o capital. Mas o indivíduo não é mais capaz de sustentar-se sozinho; ele necessita da cooperação pelas incertezas do mundo moderno. Ser coletivo é ser solidário. E o coletivo deve ser entendido como uma grande aliança estratégica para a manutenção, consolidação e ampliação das vantagens competitivas. Vale repetir o ensinamento popular: uma andorinha só na faz verão. A solidariedade não busca somente os lucros. Ela cria novos valores, todos sustentáveis, seja pelo respeito à natureza, seja pela busca da dignidade do homem. Solidariedade não é bondade, é dever, é estar disponível para ajudar; não é dar esmola, é preocupar-se em buscar soluções para o bem estar humano em todas as suas dimensões, entendendo nossos limites.

O desenvolvimento econômico e social do Ceará depende da solidariedade?

Sim, substancialmente. O Estado deve ser pautado pela sociedade. As mobilizações sociais, não apenas as populares, mas as de professores, cientistas e empresários devem ter como objetivo reduzir os hiatos entre a riqueza e a pobreza que são gigantescos aqui. Exemplo: a atração de investimentos para a indústria e o serviço para gerar mais postos de trabalho, direta ou indiretamente, deve ser facilitada pela cooperação de todos os atores da sociedade. Afinal, o Governo não é um fim em si mesmo; ele representa a sociedade dentro do processo democrático.

Nesse processo solidário, onde entra a vantagem competitiva?

Ao dispormos de uma sociedade solidária, preocupada com o outro, reduzimos a marginalidade, ampliamos os princípios e valores morais e éticos e de transparência, ampliamos a base do nosso exército de capital humano e avançamos para a construção do bem estar da sociedade. Quando alcançarmos esse paraíso, teremos reduzido os gastos correntes com segurança pública, incluindo presídios, com o assistencialismo, com o clientelismo e teremos colocado um novo termo às práticas viciadas das políticas públicas, cuja origem está na ausência da solidariedade e da cooperação. Quando isso for feito, o Estado se tornará mais eficiente na alocação dos seus recursos, com reflexo direto e imediato no aumento de sua competitividade. Solidariedade passa a ser o maior capital de uma economia.

Qual é o papel do Governo do Estado nesse modelo?

Governar é por em prática estas reflexões, livrando-as da demagogia. Governar é excluir as questões ideológicas e as vaidades. Ou seja, o projeto bom não tem heróis, é coordenado por líderes e se destina a todos. A gestão, obrigatoriamente, tem de ser eficiente. A discussão não é se o Estado deve ser mínimo ou máximo. Ele deve ser ágil, com processos e estruturas claros e transparentes e de fácil fiscalização pelo povo e por suas instituições. E liderar a construção do capital solidário.

Como está o Governo do Ceará nesse modelo da competitividade com solidariedade?

O Estado ainda não alcançou a competitividade, sem embargo do esforço e da credibilidade do seu atual governador. As estruturas burocráticas e corporativistas ainda representam sérias restrições ao novo modelo, sem falar dos grupos de interesse que pressionam, por todos os lados, a máquina pública. Não é fácil livrar-se desse emaranhado complexo que envolve o poder e a riqueza. Quanto à solidariedade – que nada tem a ver com a hospitalidade própria do cearense e do nordestino – o Governo do Estado deveria, na minha opinião, emular esse sentimento. Para começar, deveria já convocar a iniciativa privada, tornando-a co-responsável pelo desenvolvimento do Estado. Ela se encontra distante desse processo. Grandes grupos estrangeiros chegam aqui, sem que os grupos locais vencedores, que tem ampliado seus mercados, sequer participem do processo.

Mas a culpa é só do Governo?

Não. O governador tem convocado os empresários para o debate sobre os novos investimentos. Eles comparecem, mas, ao sair das reuniões, mostram-se descomprometidos. A cultura, que não é só do cearense, é a de que o empresário, ao quitar seu tributo, cumpriu a sua parte. Temos de transformar os caminhos do Ceará, mudando esse paradigma fortalecendo a ideia do capital solidário.

Será fácil?

Se entendermos que o novo modelo é bom para todos, estará criado um princípio de solidariedade diferenciando, nações de outras nações, o Ceará de outros estados. O empresário terá de sentir-se partícipe das mudanças e perceber seus benefícios – mais emprego, mais renda, mais segurança, menos policia, mais paraíso, um local ótimo de se viver.

Que papel tem a sociedade nesse modelo?

Inicialmente, fortalecer nossas instituições. O segmento da política deve fazer uma auto crítica sobre o que está sendo feito para a alteração dos regramentos da competitividade e sobre os esforços para o aculturamento da solidariedade para uma sociedade mais justa e menos desigual. A Justiça, por sua vez, deve prover, de forma expedita, o apoio às iniciativas pelo desenvolvimento e ritos sumários quando a questão for a solidariedade. As comunidades devem priorizar ações que ressaltem a dignidade humana. Uma pessoa dormindo no chão ou pedindo comida é responsabilidade de todos, assim como um pai de família desempregado. A estes lançamos um olhar, temos pena e, em muitas vezes, não tomamos atitude e seguimos adiante, como se aquilo não fosse conosco.

Essas transformações são possíveis em um Estado com vícios seculares?

São. Para isso, precisamos de um Estado enxuto, com menos instâncias de decisão, com uma revisão da lógica fiscal, tributária e previdenciária, com impostos desburocratizados, com previdência fundada e com acesso democrático ao serviço público, escolas, principalmente, com educação biocêntrica. Um Estado assim será competitivo, pois otimizará seus gastos e ampliará suas receitas, inclusive por meio dos organismos multilaterais. E, para alcançarmos o capital solidário é necessário uma reflexão bem maior sobre o outro, todos teremos de fazer a nossa parte e nos mobilizarmos, somente juntos superaremos a inércia da precariedade. Desenvolvimento (D) econômico com bem estar é função de capital tecnológico (Kt) , capital humano preparado (Ka), capital financeiro (Kf), capital institucional (Ki) e sobretudo, nos tempos de hoje, capital solidário (Ks).

(Diário do Nordeste)

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