O El Niño é um fenômeno atmosférico-oceânico causado pela alteração da diferença de temperatura entre o Oceano Pacífico na região equatorial próxima a Oceania e a região próxima a América. Sua ocorrência provoca alteração na circulação atmosférica local e de várias regiões do planeta, alterando principalmente o regime de precipitação e, em alguns casos, a temperatura.

Além da alteração na circulação atmosférica, a mudança da temperatura do oceano interfere na circulação da água oceânica e assim são alterados também os locais de ressurgência (subida de água das partes profundas para a superfície, transportando consigo nutrientes), que permitem a sustentação de cadeia alimentar para os cardumes de peixes.

O El Nino recebeu este nome pela associação que os pescadores peruanos faziam entre a modificação temperatura do oceano com a ocorrência de cardumes de peixe por ocasião do período do comemoração do nascimento do menino Jesus. Pois este ano o El Niño chegou mais cedo, permanecendo até a época do Natal.

No primeiro semestre, a Temperatura da Superfície do Mar do Oceano Pacífico Equatorial e próxima do continente americano (TSM nino 3) aumentou e passou de uma fase fria para uma fase quente. Em julho, esse processo produziu valor próximo do unitário, o que caracteriza a instalação do fenômeno El Niño e que inclusive teve pequeno incremento até dezembro.

Com essa situação, estão ocorrendo precipitações acima da média no sul do Brasil, e abaixo da média no nordeste do País. Isso afeta a agricultura dessas regiões e causa reduções na produtividade devidas aos excessos ou às deficiências hídricas para as culturas. Na região Centro-Oeste, não há evidências de alterações nos padrões deprecipitação e de temperatura causados pelo fenômeno. Contudo, este ano, durante todo o período de ocorrência do fenômeno, estamos observando aumento da precipitação na região do Distrito Federal, e o prognóstico é de que esta situação se mantenha no trimestre que vai até fevereiro.

Apesar disso, não é descartada a possibilidade de veranico na capital do País, apenas a possibilidade de ocorrência é menor, visto que existe correlação entre menor ocorrência de veranicos em anos com maior lâmina de precipitação. Portanto existe na região uma situação favorável para a agricultura em termos de menor risco de perdas de produtividade nos cultivos anuais de sequeiro provocadas por deficiência hídrica nos seus períodos mais sensíveis. Justamente no período de aumento das chuvas, essas lavouras devem florescer e iniciar o enchimento de grãos (o que deve ocorrer até fevereiro).

Contudo juntamente com as precipitações ocorre o aumento do período de molhamento foliar o que aumenta a possibilidade de infecções e desenvolvimento de doenças nas culturas. Assim os agricultores terão

ficar atentos aos sinais de ocorrência de doenças e aos alertas sanitários para que esta situação meteorológica seja realmente benéfica.

ARTUR GUSTAVO MULLER é pesquisador da Embrapa Cerrado (agmuller@cpac.embrapa.br)

(O Povo Online)