Por Paulo Kramer – Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB) e analista da Ornelas & Ornelas – Consultoria

O cientista político Cesar Romero Jacob, do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, é autor de algumas das contribuições mais criativas e consistentes aos estudos eleitorais brasileiros nos últimos tempos (veja-se, por exemplo, Jacob e outros, “A eleição presidencial de 2006 no Brasil: continuidade política e mudança na geografia eleitoral, revista Alceu, v. 10, nº 19, p. 232 a 261— jul./dez. 2009). A originalidade do seu trabalho consiste em cruzar dados de todos os pleitos presidenciais no período da Nova República (1989, 1994, 1998, 2002 e 2006) com informações provenientes das 558 microrregiões brasileiras definidas pelo IBGE. Como o estudo do passado — apesar de este jamais se repetir inteiramente — é o único meio ao nosso alcance para tentar prever o futuro, vale a pena conhecer alguns dos principais resultados das pesquisas do professor Jacob de olho na sucessão do presidente Lula, em 2010.

Em primeiro lugar, a análise do perfil demográfico, social, econômico e político das microrregiões aponta três grandes vetores do voto: os grotões, pequenas cidades do interior comandadas pelo coronelismo, com cerca de 46 milhões de eleitores; as periferias pobres das metrópoles, onde a política está nas mãos das máquinas partidárias de líderes populistas e dos pastores evangélicos; e as classes médias e altas urbanas, muito divididas nas suas opiniões e atentas aos programas eleitorais e às propostas de política pública. Lula só ganhou quando, a partir da eleição de 2002, ele e o seu PT conquistaram a confiança de metade a quase dois terços do conjunto desses três segmentos, adotando a estratégia de moderar seu discurso para torná-lo mais palatável ao centro do espectro político-ideológico. Aliás, desde Collor (1989) até Lula (2002 e 2006), passando por FHC I e II, só chega ao Palácio do Planalto quem se mostra capaz dessa performance.

Em segundo lugar, o eleitorado costuma votar com o bolso. No pleito de 2006, Lula se reelegeu vencendo disparado entre as classes mais pobres graças aos programas sociais do seu governo (Bolsa Família, Luz para Todos, aumentos do salário mínimo sempre acima da inflação). Geraldo Alckmin,seu oponente do PSDB, perdeu a eleição, mas colheu os melhores resultados de votação nas regiões onde o agronegócio exportador sofria com o real muito valorizado.

Em terceiro lugar, essas preferências socioeconômicas são georreferenciadas, isto é, Lula obteve a votação mais maciça nos estados das regiões Norte e Nordeste, enquanto o ex-governador Alckmin, além do seu estado, São Paulo, teve o melhor desempenho no Sul e no Centro-Oeste (redutos do moderno agronegócio).

O que nos leva a interrogar o futuro. Os prováveis candidatos dos dois partidos que, de 95 para cá, se alternam na presidência (PSDB e PT) — o governador José Serra e a ministra Dilma Rousseff, respectivamente – participarão de uma disputa inédita na história da Nova República, no sentido de que será o primeiro pleito presidencial sem Lula. Será que a ministra logrará beneficiar-se da transferência do carisma do seu popularíssimo chefe? (Até hoje, isso nunca aconteceu em sucessão presidencial, as únicas exceções se limitam a eleições municipais: em São Paulo, 1996, Maluf fez Pitta; no Rio, mesmo ano, Cesar Maia fez Conde.) Será que Serra conseguirá compensar uma previsível derrota no Norte/Nordeste, carregando de lavada, não apenas São Paulo e o Sul, mas também os dois outros grandes colégios eleitorais, de Minas Gerais e Rio de Janeiro? (Na eleição passada, seu antecessor e correligionário Alckmin levou SP, mas não arrastou MG nem RJ, que foram de Lula no segundo turno.)

Bem, senhoras e senhores, façam suas apostas — já sabendo que, em qualquer campanha eleitoral, a única pesquisa que realmente vale é aquela que sai das urnas.

(Correio Brasiliense)